quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A TURMA DO GUARUJÁ – PARTE 2

Matéria publicada em 2003

Continuando de onde paramos na postagem anterior, resgato mais um texto que fiz e foi publicado na Revista VENICE Mag, aquela com o Paulo Tendas na capa (veja a última imagem da postagem anterior a esta). O título original que dei à matéria era uma comemoração aos 25 anos da indústria de surfwear sedimentada por surfistas paulistanos.

ABERTURA DA MATÉRIA PUBLICADA EM 2003
FOTO ALEKO STERGIOU

Quando escrevi esta reportagem minha primeira ideia foi chama-la “Bodas de Prata da Surfwear Paulista”, mas o editor da Venice, Fernando Costa Neto, o Dandão, teve a impactante ideia de alterar para SURF LTDA.
Dandão é um de meus brothers de infância, com ele fiz uma bela entrevista recentemente, que ainda poderá sair na íntegra aqui e será de muita utilidade na base de pesquisa para o projeto de meu livro.

DANDÃO COMEÇOU A SURFAR EM PITANGUEIRAS, HOJE É LOCAL DO CANTO DO MOREIRA EM MARESIAS. FOTO RETIRADA DE SEU FACEBOOK. AGUARDO AUTOR DO CLICK PARA DAR O DEVIDO CRÉDITO

Fernando Costa Netto tem o DNA de um puro jornalista, foi um dos que ajudou Paulo Lima e Califa a conceituarem a revista Trip quando ela nasceu em 1986. Trabalhou como editor de jornais diários como o Notícias Populares, viajou para a Iugoslávia em meio à guerra que dividiu o belo país europeu, entre outras aventuras, muitas delas ligadas ao surf. Nos anos 1990 tive um relacionamento estreito com ele quando trabalhávamos na mesma sala na Editora BWE, eu dirigindo a Hardcore e ele com liberdade total para desenvolver mais um produto ambicioso, a revista BOOM, outra publicação que ele concebeu e deixou sua marca no mercado editorial brasileiro. A história de Dandão é muito interessante e terá espaço nobre neste blog. Ele foi o mentor (em parceria com Wanderley Romano, dono do Bar Venice, na capital paulista, hoje atuando com o Salve Jorge), juntos criaram a primeira revista de bolso - pocket magazine do Brasil, a Venice Mag, no meio dos anos 1990.
Nesta edição de número 80, lançada em 2003, além da matéria “SURF LTDA”, ainda saiu publicada mais uma brilhante ideia editorial de Dandão, quem sabe um dia ainda publicarei ela completa aqui neste blog.

ABERTURA DA MATÉRIA

Porém a ideia aqui é continuar a contar a história desta turma do Guarujá, especificamente dos surfistas da capital paulista que frequentavam o Guarujá, com destaque agora para oito selecionados empresários que se destacaram no ramo da surfwear.
Intercalarei as imagens que scaneei numa impressora comum (ampliando dá para ler e ver os créditos de fotografia), mas colocarei o texto original que tenho guardado em meus arquivos, fica mais fácil a leitura. Um último detalhe é que por motivos de espaço Dandão fez “pequenos” cortes e adaptações no que acabou saindo publicado, eu também dei uns pitacos, mas o texto não foi atualizado. Aproveitem mais esta overdose de informações que eu jamais conseguiria encaixar em meu livro, mas que fica registrada aqui neste blog. Tudo isso faz parte do projeto. E que me perdoem os “milhões” de amigos não citados.

IMAGENS DA VENICE MAG INTERCALADAS COM O TEXTO ORIGINAL
SURF LTDA.
ou
BODAS DE PRATA DA SURFWEAR PAULISTA

Por Reinaldo Andraus

QUANDO UM PEQUENO GRUPO DE JOVENS EMPRESÁRIOS DA CAPITAL PAULISTA DECIDIU QUE A FORMA DE SUSTENTAR SUAS VIDAS SERIA TRABALHANDO COM ALGO RELACIONADO AO SURF, ESTAVA SE INICIANDO UMA SAGA.
HOJE FAZ MAIS DE UM QUARTO DE SÉCULO QUE FOI PLANTADA A SEMENTE, DO QUE PODE SER CONSIDERADA A BASE DE SUSTENTAÇÃO DO SURF BRASILEIRO.



O balneário de veraneio mais sofisticado do litoral paulista no início dos anos 70 foi o pano de fundo para o surgimento da primeira geração de empresários da surfwear brasileira, embora algo similar tenha ocorrido no Rio de Janeiro, o aspecto de cidade grande do Rio não permitiu que se formassem ali os mesmos elos especiais que existiram no cerne daquela "turma" de paulistanos. Ainda havia um agravante, passado o final de semana, eles estavam no coração de Sampa, o pulmão econômico da América do Sul, a quase 100 kms das ondas mais próximas. Sem o mar na porta de casa para distrair, o jeito era arregaçar as mangas, trabalhar e planejar a próxima surf trip.

O cenário: a enseada formada pelas praias de Pitangueiras e Astúrias, o epicentro do Guarujá, ondas quebrando 360 dias por ano, mar liso quase todas as manhãs, a Ilha Pombeva, estrategicamente colocada no meio da praia, servindo como 'escudo' para que pudéssemos varar a arrebentação nos dias mais casca grossa, o Canto das Galhetas, as praias do Guaiuba, Tombo, Pernambuco e Perequê, para quando a situação ficasse realmente fora de controle, São Pedro e, indo um pouco mais longe, as MARAVILHOSAS Praias do Litoral Norte; o toque final - um bando de garotos adolescentes, que se tocaram que o surf era o melhor passatempo do mundo e estava ali, de bandeja, para que desfrutassem.
No final dos anos 60 houve o primeiro grande boom do Guarujá, que naquela época era acessível apenas por balsa. Prédios e mais prédios, novinhos em folha, se ergueram de frente para o mar em Pitangueiras e o solitário Edifício Tendas, nas Astúrias. As ondas estavam ali todos os dias e a garotada, filhos de abastados cidadãos da paulicéia, curtiam a praia e o mar, que era o quintal dos apês deles. Um cineminha no centro, uma pelada de futiba à tarde, quando as barracas eram recolhidas e, o principal, as ondas. Todos tinham uma tabuinha de madeirite (para ir deitado), depois vieram as Planondas de Isopor, por fim as pranchas, pesados pranchões São Conrado, Glaspac, Induma e até alguns importados Gordon & Smith, Hansen, Bing... Claro! Os pais tinham grana.
AMIGOS DE INFÂNCIA - AMIGOS ATÉ HOJE
A idade média dos que se iniciavam no surf naquela época era 12 para 13 anos. Havia alguns tardios, que começaram mais velhos e os mais precoces, cujos próprios pais se atraíram pelo esporte e jogaram molequinhos na água. Uma coisa era certa, quem queria se aventurar naquela época, tinha que saber nadar bem, as cordinhas nem haviam sido inventadas. Uma outra coisa peculiar, era que dado o caráter provinciano do Guarujá, todos se conheciam e quando pintava um novo adepto, ele logo se entrosava. Depois de surfar o dia inteiro a galera se reunia no centrinho do Guarujá, em frente ao Cine Praiano (hoje um boliche), para tomar um sorvetinho, ficar paquerando e sempre prevendo o que ia acontecer com o mar no dia seguinte.
Era fácil distinguir uma rodinha de surfistas, cabeludos e alourados, roupas largadas, conversando gesticulando de forma característica, tentando imitar como haviam pego aquele tubo, dado uma batida animal no final de tarde, ou desferindo cutbacks imaginários com o corpo. Temporadas inteiras de verão a turma se encontrava na água, gritava um: WOOHOO!!! - quando tomava aquela chuveirada da rasgada do amigo na sua cara e à noite colocava o papo em dia na Galeria "Caminho do Mar". Muitas vezes rolavam agitos nos salões de festa dos prédios, luz negra, estroboscópica, posters psicodélicos, estávamos no início dos anos 70; também pintavam algumas reuniões mais íntimas, nos apês da galera. Uma amizade coesa, que transcendia escolas, ou bairros de Sampa, se formou entre estes adoradores do culto das pranchas. Eles foram para a faculdade, trocaram de amigos na escola, trocaram de namoradas, mas não os companheiros das baladas do surf.

QUEM É QUEM
A medida que foram se formando na universidade e tiveram de começar a trabalhar, os caminhos foram diversos. Mas uma atividade ganhou destaque para um pequeno grupo que se expandiu da primeira até a terceira geração de surfistas de Pitangueiras: o ramo de surfwear. Só para se ter uma idéia (e me desculpem os brothers não citados - isso é apenas uma amostragem), vamos dar uma varrida na praia de Pitangueiras, só pegando os prédios de frente para o mar, partindo do Maluf, em direção ao Sobre as Ondas. No Edifício Marulho, ficavam as famílias Chiarella e Rego. Thyola Chiarella hoje é o mais tradicional fabricante de pranchas do Guarujá, não só com suas Lightning Bolt, mas também com outras marcas e sempre convidando shapers internacionais. Seu irmão Madinho Chiarella, junto com os irmãos Fernando e Zezinho Rego, foi um dos fundadores da Lightning Bolt confecção.
Seguindo praia abaixo, no Edifício Perequê encontrávamos Garça, ou Fábio D'Aprille, herdeiro dos deliciosos chocolates Laf, depois apicultor de carteirinha. Passando pela avenida da Igreja, de um prédio localizado na primeira quadra da Puglisi, os irmãos Villardi, Marcelo e Maurício, checavam as condições da Ilha. Marché, um dos melhores surfistas do Guarujá no início dos anos 70, até hoje ainda fornece para algumas confecções. Na quadra seguinte, passando a avenida que dá aceso ao centro, localiza-se o Edifício Panorama, onde os irmãos Bibi e Dandão Costa Netto, com suas pranchas gêmeas, de bordas vermelha e azul, checavam as condições da Ilha, no início dos anos 70.
José Maria Whitaker de Queiroz e seu irmão José Luiz, também eram locais da área.
Na próxima esquina tinha o Edifício San Remo, com suas janelas azuis, lá morava o saudoso José Roberto Rangel, fundador da Town & Country, um dos mais carismáticos da turma, surfista de primeira, estiloso, amante de um uisquinho. Infelizmente um acidente automobilístico levou o "Zuzo Bem" para o outro lado da vida. Na quadra seguinte, que hoje tem o parquinho (antes era o Cassino), fica localizado o Edifício Alcatrazes, de onde o hoje biólogo, Paolo Zanotto, esperava a hora certa para colocar sua prancha Diffenderfer, 7'4" - dove tail, de madeira balsa, na água.
GAIVOTANDO
Na quadra em que foi demolido o Grande Hotel Guarujá, bem em frente a Ilha Pombeva, ergueu-se o Conjunto Brasil Colonial, ancorado sobre as duas mais tradicionais sorveterias do centrinho, a Caramba, apontada para o Cassino e o Clube da Orla (hoje Shopping La Plage) e a pioneira Sorveteria Guarujá, de frente para a galeria. De frente para o mar fica o Edifício Vila Rica, com a mais antiga loja de surf do Guarujá no térreo, virada para a Galeria Caminho do Mar. Lá já funcionou a Surf Center, a primeira e por um bom tempo a única surf shop do Guarujá, depois uma das dezenas de lojas da OP e agora, mantendo o ramo de atividade por três décadas, um loja Sthill. O visual que tenho dali, bem em frente a Ilha, do nono andar, é um dos melhores. Meu pai inaugurou o apartamento em 67, quando o prédio ficou pronto, viemos de um outro apê no Canal 4, em Santos. Lá eu já surfava com aquelas tabuinhas de ir deitado, com bico envergado e um buraco para enfiar a mão na borada. Quando vi uns caras surfando de pé, do lado da Ilha, fiquei curioso. Meses depois o filme Endless Summer entrou em cartaz, fui assistir e comecei a campanha para ganhar uma prancha. Tive de ficar "gaivotando", fazendo uso de pranchas perdidas, até a Páscoa de 69, quando finalmente ganhei um pranchão Glaspac MK 3. Talvez eu tenha sido um dos mais ecléticos da turma, me envolvi com surf produzindo o quadro Surf Special, na TV Bandeirantes, fui convidado para ser editor da Fluir, depois me tornei sócio da Hardcore, fui trabalhar no marketing da Quiksilver, abri uma surf shop e agora estou de volta as raízes do jornalismo de surf, minha maior paixão. 

Atrás do Vila Rica, completando o Conjunto Brasil Colonial, ficam os grandes prédios gêmeos, Ouro Preto e Sabará, lá morava Daniel Setton, outro dos fundadores da Lightning Bolt, um dos primeiros a fazer calções de surf de forma independente. Hoje Dany Boi, vive em Floripa, é um dos reis dos bonés em esfera nacional, o cara conhece o ramo como poucos. Dany foi instrumental na formação da Abrasp.
Na mesma quadra na qual antigamente ficava o complexo do Grande Hotel, do outro lado da Passagem Caminho do Mar, fica o Edifício Samambaia. Às vezes me via gritando (100 metros de distância), dos terraços dos prédios, mostrando séries e instigando para uma queda, meu pilhado amigo Raphael Levy, mais conhecido como Fico. No Samambaia tinha uma boa turma de surfistas, Silvio Lee, Monstrão e mais uma galera que sempre se hospedava com eles. Falando em hospedar, descendo a praia chegamos a um dos mais antigos prédios da praia, o Edifício Guarujá. No térreo a choperia Terraço Atlântico (hoje uma Mega Store da Rip Curl). Lá os irmãos Claudinho Celso e Augusto Pieroni, hospedaram inúmeros amigos nas temporadas de verão: Celsinho da Wagon, o excelente surfista Renatinho Aranha, Alírio, Lucha Figliolia, os irmãos Mariola e Burú Cordeiro e muitos outros.

MONDUBA
Na maioria dos lugares as ruas de frente para a praia dão nome aos picos. Em Pitangueiras desde cedo, quando perguntávamos aonde alguém havia caído, usávamos os nomes dos prédios. O mais célebre deles, que virou um dos picos mais tradicionais, é o Monduba, bem no meio do caminho entre a Ilha e o Canal. O Edifício Monduba é um dos mais baixinhos e antigos da praia. Lá ficam os irmãos Curi, adeptos do ramo de importações, seguindo os passos do pai: Plínio, entre outros produtos (já teve exclusividade de importação das roupas de borracha O'Neill e dos óculos Style Eyes - na época em que Shaun Tomson fazia estilo com eles) é responsável pelos relógios Shark, skates Sector 9 e pelos acessórios On a Mission, passando boa parte do ano nos EUA. Seu irmão Sandro, prefere tomar o rumo do oriente, mora no Guarujá, crowdeia o Monduba diariamente e toca a Kembali, trabalhando com exclusividades vindas da Ásia.
Praia abaixo alguns prédios gêmeos como Icanhema e Monguatá, neste último hospedava-se a família Tenucci, Sidão e seu irmão, grande músico, Datcha. Num dos sótãos da garagem deste edifício nasceu a fábrica de pranchas Green Room, com os shapes e laminações alquimistas à cargo de Sidão e Zé Roberto Rangel, que logo perceberam que o ramo deles era outro. O prédio vizinho, o grande Edifício branco, o Alvorada, durante um tempo hospedou um grupo de gringos que se entrosou com a turma, Justin, Steve e Mark Lund, que ficava num outro prédio mais para trás, hoje Mark toca a rede de franquias Le Moussier e o Bar Legends, em Maresias.
Um dos caçulas da geração de empresários das 'Pitangas', que sempre utilizou seu apartamento no Alvorada como celeiro para novos e grandes talentos da região, é Kemmel Addas Neto, mais conhecido como Nê. Ele começou com a Body Glove no Brasil, depois lançou a Mandingo, que mais tarde virou Dingo. Hoje Nê é um dos estilistas de surfwear mais experientes do ramo, trabalhando na Wagon.
Na quadra seguinte outros prédios gêmeos são o Conde e Tucuruçutuba, patrioticamente verde e amarelos, perdi a conta de quantos bancos de areia de direitas perfeitas alinhei em frente a estes dois prédios. Lá ficavam os brothers Von Sydow, o goofy Dodo, big rider de carteirinha, foi parar no Hawaii, primeiro tocando a loja Linden Hawaii e agora no ramo de captação de energia solar. Instalando estes sistemas, ele rodeia a ilha de Oahu, sempre atrás das melhores ondas. O irmão mais velho é o falante e flamboyant Christian, crowd de um homem só, quando entra no seu querido Canto do Moreira. Christian também tem uma carteira corrida longa na surfwear brasileira, começou como representante da Mormaii em São Paulo, depois abriu sua marca, a Fitness, mexeu com a Linden, Counter Culture, Raisins, Select, Strong Current... Não vou conseguir lembrar tudo que o cara fez, mas sem dúvida é um dos maiores experts do ramo e quando ele se empolga é bom sair da reta.
BIG RIDERS DO GUARÚ
Nessa mesma quadra fica o majestoso Edifício Vila Pinhal, durante muitos anos era o único que passava a barreira dos 16 andares. No décimo nono, Taiu checa o mar diariamente passando as condições do mar em seu site para os internautas. Taiu, Jorginho Pacelli, Sylvinho Mancusi, Tarzanzinho eram garotos que, desde cedo, eu percebia que tinham o faro de big rider. Um dia me lembro de acordar de manhã bem cedinho, o mar estava enorme, ninguém na água. Olhei de meu apê, em frente a Ilha e percebi que as ondas mais surfáveis estavam ali na região do Canal, uns direitões sarados. Entrei pela ilha e vim remando, meio cabreiro de cair num mar daqueles sozinho. Quando me aproximei de onde abriam as direitas, apareceu um cara varando o quebra-coco na raça, sem nem dar a volta pelas Astúrias. Era Taiu, não devia ter nem uns 15 anos nessa época, mas já tinha o gosto pelas grandes. Surfamos sozinhos, altas, por um bom tempo, até que aparecesse mais alguém lá fora.
Na última quadra antes do Canal, os edifícios Capri, Bertioga, Estoril, Tocantins e Esmeralda hospedam uma constelação de grandes surfistas das primeiras gerações de Pitangueiras. Sergião Sachs, vice-presidente de empresa do ramo de auto-peças, talvez o mais viajado de todos, conhece os cinco cantos do mundo, desbravei Nias com ele há mais de duas décadas. Junto de seu inseparável amigo Alain, passou por roubadas em Saquarema e momentos de descobertas, como a do Guaiúba, surfado grande e clássico pela primeira vez. Histórico!!! No Bertioga vive talvez o maior talento nato de toda história do Guarujá, Egas Atanázio foi um dos mentores de surfistas como Paulo Tendas e todas as primeiras gerações do Guarujá. Além de um estilo apuradíssimo Egas usava sua cabeleira loira, até os ombros, para dar um flair especial às suas manobras. Adepto da escola californiana de estilo clássico, trocava de base com uma destreza ímpar. Nunca perdia a composição sobre a prancha.
Essa região do Canal era a base de figuras de diversos estilos. Edgard Amaral, o Adê, sufista rápido, tube rider, vive entre Bali e suas propriedade na Guarda do Embaú, depois que uma misteriosa tia milionária faleceu, virou especulador na bolsa (usando seu background de formado na FGV), nunca mais trabalhou convencionalmente. Surfou e surfa muito. Os irmãos eram muitos Mané e Quincas Rebello; os Blumenthal, Roberto (Blu) e Ronaldo "Micro", da Spy Sunglasses; os irmãos Lagnado, Karl e Alfio. Carli é um dos maiores especialistas em bordados do ramo e Alfio dispensa comentários, sua história é o retrato do êxito que um trabalho, iniciado com apoio dos pais, aliado a competência e feeling, pode gerar ao longo dos anos. A história vem logo abaixo. Pahoa, Waltinho, Serginho Ricardi, Paulinho Esmeralda. Já na última quadra, no Edifício Piavú, fica o shaper e baterista Britão (sócio de Thyola nas pranchas Moby - antes da Lightning Bolt), que se jogou para a Pipa, depois para Itacaré. Finalizando Pitangueiras com os irmãos Brandi, Xan e Murilo, locais do Sobre as Ondas, deixando de lado um número incontável de personagens e passagens pitorescas desta história de uma geração de surfistas, que talvez ainda mereça um livro.
TURMA DE RESPEITO
Quando a primeira geração de surfistas do Guarujá se cristalizou, havia apenas um único prédio na praia das Astúrias, o Edifício Tendas, mas esse prédio hospedava a chamada turma das Astúrias, um punhado de surfistas de alto calibre. A começar por Roberto Teixeira, o primeiro grande big rider do Guarujá, hoje Pro-reitor da Unicamp. O fato de morar em Campinas não afastou Teixa do surf. Seu estilo apurado, e técnica perfeita ainda o farão brilhar entre os Legends de pranchão, arte que domina com a classe habitual de sempre. Seus vizinhos eram Marceló Fló, o Magoo, primeiro advogado da Abrasp. Os desaparecidos dessa turma eram o competente colega de Teixa nos mares grandes, o cabeludo Luís Melo, mais conhecido como "Loira Sádica", com sua Dick Brewer 8'2". Outro loirinho, baixinho e irado, o Této e o grande Chicão. Mas o maior de todos os surfistas dali incorporou o nome do prédio ao seu.
Paulo Tendas foi talvez o primeiro surfista do Guarujá a ganhar notoriedade (foi o primeiro paulista a vencer um evento nacional - em Itajaí) e também um dos primeiros brasileiros a aparecer nas revistas Surfer e Surfing com maior destaque. Paulinho era o pulmão comercial da Revista Surfer, na sua versão em português e surfava muito até o seu trágico falecimento, esfaqueado pelo próprio irmão, no início dos anos 90. A praia das Astúrias e os prédios que ficavam para trás ainda hospedaram o início da trajetória de outros personagens fundamentais para a história da surfwear brasileira. O Tucano, fundador das lojas Star Point e Ermínio, da Sundek, deram seus primeiros passos no surf na praia das Astúrias, no início dos anos 70. Nas ruas de trás do Guarujá, nas praias da Enseada e Pernambuco, outro grande contingente de futuros empresários de sucesso floresceu. Os irmãos Lumbra, Roni e Ricardo Fincato, começaram com projeções de filmes de surf. Suas sessões performáticas no auditório da GV, em São Paulo, eram antológicas, balões voando, perucas prateadas e as Lumbretes deixavam a galera em delírio, no ponto para assistir cenas iradas na tela, numa época pré vídeos de surf.
Da praia de Pernambuco veio outro grande fabricante de pranchas, Paulo Ribeiro, o Xanadú, que mudou para os EUA há mais de uma década. Alex Von Gerichten, o big rider Alemão de Pernambuco. Na Enseada ficavam Carlinhos Motta, os irmãos Andreatta, Xan e Romeu, que junto com Brunão, Grilo e Claujones, também frequentadores do Guarujá, fundaram a Fluir. Maurício Moreira da Hardcore começou surfando lá, bem como outras pessoas da mídia, Luís "Feio" Sala, precursor com programas de surf nas ondas do rádio, Paulo Lima e Califa, da Trip. Todos começaram nas ondas de Pitangueiras e beiram os 40 anos. Dentro de todo este contexto, pinçamos oito empresas embrionárias, com mais de 20 anos de atividade, contando a história delas procuraremos traçar o perfil desta geração de marcas que foram a catapulta que alavancou o Circuito Brasileiro de Surf e a consequente profissionalização do surf, não só como esporte, mas também empresarialmente.
LIGHTNING BOLT - UM RAIO - O ESTOPIM DE TUDO
Me lembro que quando comecei a surfar, no final dos anos 60 e até no início dos anos 70, usava bermudas de helanca (tipo uma lycra bem mais grossa), compradas em lojas de esporte. Passados alguns anos descolávamos alguém que fosse para os EUA, para trazer umas surf trunks gringas pra gente. Era o máximo. Nas primeiras Brasil Surf, em 75, ainda eram muito raros os anúncios de surfwear, os anunciantes eram mais fabricantes de pranchas. Nas últimas edições (em 1978) já apareciam os Calções Tico (Cavalcanti), produzidos no Rio, mas estamas falando dos empresários da turma do Guarujá. A surfwear estava engatinhando, mesmo lá fora. As roupas mais cobiçadas eram as Hang Ten, Jantzen, Birdwell e marcas que surgiram um pouco depois como a Katin e a OP. Empresas como O'Neill e Rip Curl, produziam, única e exclusivamente roupas de borracha.
Como a história comprova, os grandes ídolos do esporte, especificamente o que eles usam, sempre foi uma das maiores alavancas de marketing. No início dos anos 70, um personagem específico, era uma unanimidade da envergadura do que é um Kelly Slater hoje: Gerry Lopez. Lopez era sócio da Lightning Bolt, mais famosa por suas pranchas, mas a surfwear veio a reboque e todos queriam usar qualquer coisa que tivesse um raio. Me lembro como se fosse ontem, o ano era 1974, apareceu um gringo no Guarujá. Seu nome: Mark Jackola, ele shapeava pranchas junto com Lopez e veio parar no Brasil como representante da marca. Voltou vários anos para cá, morou temporadas inteiras, trabalhando com o Thyola, cheguei a ter várias pranchas dele, muito boas por sinal. Mas nossa história gira em torno da surfwear e não das pranchas, então aí vai um episódio inesquecível.
Numa de suas idas e vindas do Hawaii, Jackola trouxe na bagagem um pack de camisetas Lightning Bolt. Estávamos, um grupo da galera das antigas do Guarú, no apartamento do Dany Boi, no Conjunto Brasil Colonial. Mark colocou umas 20 camisetas sobre uma mesa e no típico estilo representante, com seu mostruário, começou a mostrar as estampas. Uma a uma. Fiquei vidrado numa que era a imagem de Lopez naquela famosa batida no Ala Moana Bowl, que foi capa e pôster da Surfer. Foi minha primeira camiseta de surf. Antes de tudo Thyola começou a produzir pranchas, com shapes do Jackola, deixando de lado a tradicional Moby Surfboards, com shapes do Britão, que vinha desde 69. A primeira marca de surfwear registrada foi a própria Lightning Bolt, em 7/7/77. Os sócios originais eram Madinho, irmão de Thyola, Fernando "Chivas" Rego, seu irmão Zezinho, o caçula da turma, que começou lixando pranchas na fábrica do Thyola, Dany Boi e Santinho, que cuidava da produção. Dany, que vira e mexe se jogava para Imbituba, fez uns ensaios anteriores produzindo bermudas com a marca Nazimbi. O próprio Sidão, que mais tarde montou a OP, começou produzindo os acessórios (cordinhas), com a marca Lightning Bolt.
Com o passar dos anos Dany foi morar no Sul. Zé Roberto foi para a Primo e depois abriu a Town & Country, em sociedade com Celso, que viria a formar a Wagon. A marca Lightning Bolt acabou ficando na mão da família Rego. Mais tarde Zezinho e Fernando, se juntaram à sócia Lita, esposa de Fernando Chivas. Em 82 eles começaram a produzir a Quiksilver, marca que mantiveram o licenciamento até 96. Quando voltaram novamente o foco para a Lightning Bolt, pois ela tinha sido deixada em segundo plano por força do contrato com a Quiksilver. No início da surfwear nacional as bermudas Lightning eram as mais cobiçadas, eles montaram a primeira fábrica para produção de bermudas de surf em grande escala, com fileiras de costureiras trabalhando e máquinas especiais para dar qualidade aos surf trunks.
Nos anos 80 o surf começou a crescer e se estruturar, Zezinho e Fernando sempre tiveram a visão de que uma equipe de surf era um instrumento de marketing importantíssimo. Chegaram a ter quase 20 atletas, entre surfistas consagrados, promessas e veteranos. A Lightning Bolt foi a primeira empresa a colocar barraca na praia durante os eventos, chegou a ter uma barraca de dois andares. Outro investimento pioneiro foi no Circuito Junior e Mirim em São Paulo. O circuito se transformou no maior celeiro de novos atletas. Em 87, quando iniciou o Circuito Brasileiro de Surf Profissional, com a criação da Abrasp, a Lightning Bolt era uma das cinco marcas que participou com um evento no histórico circuito de abertura da Abrasp.

VIAGENS DE SONHO
Essas cinco marcas cresciam juntas e naquele ano de 87 formaram a base de sustentação do surf profissional brasileiro. No meio dos anos 90, a Revista Trip, visando comemorar seu décimo aniversário de publicação organizou uma viagem especial. Acompanhados pelo fotógrafo Roberto Price e pelo jornalista, Fernando Costa Netto, foram cinco empresários, surfistas que começaram pegando onda no Guarujá, amigos de infância. Cada um deles levou um patrocinado. Representando a Lightining Bolt foram Zezinho e Picuruta, Fico levou Kias de Souza, a OP teve Sidão, ao lado de David Husadel, Ermínio, da Sundek, levou Tinguinha e completando a turma de precursores da Abrasp, Zé Roberto da Town & Country e Amaro Matos.
Zezinho lembra desta viagem para a Costa Rica: "Foi uma das melhores coisas que a gente foi agraciado por fazer parte desse mercado. Juntaram cinco empresários, que na verdade eram cinco amigos e cinco atletas, que além de atletas profissionais, todos também eram amigos. Éramos os fundadores do Circuito Brasileiro e com uma grande vantagem, a gente se conhecia já há muito tempo. Na realidade a gente voltou como se fosse uma máquina do tempo, parecia que tínhamos 17 anos. Aquilo serviu para mostrar que quem está no mar e pega onda, é uma coisa que não tem idade, o fato de você estar se sentindo bem, com os profissionais ao seu lado surfando e você estar ali no meio. É uma coisa que se torna inesquecível, porque as lembranças, as brincadeiras, tudo... A gente parecia moleque. No primeiro mar caímos só eu o Sidão e o Dandão, que escreveu a matéria, foi um mar de 6 pés, em Salsa Brava, já estava lá o fotógrafo Roberto Price. Os profissionais ainda não haviam chegado. Altas ondas. Depois pegamos em Playa Negra, Tamarindo, Avellanas. O mais gostoso era a confraternização, viajamos em três carros grandes, a gente chamava de camburão. Fizemos rafting nas corredeiras. Foi demais."

COMEMORAÇÃO EXAGERADA
Essa amizade entre atletas e patrocinadores, feita dentro d'água, é uma das coisas mais especiais que o surf pode proporcionar. Quando as equipes se encontravam nos campeonatos, não eram só disputas para ver quem era o melhor na água, a festa rolava antes, durante e principalmente depois dos eventos. Zezinho lembra: "Em campeonatos nossa equipe sempre deu um retorno muito bom. O Almir chegou a ser pentacampeão paulista, o Picuruta sempre teve destaque nacional e internacional também, em J-Bay e outros lugares. Mas os campeonatos no Brasil que geravam situações bem pitorescas. O pessoal era bem agitado, juntava o Picuruta, o Almir e o pessoal do Canal 1 e eles faziam literalmente tremer a praia. Tem várias passagens, mas os campeonatos em que as comemorações eram as mais festivas, foram em Ubatuba, lá juntava toda galera de São Paulo. E a gente tinha como grande amigo, o Zé Roberto, da Town & Country, que também tinha uma equipe muito boa. Hoje o Zé deve estar lá no céu, pegando altas ondas. Ele patrocinava os irmãos Matos, do Tombo. Então eram duas equipes patrocinando irmãos e eu, meu irmão e o Zé éramos como irmãos, por causa de nossa amizade de longa data. As duas equipes se deram bem nesse campeonato e nos juntamos a um pessoal da imprensa, mais alguns convidados e fomos comemorar na Pizzaria Perequim, a gente lotou praticamente o restaurante inteiro. E aí começamos a comer, beber cerveja, aquela coisa normal de comemoração, um tirando uma com a cara do outro. Daí chegou um bolo que nós havíamos encomendado e o Picuruta, sempre ele, começa a fazer guerra de bolo. Da guerra de bolo o negócio foi evoluindo, começou a voar pizza. Ou seja, virou um pandemônio total, até que alguém achou um esguicho que também entrou na roda, ligaram a água e o dono do restaurante não acreditava no que estava acontecendo. A sorte é que os outros clientes que estavam no restaurante entenderam o espírito da brincadeira, perceberam que todos estavam alegres, felizes, comemorando... Não era um negócio de briga, era mais zoação mesmo. Depois conseguimos contornar com o dono do restaurante, pagamos a conta toda, que era boa e a água ajudou até a lavar a sujeirada, que a gente tinha feito. Apesar de sermos do Guarujá, Ubatuba é um lugar que temos muito carinho e sempre tivemos boas recordações e grandes amigos." Zezinho finaliza, lembrando uma peixada pra 40, no restaurante do legendário local Olavinho, "tivemos de botar mesas na rua. Olavinho é um mestre das peixadas."

SURGE UM GIGANTE
No dia 30 de outubro de 79, em frente ao Ginásio do Ibirapuera, a nata do surf do Guarujá se reuniu em uma lojinha de rua. Estava sendo lançada a marca OP, Ocean Pacific, capitaneada pelo carismático Sidney Luiz Tenucci. Rola por aí uma lenda de que a OP começou quando Datcha, o irmão do Sidão, fez uma fezinha na loteca e se deu bem, uma parte do bolo foi o que impulsionou a OP, Sidão desmistifica essa conversa: "Não é nada disso, esse prêmio nem foi lá tudo isso e quando a família ganhou a OP já estava rolando. O fato é que a realidade era outra. A OP começou com um investimento de US$ 5.000, devagarinho e foi crescendo. A bolada gerou só uma injetada de capital na empresa. O que ocorreu no início é que eu sempre gostei de viajar, viajava pelo mundo e chegou uma hora que meu pai cortou a verba. Mas eu queria continuar me virando e viajando. Eu estudava jornalismo, analisei, pensei e cheguei a conclusão que se seguisse essa carreira ia demorar para fazer uma grana e ir viajar. Tinha pressa de pegar onda. Daí pintou essa loja na Av. Manoel da Nóbrega."
Mas Sidão, por que a OP cresceu daquele jeito? "Foi uma contingência do próprio crescimento do mercado, procuramos fazer produtos que não existiam, com um conceito, lançados no mercado de forma inteligente. Produtos que tinham todo um cuidado especial de originalidade de criação e muita qualidade. Importante também foi ter a ousadia de fazer coisas que não existiam." Sidão sempre teve muito feeling e viajava pelo mundo de antenas ligadas. Por exemplo, quando foi lançada a calça Bali, ela não existia aqui no Brasil. Sidão foi surfar na Indonésia, e percebeu que aquele tipo de roupa tinha tudo a ver com o Brasil (e com ele, pois o cara usa esse estilo de calça até hoje), trouxe para cá, lançou e o produto estourou.
Mas a grande tacada de mestre da OP foi saber gerar os recursos e encontrar o equilíbrio no tripé básico que sustenta qualquer marca de surfwear: a) investir na mídia - Sidão tinha os anúncios mais bem posicionados nas revistas de surf durante sua fase áurea; b) fazer eventos - o OP Pro era uma lenda, um campeonato que se transformou em algo antológico logo em sua primeira versão (85 na Joaca); c) equipe - me lembro do último Festival Luau Lightning Bolt (acho que rolou até um patrocínio da Primo), na praia do Pernambuco, no Guarujá. Nas semifinais e finais, em baterias homem a homem, os irmãos Totó e Taiu Bueno X Christian e Dodo Von Sydow, foi um de cada família pra final, só que os quatro eram patrocinados pela OP. As lojas em Shoppings chegaram às dezenas, as vendas se multiplicavam nos anos 80. Investimentos de marketing eram polpudos. As vezes até exagerados demais.

Loucuras de marketing eram possíveis naquela época, algumas acabavam não dando certo, mas nem abalavam o crescimento da OP. Sidão continuava com o pé na tábua, ditando o comportamento do mercado. Inventando novidades levando o OP Pro pra lá e pra cá. O que Sidão ainda não conseguiu, ao contrário de todos seus colegas, foi acertar um acordo com a matiz da marca nos EUA. Mas Sidão é um cara tenaz e continua tentando costurar isso até hoje. Ele ressalta: "Hoje existe uma tendência retrô na moda, uma coisa meio cult e dentro dessa filosofia a OP está tendo um ressurgimento no mundo inteiro, aqui isso também vai ocorrer". O poder criativo de Sidão continua mais apurado que nunca, inclusive sua veia jornalística, basta pegar um texto recente de Tenucci para perceber isso e como a vida realmente começa aos 50, vamos pagar para ver as próximas peripécias do Sidão.
UM GRANDE PONTO DE INTERROGAÇÃO?
Caso José Roberto Rangel não tivesse trombado com aquele poste na Marginal Pinheiros, no meio dos anos 90 e ainda estivesse aqui entre nós, o que teria sido da Town & Country? Como um maestro regendo uma orquestra com vigor e carisma, Zé Roberto levou a empresa por tempestades e mares clássicos. Foi um dos primeiros a trazer o detentor da marca no exterior, Craig Shugihara, para sentar na mesa e acertar os ponteiros, pagar royalties, tirar proveito da projeção da marca e retribuir com a criatividade brasileira e o peso de nosso mercado na esfera internacional. O trabalho de Zé à frente da T&C foi brilhante, não impecável, mas indiscutivelmente brilhante. Não que o trabalho da Mecanótica, atual detentora do licenciamento da marca não seja altamente profissional e tenha profissionais de ponta em sua equipe, dentro e fora d'água. Mas o trabalho da fase áurea da marca teve várias facetas marcantes.
A mais gritante delas era a forma com "Zuzo Bem" tratava sua equipe. Quando foi inaugurado o Circuito Abrasp, a T&C, sabiamente, optou por hospedar seu evento em Saquarema, o Maracanã do surf e foi lá que Paulo Matos sagrou-se o primeiro campeão da nova era, de circuitos com várias etapas, numa final histórica, vencida por Fred d'Orey. Os irmãos Matos: Neno, Paulo e Amaro do Tombo ficaram entre os seis primeiros num dos circuito da Abrasp, todos os três, para eles bastava Top 6, não precisava ser Top 16. E todos os três eram tratados como filhos, por Zé e sua equipe, os irmãos Fukuda, Tico, Denise sua esposa. O relacionamento patrocinador patrocinado da empresa, foi uma coisa que transcendeu uma relação clássica dessa natureza e mesmo em épocas difíceis manteve a fidelidade dos irmãos para com a marca.
A história de Zé Roberto, sua ligação com a fase embrionária da indústria do surfwear paulista é talvez a mais curiosa. Quando foi fundada a Lightning Bolt, em 77, ele estava lá, era um dos donos. Depois Zé se associou a Paulinho "Pisca-Pisca", para formar a Primo, uma das grandes marcas no início dos anos 80. Na Primo trabalhava com eles o Celso Medeiros, da Wagon. Zé sai da Primo para abrir a Town & Country, com Celsinho. Todas essas empresas começaram na legendária propriedade das Antenas Rangel, do pai de Zé, na Rua Guararapes, no Bairro do Brooklin, Zona Sul de São Paulo. A sociedade entre Celsinho e Zé não durou muito. Celsinho lembra: "Na Primo eu trabalhava com desenvolvimento de produtos e vendas, lá para 81\82 nos separamos do Pisk e abrimos a T&C, só que o Zé era totalmente pé na tábua, e eu sempre fiz o estilo mais pé no chão. No final não deu certo eu parti para a Wagon e deixei a Town & Country com ele. A marca estava registrada em minha empresa, a Colorado, mas apesar de termos nos desentendido, eu poderia ter ficado com a marca, mas decidi partir para outra". Zé Roberto colecionou sócios em sua trajetória com a T&C, depois de Celso vieram o balonista Leonel, seu sogro, pai de Denise, sua cunhada Bia, Marcelo Fukuda, Tico, mas sempre sua batuta esteve no comando, problemas surgiam, mas sempre ficava 'zuzo bem'! E no final do expediente quem estava na sede brindava com um whisky escocês.
O SOL DE UBATUBA
Muitos podem pensar que Ermínio Nadin, por toda sua ligação com Ubatuba e inclusive hoje estar residindo em Ubatuba, ele começou a surfar lá, mas não. Ermínio foi mais um surfista\empresário que se iniciou no Guarujá. Ermínio talvez seja o mais antigo de todos eles, não com a Sundek, marca que ganhou uma notoriedade incrível ao realizar os eventos mais importantes que Itamambuca já sediou, mas com sua primeira marca, a Tangerina, que teve anúncios até na Brasil Surf. Criada em 1973 a Tangerina é uma das mais antigas marcas de surfwear do Brasil, como a Man Surf e Twin, em Santos, e a Magno e Waimea precursoras do Rio. Mas a Tangerina acabou e a Sundek foi registrada e iniciou suas atividades no Brasil em 82.
O que catapultou a marca de forma colossal foi a realização dos eventos Sundek Classic, em Itamambuca. Em 86 Picuruta venceu com uma performance histórica, em ondas de muita qualidade na boca do rio. Em 87 foi a etapa central do primeiro circuito da Abrasp, depois do OP Pro em Floripa, do Lightning Bolt, nas Pitangueiras, e antes do Fico na Bahia e do Town & Country em Itaúna. Mas o marco entre os eventos da Sundek, foi o internacional, realizado em 88. Estavam em Ubatuba nomes como o campeão mundial da época, Damien Hardman, o campeão mundial de longboard Nat Young, viajando pela primeira vez para o Brasil e admirando nosso potencial, cantando a bola em entrevista, de que uma grande nação mundial do surf estava para emergir. Robbie Page, Rob Bain, Vetea David, Richie Collins, além de Teco e Fabinho estreando no ASP World Tour, fizeram do evento o maior espetáculo e o mais crowdeado até hoje em Itamambuca. Uma enorme arquibancada na praia ficou lotada, as ondas não negaram fogo e o surf foi de cair o queixo.
O investimento em equipe também foi violento, no ano de 91 foram três campeões na equipe; Tinguinha na Abrasp, Márcio Okumura na Abrasa e Douglas Lima venceu o paulista pro. Ermínio explica qual a estratégia utilizada: "Sempre fui partidário de executar ações de marketing fortes. Focalizava os esforços em publicidade, eventos, atletas e festas. Nos eventos de Ubatuba organizei luaus na praia, que foram um grande sucesso. Fazia muitas festas mostrando as novas coleções, em vários estados do Brasil. No Sundek Classic os concursos de bikini eram de alto nível, com as garotas de Ubatuba. Mas a situação econômica do país naquela época era totalmente diferente. Hoje estou trabalhando com um licenciado em Santos, tenho equipe no Super Surf e as coleções criadas aqui no Brasil são exportadas, dessa forma não preciso pagar royalties."
A TACADA DE MESTRE
Em nenhum outro caso ficou tão patente a importância dos investimentos corretos em marketing, como no crescimento vertiginoso alcançado pela Hang Loose e o estopim de tudo foi o Hang Loose Pro Contest. A empresa, que nasceu em 82, deu um salto em 86, que não poderia ser imaginado, nem nos sonhos mais selvagens. Com a palavra Alfio Lagnado: "Esse evento foi uma irresponsabilidade, foi uma loucura para os padrões da época. Quando a gente fechou e resolveu fazer o campeonato faltavam três meses. Se for calcular como verba de marketing hoje, era uma loucura em relação ao faturamento da empresa, mas era o Plano Cruzado, as vendas estavam boas, estava tudo maravilhoso, a gente vivia numa ilusão louca. E a gente acelerou. E foi um campeonato impecável em termos e organização, de astral e principalmente de ondas, a gente tá aqui, 16 anos depois, crianças que começaram a surfar, que tem hoje 14, 15 anos, usam como referência um campeonato que eles nem assistiram, mas é tão falado, que foi o swell épico da Joaquina."
O swell épico da Joaquina. Quantos anos se passaram e nenhum outro campeonato ganhou a notoriedade deste. Talvez o Mormaii de 88, um dos antigos Festivais de Saquarema nos anos 70. Não, nada disso, o mar que deu no Hang Loose de 86 era o prenúncio de uma estrela que brilhou levando a Hang Loose a um crescimento sem precedentes. Atropelando os concorrentes, com humildade, educação e perícia empresarial. O que mais se nota, a medida que vai se conhecendo Alfio Lagnado, é a facilidade e simplicidade com que ele resolve qualquer parada. Outro grande segredo é se cercar de pessoas competentes, partindo da equipe de surfistas e ressaltando sua equipe de marketing. Os irmãos Lumbra, Ronald e Ricardo, outros da turminha das antigas do Guarujá, são obstinados perfeccionistas, criativos e dedicados, ao extremo. Aí está um dos segredos da Hang Loose.
Outro valor forte dentro da Hang Loose é o surf amador, Alfio explica: "Uma coisa que a gente acha muito importante, não como retorno, mas na minha visão toda empresa envolvida com o surf também deveria trabalhar as raízes, só assim que conseguiremos alcançar o objetivo de ser uma potência. Já somos uma potência, a terceira maior do mundo. Mas para sermos uma potência, que nem a Austrália, nós temos que trabalhar a base, da mesma forma que eles trabalham os Surf Clubes." Nesse contexto que a Hang Loose investe no Circuito Junior e Mirim Amador Paulista, que é o circuito mais tradicional do surf amador, herdado da Lightning Bolt.
Na verdade a receita para uma surfwear de sucesso, não é nenhum segredo, o que entra em cena são uma série de ingredientes, dosados com o timing certo e a visão que é natural dos grandes empresários, repare no que Alfio diz: "Tem várias ações que podemos fazer que são super interessantes, só que as ações prioritárias para a Hang Loose são: evento, equipe e anúncios em revistas especializadas. Se sobrar verba a gente faz outras ações. Mas essas são as ações que considero fundamentais para uma empresa de surfwear ser autêntica. Se não tiver isso não é uma empresa de surfwear e é nessa linha que a gente trabalha. E também por essa tradição que a Hang Loose tá aí."
Exatamente o que OP fazia em seus tempos áureos, o que as grandes marcas australianas fazem numa escala mundial. Mas a Hang Loose é 100% brasileira e a atuação da marca, com eventos como o Hang Loose Pro Contest, com a equipe, há mais de duas décadas levando o símbolo da mãozinha para pódios e mais pódios ao redor do planeta, todos estes fatos são passadas decisivas que ajudam na cristalização do surf brasileiro como uma das grandes forças no cenário do surf internacional.
O CANAL IDEAL PARA ESCOAR ESTES PRODUTOS
O descendente grego Dimitrius Nassyrios, fundador das Lojas Star Point, começou a surfar também na praia das Astúrias, aos 14 anos, em 1974. Seu habitat na Ilha de Santo Amaro era o Edifício São Carlos, que ficava na quadra de trás do Tendas. A Star Point original, na Rua Iraí, 224 foi inaugurada no dia 16/6/82. A princípio Tucano recebeu um convite do Jairo e do Tico, que trabalhavam na OP, para abrir uma loja e começar a vender produtos de surf. Tucano já tinha a veia do vendedor naturalmente, viajou de carro para o Nordeste, antes de abrir a Star Point. Ele lembra: "Levava carteiras para vender, aí parava num pico para surfar, fazia amizade com o pessoal, quando saía do mar, abria o porta-malas do carro e vendia as carteiras." Depois de estudar Engenharia por dois anos Tucano mudou de curso, para Educação Física, foi nessa época que abriu a loja.
"Na casa da Iraí meti a mão na massa literalmente" relata Tucano, "reformamos tudo com prego e martelo na mão. Jairo ficou como meu sócio durante um ano, o Tico por uns dois anos e meio, depois ele foi para a Town & Country. O negócio começou a crescer, o pessoal passava lá e deixava as pranchas usadas para vender. A loja virou um point de encontro para a galera. Aos poucos ela foi sendo ajeitada, cada vez mais completa" O crescimento acompanhou o mercado, no meio dos anos 80 Tucano chegou a coordenar quase 20 lojas. Além da Star Point, tinham 12 lojas Hot Line, 4 Ron Jon. Em frente a Star Point original em Moema abriu uma loja chamada Surf In Rio, que só vendia produtos e pranchas de marcas cariocas, o boom que rolou de 83 a 86 permitia isso.
No final dos anos 80 pintou uma oportunidade única, a de trabalhar a Rip Curl no Brasil. Nessa época Tucano deixou a Star Point um pouco de lado e mergulhou na área de confecção e importação de roupas de borracha. Isso durou até 97, quando fez um acordo com Jackson, da Hawaiian Dreams e passou o licenciamento para ele. Ainda ficou trabalhando dentro da estrutura por um tempo, mas quando bateu uma luz, depois de analisar o resultado da enquete feita pela Revista Fluir, que novamente elegia a Star Point, como a melhor loja de São Paulo, isso ocorria por 16 anos seguidos, desde que a loja foi inaugurada. Tucano decidiu dar um 'face-lift' na loja, reformou e modernizou todo o esquema da loja, introduziu o conceito de corners para as marcas e preparou o campo para seu projeto de franquias.
"Quando voltei de corpo e alma para a Star Point, meu objetivo era formar a melhor e maior rede de lojas do Brasil," - explica Tucano. "O esquema com as franquias envolve toda uma passagem de know-how, existe um 'Conceito Star Point', por trás de tudo, no qual o bom gosto deve ser um aspecto importante. Envolve atendimento, arquitetura, definição das marcas que entram na loja. Todo um posicionamento de mercado." O sucesso foi paulatino, com lojas sendo abertas em shoppings, primeiro em São Paulo e agora abrindo os tentáculos por outras praças do Brasil, levando toda essa ideologia de uma surf shop de primeiro mundo. O número de lojas, que havia caído para uma única, a original de Moema, já passa de uma dezena e a tendência é crescer.
Essa busca por estar envolvido com o mundo do surf é uma das coisas que moveram esses empresários do Guarujá. Viagens que geram idéias, como o Museu do Surf, dentro da Star Point, trazido da Austrália e adaptado para o Brasil, uma curiosidade a mais para os clientes. Tucano lembra de passagens interessantes: "Sempre procurei patrocinar atletas. Na primeira viagem de Picuruta, para a África do Sul, decidimos apoiar. O Gato tem mais ou menos a minha idade, lembro de estar negociando com o pai do Picuruta, nós éramos praticamente moleques naquela época. Outra coisa interessante aconteceu quando fechei a primeira loja no Nordeste, foi pegando onda, com Lício e Junior, o papo surgiu no outside, foi evoluindo no meio da session e assim abrimos a Hot Line."
UMA MARCA EM EQUILÍBRIO
Celso Medeiros, 51 anos, um dos mais experientes do ramo, resume bem o que passou com quase todos os empresários que caíram para o ramo da surfwear. A Wagon começou em 83, mas a marca já era do seu pai a longa data, produzindo calças jeans, na Rua Joaquim Floriano. Depois Celso teve uma loja de esportes, que se chamava Wagon Sports, na João Cachoeira. Quando deixou a sociedade com Zé Roberto, na Town & Country, finalmente abriu a Wagon Surf Line. "A gente começou brincando", conta Celsinho - "queríamos fazer alguma coisa relacionada ao surf, pegamos parte de uma garagem, no fundo de um prédio. Começamos a fazer umas camisetas com os desenhos maravilhosos do Fukuda. Ele desenhava tudo na mão, porque naquela época não tinha computador, nem nada. Até os textos eram feitos à mão. Íamos na malharia, comprávamos um rolo de malha, cortava a peça, fazia 100 camisetas, uns dois, ou três desenhos e saía vendendo. No começo foi no boca a boca, mas depois de um ano a Wagon cresceu de um jeito que já tivemos que alugar um prédio, com umas dez pessoas trabalhando e uma produção bem maior. Desde o início vinham muitas pessoas do interior. Até recentemente, o movimento de venda do interior do estado, na pronta entrega, era compatível com o movimento de toda cidade de São Paulo. Só que no começo não tínhamos nem representante."
Celso vai mais longe descrevendo o mercado: "Na década de 80 houve uma grande evolução dos esportes. A Adidas teve o seu grande boom no Brasil no início dos anos 80, com toda aquela febre de fazer um cooper e as primeiras academias que surgiam. Houve paralelamente um boom muito grande das lojas de esportes como a Procópio, Casa do Esportista, Sport Espada... Era o momento do esporte. Além dos esportes normais, o windsurf cresceu, pistas de skate eram construídas. E o surf começou a se solidificar. Campeonatos importantes, no Rio, como o Waimea 5000, os Festivais de Ubatuba. Tudo isso foi evoluindo. A OP alavancou o mercado. A OP e a Lightning Bolt. A Lightning Bolt antes da OP. Surgiu aquele maravilhoso calção curtinho, com um raio na frente. O grande astro era o Gerry Lopez. A OP veio com a calça Bali e aquele colete sem manga. A 775 foi uma das grandes precursoras em termos de loja. Dentro de todo este contexto a Wagon foi uma das primeiras marcas."
Celso reitera a opinião de Sidão: "Naquela época era mais fácil e não precisava de muito dinheiro. Com pouco investimento você tinha retorno e começava a crescer rapidamente. Hoje para entrar no mercado e aparecer com uma marca você precisa ter, no mínimo uns 500 Mil dólares. E agora tem todas as marcas internacionais que estão aqui. Portanto você tem que investir muito dinheiro." Celsinho começou a surfar em 69, em Santos, com uma prancha Glaspac MK 1, depois começou a frequentar o Guarujá, ficando em frente a Ilha, no apê de Claudinho Pieroni. Apesar de ter uma das marcas genuinamente nacionais do ramo, quando saiu da Town & Country, tentou registrar a Sundek e a Local Motion, mas elas já haviam sido registradas. Acabou optando por seguir com a marca do pai e tocou bala no registro da Wagon, mas provando o ditado que diz, nada se cria, tudo se copia, o logo original da Wagon, o "W", nada mais era do que o "M", das velas Mistral (Celsinho curtia um windsurf na época), só que de cabeça para baixo. Um lindo logo, original, uma marca forte.
Outra aulinha de um dos mestres. "Na virada para os anos 90 começaram a ter muitos campeonatos de surf" - continua Celso empolgado, "o bodyboard também foi uma coisa que cresceu bastante. Como a Wagon não tinha como investir em atletas profissionais, o que a Wagon fez? Para se mostrar na praia, com uma equipe, contratamos cinco meninas bem bonitinhas, elas nem eram as melhores dentro d'água, mas com certeza eram as melhores fora d'água. Quando a Wagon chegava na praia com a equipe, criava um tumulto. Elas eram realmente fantásticas. Isso foi uma coisa curiosa. Existem maneiras de fazer um investimento, de forma regional, em que, devagar, é possível ir solidificando a marca."
Hoje Celso vendeu a empresa que era do seu pai desde 1959, a Colorado Ind. Com. Ltda., a mesma que já fez jeans e já foi a titular da marca Town & Country, no Brasil. Ele arrendou a marca Wagon para a empresa, a equipe é a mesma que ele formou, mas Celso é o dono da marca e dá consultoria diariamente, mas as melhores lembranças que tem vem do surf mesmo. "Em 95 foi uma época em que estávamos investindo no longboard", dessa Celsinho participou - "tínhamos uma equipe com Neco Carbone, Cisco, Rafael Sobral, Dragão, Maurício Kramer. Uma das melhores lembranças que tenho da minha vida foi a viagem que fizemos com a revista Hardcore, o fotógrafo Marcelo Pretto e a equipe de longboard, para a Costa Rica. Fizemos uma viagem alucinante. Acabou dando uma matéria de 10 páginas. Isso é uma maneira de você determinar uma verba da empresa, se divertindo, fazendo o que você gosta e divulgando a marca. Unindo o útil ao agradável."

A MARCA E A PESSOA SE FUNDEM
Raphael Levy, popularmente conhecido como Fico, junto com Alfio é um dos caçulas desta geração dourada, forjada nas ondas das Pitangueiras. Começou a pegar ondas com uma prancha de Isopor. Em 72 ganhou sua primeira prancha de verdade, feita pelo lendário Cocó. Um tempo depois, Fico foi amadurecendo e decidiu morar no Guarujá, fazia um ritual, que vários de nós, garotos, éramos condicionados: as três sessões de surf dominadas pela toalha vermelha. Fico conta: "Acordava as seis da manhã e ia surfar, as 10 horas ficava pronto o café da manhã e a empregada colocava uma toalha vermelha na sacada do terraço. Este era o aviso para subir. Voltava para o mar e na hora do almoço, lá estava ela, a toalha vermelha de novo. Fazia a digestão e surfava até escurecer".
Nessa época Fico pegou o trabalho de representante da OP para o litoral. Vendia nas lojas Roni Surf, em Santos, na Twin. Mas um dos melhores pontos de venda para Fico era a saída da Faculdade Santa Cecília, lá Fico levava todo mostruário da OP e vendia direto ao consumidor. Chegava para acertar com o Sidão, com uma bolada de grana, ele nem acreditava. Isso durou de 80 a 82. "Quando voltei para São Paulo" - Fico comenta, "o Sidão me convidou para ser o gerente de sua loja no Shopping Morumbi. Mas acabei não pegando, foi logo em seguida que comecei a produzir as famosas carteiras com tecido emborrachado, uma novidade no mercado. Começamos com 100 peças, mas não demorou muito, devido ao sucesso do novo produto, já estávamos fabricando lotes de 1000 peças, fazia na fábrica da mãe do Alfio. Sidão foi o nosso grande professor."
Logo, Fico começou a vender as carteiras com a sua marca. Criou aquele clássico logo do surfista dando uma virada, com o arco-íris de fundo. A primeira loja da Fico era no próprio apartamento em Sampa. "Em 83, no ano que minha empresa nasceu" - Fico usou uma estratégia diferente, "enquanto todos estavam preocupados com o mercado do Sul, me voltei para o Nordeste. Fiz uma viagem de São Paulo até Fortaleza, com o carro lotado de mercadorias. Levou um mês e meio. Eu tinha um Gol vermelho, botei a prancha na capota e fui parando pelas praias do Nordeste, vendendo carteiras e mochilas." Por isso que Fico sempre teve essa ligação forte com o Nordeste do Brasil e quando o Circuito Abrasp foi inaugurado escolheu a Bahia como sede do primeiro Fico Surf Festival. Na verdade Fico já tinha entrado como patrocinador nos eventos organizados por Paulo Issa, em Ubatuba, nos anos de 84 e 85. Em 86 Fico patrocinou o primeiro Circuito da APS (Associação Profissional de Surf) do Estado de São Paulo.
Para finalizar Fico relembra um momento marcante para ele e todos que participaram, daquela famosa viagem para a Costa Rica, que reuniu os empresários fundadores do Circuito Brasileiro e seus atletas (ver depoimento de Zezinho): "Logo que chegamos pegamos os carros, amarramos quinze pranchas nas capotas e descemos de San José para Salsa Brava. Mas o que foi mais pitoresco foi um dia, na região de Salsa, que paramos num restaurante de frente para o mar, pedimos umas cervejas Imperial e lagostas. Mandamos os atletas pra água e ficamos julgando um campeonato ali da sombra. Comendo lagostas e anotando as notas no guardanapo. Dávamos muita risada".
MAIS ESPECIAL QUE ISSO NÃO DÁ
Esse depoimento de Fico, que deixei para o final, reflete bem os ingredientes especiais que essa turma de amigos, que desapercebidamente e sem muitas intenções, forjaram a base do surf profissional brasileiro, criando uma estrutura, que seguiu os moldes das grandes marcas mundiais, mas com um tempero todo brasileiro, mais especificamente do Guarujá. Se você teve paciência para ler a matéria inteira, percebeu a inter-relação que todos estes grandes amigos tiveram uns com os outros. Mais que o respeito mútuo, o relacionamento cordial e profissional entre todos, pairava no ar uma amizade que transcende explicações corriqueiras. Uma amizade que foi enlaçada por tubos e paredes azuis, em baladas cheias de gargalhadas e histórias, não só nas praias da Ilha de Santo Amaro, mas em muitas praias ao redor do planeta, no Sul, no Nordeste, no Peru, no Hawaii, em Bali, na Costa Rica...

E com certeza no além...

Para buscar mais informações: WWW.HSURFBR.COM.BR


terça-feira, 4 de outubro de 2016

A TURMA DO GUARUJÁ – PARTE 1

Pioneiros, empreendedores e surfistas de alma

Esta é a minha turma. Na praia de Pitangueiras no Guarujá foi onde comecei a surfar de pé sobre uma prancha. Muitos dos surfistas que começaram a pegar ondas ali se transformaram em pilares do surf brasileiro.
JANTAR ANUAL DA TURMA QUE FOI ORGANIZADO ATÉ 2014 POR SIDÃO TENUCCI
FOTO DE 1987, DA ESQUERDA PARA A DIREITA, LINHA DE BAIXO: THYOLA, DATCHA TENUCCI, CARLINHOS MOTTA, SIDÃO, MARK LUND, MAGOO, FABINHO MADUEÑO E MARCHÉ VILLARDI
NO TOPO: SÉRGIO SACHS (COM A CABEÇA CORTADA PELO GARÇOM DO RESTAURANTE RODEIO), ROBERTO TEIXEIRA, CHRISTIAN VON SYDOW, SERGINHO RICARDI, DRAGÃO, CHIVAS REGO E MADINHO CHIARELLA

Para mim seria impossível não colocar um ingrediente sentimental neste texto, pois estes se transformaram em meus grandes amigos, uma amizade cimentada com areia, o terral matinal e a água do mar em um lugar mágico, que se transformou muito, mas continua sendo um dos mais consistentes celeiros de surfistas e ondas do Brasil.
SURFISTA NÃO IDENTIFICADO NAS ESQUERDAS DA ILHA EM PITANGUEIRAS
ANOS 70, FOTO DE KLAUS MITTELDORF

O Guarujá passou por muitas transformações desde quando os surfistas dos anos 1930 vieram de Santos para testar as ondas do Guarujá, nos primeiros “surfaris” do Brasil. Já no início dos anos 60 surfistas como os irmãos Argento (Twin) vinham surfar na praia das Astúrias com as pranchas “caixas de fósforo”. Até que no meio daquela década começaram a aparecer os primeiros surfistas do Guarujá.

ALGUMAS IMAGENS ANTIGAS QUE VENHO GARIMPANDO NA INTERNET
VISTA DA SACADA DO GRANDE HOTEL GUARUJÁ, EXATAMENTE ONDE FICA MEU PRÉDIO HOJE, BEM EM FRENTE À ILHA POMBEVA, NO MEIO DE PITANGUEIRAS
FOTO DO ACERVO DA FABIO KERR DOS PRIMEIROS CAMPEONATOS REALIZADOS EM 1967 E 1968, COM O EDIFÍCIO VILA RICA AO FUNDO
O EDIFÍCIO MONDUBA EM PRIMEIRO PLANO E É POSSÍVEL VER QUE AINDA EXISTIA O GRANDE HOTEL, O APARTAMENTO DO VILA RICA FOI INAUGURADO NO VERÃO DE 1967, ESTA FOTO DEVE SER DA PRIMEIRA METADE DOS ANOS 1960
UMA VISTA DA PONTA DAS GALHETAS, QUE DIVIDE AS ASTÚRIAS DA PRAIA DO TOMBO, NOS ANOS 1960 SEM NENHUM PRÉDIO, PAULATINAMENTE, NOS ANOS 1990 O MORRO VERDE FOI ABRAÇADO PELO CONCRETO. MAS, EM ONDULAÇÕES DE LESTE GRANDES... GALHETAS AINDA É UMA DAS MAIS DESAFIADORAS ONDAS DO GUARUJÁ, SEGURA ONDAS DE MAIS DE 3 METROS ABRINDO
FOTO DE ANTES DO EDIFÍCIO SOBRE AS ONDAS QUE FOI UM DOS PRIMEIROS PRÉDIOS ALTOS DE PITANGUEIRAS, INAUGURADO EM 1951. FOTO DO ACERVO DAS LOJAS GUARÚ SPORTS, QUE FICAVA BEM EM FRENTE AO CINE PRAIANO NO CENTRO DE PITANGUEIRAS
NESTA FOTO ESTOU SURFANDO, QUASE EM FRENTE AO EDIFÍCIO SOBRE-AS-ONDAS, COM UMA BERMUDA DE HELANCA QUE MINHA MÃE COMPROU NAS LOJAS GUARÚ. ESTA FOI MINHA SEGUNDA PRANCHA, UMA SÃO CONRADO ENCOMENDADA COM O CORONEL PARREIRAS. AO FUNDO REMANDO APARECE O SIDÃO (ANTES DA OP), COM UMA PRANCHA DA MARCA SURF CHAMPION

ILHA DE SANTO AMARO, GUARUJÁ, ANTES DE QUALQUER PRÉDIO. CANTO DIREITO DA ENSEADA, PITANGUEIRAS, ASTÚRIAS E A PRAIA DO TOMBO AO FUNDO. UM PEDAÇO DO PARAÍSO, UMA VERDADEIRA PÉROLA NO ATLÂNTICO

Mesmo hoje, em 2016, observando o cenário do nono andar do Ed. Vila Rica, ainda fico maravilhado com a beleza do entorno, com dias de surf perfeito que ainda acontecem. Nos anos 1970 era comum cairmos sozinhos, ou com um par de amigos em alguns dos pontos da praia. Ainda hoje existem bancadas, que em dias de semana fora da temporada, é possível surfar com poucas pessoas.
Esta foto eu capturei do site Waves em um dia de 2004, madruguei e surfei sozinho por algum tempo.
DRAGÃO, CANTO DO MALUF, COM UM LONGBOARD SHAPEADO POR NECO CARBONE E LAMINADO POR THYOLA NA LHIGTHNING BOLT GUARUJÁ
FOTO: SILVIA WINIK, CAPTURADA DO SITE WAVES
NECO CARBONE EM FOTO DE SEU ACERVO PARTICULAR COM UMA PRANCHA GLASPAC, ESTA FOTO DEVE SER ENTRE 1969 E 1971

Nesta reportagem (prometida no mês passado na postagem de 8 SET) trarei um pequeno perfil de alguns de meus melhores amigos que moravam em São Paulo - Capital e vinham surfar no Guarujá.
Acho importante destacar duas coisas:
a) com certeza será impossível mencionar todos meus amigos, mas haverá partes 2 \ 3 \ etc...
b) também não estarão aqui surfistas nativos do Guarujá, como Neco, Sylvinho Daige, Pardal Hipólito e outros grandes talentos. Mas eles ainda marcarão presença neste blog, bem como importantes surfistas de Santos, Ubatuba e do litoral sul de SP, que ajudaram a construir a história do surf paulista, no Guarujá.
Outra coisa, a Ilha de Santo Amaro – Guarujá, será um dos capítulos PICOS DE SURF no projeto de meu livro e a forma de apresentação no livro, mais jornalística e informativa, será bem diferente desta. Ao conceber meu projeto já tinha em mente trabalhar com o livro como documento principal, mas destacando o andamento de tudo ancorado nesta tripla plataforma WEB:  este Blog; o Site do Livro; com divulgação através do Facebook.

Vamos agora conhecer alguns dos lendários surfistas do Guarujá e deixar eles contarem um pouco de suas histórias nas ondas.

THYOLA
Francisco José Chiarella (21/6/1952) foi o primeiro paulistano a se jogar para viver do surf na beira-mar. Estudou arquitetura em Mogi das Cruzes e escolheu como profissão a fabricação de pranchas no Guarujá. O objetivo primordial era viajar atrás das ondas, Thyola foi um dos primeiros que absorveu e transmitiu o Espírito “Endless Summer” para a turma de amigos. Litoral Norte, Rio, Sul, Peru, América Central, Califórnia, Hawaii tudo nos Anos 70. Ao lado do carioca Mangabeira foi o primeiro brasileiro a se jogar para surfar em Nias isso no ano de 1979 (imaginem!!!). Foi através das preciosas dicas dele que em 1980 me joguei até Nias e outras ilhas da Indonésia, com Sergião Sachs e Paulinho de Almeida Muniz. Essa minha jornada de cinco meses “on the road” indo (sem trocadilho) direto para Nias, depois Bali, Nusa Lembongan, em seguida Austrália e Hawaii... Ainda tomarei uma postagem deste blog para contar aqui e ilustrar com muitas fotos que tenho, a maior aventura de minha vida no surf. Mas o assunto aqui é Thyola, um dos surfistas que mais me inspirou a seguir um caminho ligado ao estilo de vida do surf. Um de meus melhores e maiores “bigger than life” amigos, que ainda fará um livro sobre sua história e aventuras. Merecerá ser lido.
REPRODUÇÃO DA REVISTA VENICE N. 104
ABERTURA DA MATÉRIA VINTAGE SURFARIS SOBRE A INDONÉSIA. THYOLA SURFANDO EM NIAS 1979. FOTO: MANGABEIRA

Thyola esteve ao lado de Sidão na pioneira, emblemática, inusitada e reveladora viagem de 1974 do Peru até a Califórnia (vejam maiores detalhes no texto sobre Sidão – LINK mais abaixo), as viagens de surf eram o grande motor do estilo de vida no início dos anos 1970, quando as competições e o surf profissional ainda nem existiam. O grande poder era das revistas de surf que apresentavam estes lugares com ondas perfeitas e paradisíacas. No final dos anos 70 mal havia acabado de sair aquela Surfer Magazine com as fotos de Nias e Thyola, viajando pela Indonésia, deu um jeito de chegar até lá com um amigo carioca, o Mangabeira, que estava na área.
Thyola montou seu quartel-general no Guarujá, o lugar onde conheceu o surf e moldou sua vida de trabalho e diversão. Para saber um pouco mais sobre seu começo no surf (e eu não quero ser repetitivo aqui neste blog) recomendo a leitura da prévia do CAPÍTULO 7 do livro, que fala sobre o início do surf no Estado de São Paulo e que teve Thyola Chiarella como um de seus protagonistas. Postagem publicada em 2013 aqui:
THYOLA EM SUA PRIMEIRA TEMPORADA HAVAIANA 1975 \ 76
FOTO ARQUIVO PESSOAL
 DE LYCRA VERMELHA, EM JULHO DE 1988 DURANTE O SUNDEK CLASSIC, EM ITAMAMBUCA, COM O AUSTRALIANO NAT YOUNG AGACHADO, FABIO MADUEÑO, DE LYCRA LIMÃO E SIDÃO, APONTANDO O CAMPEÃO MUNDIAL DE LONGBOARD
NO ANIVERSÁRIO DE 59 ANOS, EM SEU PRÉDIO DO GUARUJÁ NO ANO DE 2011. DA ESQUERDA: DRAGÃO, THYOLA, ADÊ, GARÇA E FABRÍCIO UCHOA
FOTO: ACERVO PESSOAL DRAGÃO
AO LADO DE RORY RUSSELL NA OCASIÃO DO RELANÇAMENTO DA MARCA LIGHTNING BOLT NO BRASIL NOS ANOS 2000

Thyola ficou de pé pela primeira vez em uma prancha de madeirite, em frente ao seu edifício Marulho, nas Pitangueiras, em 1965 (vejam detalhes no link acima). Depois passou para pranchas Glaspac e o passo seguinte foi o pai dele encomendar 3 pranchas Hobie, para ele e os irmãos, que vieram de navio de Nova Iorque, com um amigo da família. Essas pranchas eram mini models de 8 pés e quando chegaram Thyola já ensaiava a fabricação das primeiras pranchas em São Paulo.
Trabalhando com pranchas de surf Thyola viajou para os quatro cantos do mundo para surfar. Sua fábrica no Guarujá já foi uma das maiores do Brasil. Hoje ele subloca parte do seu espaço e continua trabalhando com o que ama e faz como poucos, a laminação de pranchas. Vamos deixar que ele conte um pouco mais de seu início com a fabricação de pranchas.

Thyola: “Eu estudava com o Britão (Antônio Brito) no Colégio São Luís e de 1967 para 1968 já estávamos começando a fazer pranchas. Fizemos duas pranchas Moby, antes de chegarem as Hobies de NY. Não sei precisar a data agora. Quando as Hobies chegaram lembro que foi até uma surpresa, pois as pranchas já tinham diminuído e falamos, “Pô, mas isso é um longboard?” Eram quase um longboard, as pranchas já estavam começando a diminuir e o cara que o meu pai falou não sabia muito bem o que comprar. Ele trouxe três pranchas, a minha Hobie, toda amarela, a do Madinho, branca em cima e amarela em baixo e a do Daco que era branca em cima e com um desenho todo psicodélico em baixo. As três eram lindas. E isso foi na época que eu ainda estava no Colégio São Luís.

Eu surfava só na Ilha, ou em frente de casa, nunca íamos para outro lado. Não sei se tinha mais surfistas do outro lado da Ilha, ou nas Astúrias. O Guaracy começou antes da gente. Eu lembro dele com uma prancha de madeira oca. O pai dele era o zelador do Edif. Marulho. Lembro também que largávamos o carro do Carlinhos Motta com as pranchas em cima no rack e íamos assistir as matinês de Endless Summer no Cine Praiano. Ninguém mexia.

PRANCHAS MOBY
Começamos em 1968. Tenho foto da primeira Moby. A réplica que fiz para a Mostra da Alma Surf foi a que fiz para ir ao Peru em 1972, shape do Antônio Brito. Foi nosso amigo Paulo Kristian que me incentivou, pois o pai dele tinha a fábrica de resina (Resana) e comecei consertando uma prancha Glaspac e aí o Brito deu a ideia de fazer uma prancha e já estávamos no São Luís, deve ter sido de 67 \ 68 por aí. Para produzir os blocos fizemos uma caixa de madeira e expandíamos. Os poros eram enormes, mas funcionou, era poliéster. Daí que nasceu uma fábrica de blocos do Paulo Issa. A gente passou as informações para ele, que depois fez uma forma de concreto.

As primeiras 4 pranchas (com os blocos expandidos na caixa) foram para Britão, Marché, Preto, um colega do Colégio São Luís, que depois parou de surfar e a minha.

THYOLA, AINDA NA CASA DE SÃO PAULO, COM UMA DAS PRIMEIRAS MOBY
FOTO: ARQUIVO PESSOAL
FESTIVALMA 2009. A RÉPLICA DA PRANCHA MOBY QUE THYOLA LEVOU PARA SURFAR NO PERU EM 1972, COM O DESENHO ROSA, ENTRE UMA BIQUILHA HOMERO, O SHAPE DE RICO PARA VENCER O FESTIVAL DE UBATUBA EM 1972 E DO OUTRO LADO, UMA MIÇAIRI, UMA LIGHTNING BOLT SHAPE DE MARK JACKOLA E UMA HEINRICH.
TODAS ESTAS RÉPLICAS FORAM LAMINADAS POR THYOLA. FOTO: DRAGÃO

A entrevista que tenho com Thyola ainda traz outras revelações, mas vamos deixar para outra ocasião, pois agora introduzirei outros importantes personagens dessa história do surf paulista.

CHRISTIAN VON SYDOW
Christian não é dos mais velhos dessa turma dos surfistas da capital paulista que frequentavam o Guarujá, mas através do pai Harald, ele e seu irmão Dodo tiveram um começo muito precoce.
Arnald Harald Albrecht Von Sydow nasceu em Niterói, em 11 de junho de 1927, passou a infância em frente ao pico na praia de Icaraí. Em São Paulo conheceu Carmen Maria Schilmann (depois Von Sydow) tiveram três filhos. Além de Christian e Dodo (Harald também), a caçula Patricia.
HARALD SENIOR, CHRISTIAN VON SYDOW E DODO (HARALD JUNIOR)

Harald e Carmen nasceram no Brasil, mas suas famílias vinham da região de Hamburgo, o maior porto da Alemanha, os avós já tinha intimidade com o mar (Báltico). De famílias prussianas, frequentavam o Germânia, que mudou o nome para Clube Pinheiros na ocasião da II Grande Guerra. O avô de Christian veio para o Brasil com a missão de fundar a MWM Motores (os criadores do motor diesel na Alemanha), no Brasil. A fábrica se instalou em Jurubatuba, perto de Interlagos. O pai de Christian fez administração de empresas e curso técnico de aeronáutica, começou trabalhando em outras empresas alemãs no Brasil, mas acabou indo para a MWM onde também assumiu a presidência. Christian e Dodo cursaram administração na FMU. O avô deles havia comprado um apartamento na planta, na praia de Pitangueiras, vamos passar a bola para Christian contar esta história.
Christian Von Sydow: “Já antes da II Guerra, assim que chegaram no Brasil, meus avós já iam para o Guarujá e ficavam no Hotel Suíço, perto do edifício Monduba, um casarão. Tivemos apartamento antes no Edifício Icanhema, depois no Edifício Tucuruçutuba, desde 1969 ou um pouco mais tarde. A família de Thomas Polisaitis (meu primo irmão), também comprou um apartamento no mesmo edifício. A irmã dele, Renata Polisaitis foi a primeira campeã de surf aqui, naqueles campeonatos do Clube da Orla.
Meu pai tinha um amigo que chamava Donald Pacey, que era o dono da Glaspac. Aí meu pai, Donald e o Gerry Cunningham (sócio da Glaspac) estavam juntos e foram passear na Califórnia, lá eles viram os caras surfando: “O que é isso? Que negócio estranho é esse, os caras andando em cima da água?” Eles nunca tinham visto uma coisa que flutuava e ainda conseguia ir na onda e o sujeito ficava de pé em cima d’água, parecia Deus, Jesus Cristo! Eles foram na praia ver as pranchas e descobriram que eram de fibra de vidro e o Donald tinha uma fábrica de fibra de vidro, fazia os buggys da Glaspac.
Eles trouxeram uma destas pranchas para o Brasil e fizeram o molde de concreto de injetar e este modelo de prancha foi a MK 1. Começaram a fazer estas pranchas injetadas e naquela época isso era bem moderno. (No sentido técnico, acho que o surf andou para trás, durante 30 a 40 anos, até começarem a injetar de novo na China). O método era envolver de fibra picada, depois você tinha a manta, passava isso dos dois lados do molde e depois fechava e injetava o poliuretano líquido e deixava expandir. De vez em quando aquele molde abria, explodia e estourava longe, chegou a machucar pessoas lá. Quando eu ia mal na escola meu pai me mandava na Glaspac, para ir trabalhar. Isso foi várias vezes, sempre que eu repetia de ano. Lá eu metia a mão na massa.
Lembro que estas primeiras pranchas foram colocadas na água no verão de 1965 para 1966. Não tínhamos contato com a São Conrado do Rio de Janeiro, o processo era direto de Malibu para a Glaspac, em Santo Amaro e de lá para o Guarujá, em Pitangueiras. Não tivemos outros contatos, nem do Rio, nem de Santos, a gente não sabia de ninguém e não conhecia ninguém. Era como se tivéssemos trazido um esporte novo, algum carrinho, um brinquedo da China, ou da Alemanha, ninguém sabia de nada. Até onde eu sei eles não tinham nenhuma referência. E os caras eram uns feras, tinham uma baita indústria em Santo Amaro. Faziam cabinas de segurança. Depois posteriormente fizeram aquele carro Cobra, igual ao americano. O forte deles era o negócio dos carros, eles gostavam de pilotar em Interlagos.
CHRISTIAN VON SYDOW SURFANDO UMA GLASPAC

A Glaspac evoluiu quando o Christian “Cheyne” Frutig, ele era o meu vizinho no Brooklin, na Rua Laplace, ele era vizinho do cantor Agnaldo Rayol. E ele era colega de escola, pois também era da família suíça e alemã. Cheyne foi trabalhar na Glaspac. Depois ele começou a fazer as pranchas Surf Champion, aí começou a evoluir para as pranchas pequenas, shapeadas e tal... O grande problema das Champion é que não tinha um poliuretano de qualidade – enrugava tudo como sol e o calor."

A partir daí entramos na era das pranchinhas. O pai de Christian começou surfando e Christian, nascido em 30 de julho de 1958, começou a surfar com o pai com 7 anos de idade, Dodo (19/2/1960) ainda mais jovem, naqueles pranchões da Glaspac, em meados da década de 1960.
CHRISTIAN SURFANDO NAS GALHETAS, GUARUJÁ 1996
PREPARADO PARA COMPETIR NA PRAIA DO PERNAMBUCO
FOTOS DOS ANOS 1980 DO ÁLBUM DE FAMÍLIA
COM OS AMIGOS KARL LAGNADO E RONALDO MICRO
MARESIAS 1981
O IRMÃO DODO VON SYDOW EM ALA MOANA BOWL
PRIMEIRA TEMPORADA HAVAIANA 1975 \ 1976
COM SIDÃO TENUCCI


SIDÃO TENUCCI
Sidão já foi protagonista de duas homenagens neste blog, quando perdemos sua presença física neste planeta no final de 2015, colocarei os 2 LINKS logo abaixo. Sua história se funde com a história do surf brasileiro. Na época em que fiz a matéria para a revista Hardcore, ele ainda estava vivo, fui diversas vezes ler o que estava preparando, no pé de sua cama na casa da irmã Lolô Tenucci e depois em um apartamento na R. Pedroso Alvarenga. Para montar a matéria garimpamos uma série de fotos dos álbuns anuais que Sidão era metódico e cuidadoso ao preparar. Aqui abaixo mais algumas imagens que tenho em minha máquina e acabaram não sendo usadas. Muitas informações sobre o Sidão nos links anexos.
REPRODUÇÃO DOS ÁLBUNS DE SIDÃO DE 1974
AMPLIANDO, É POSSÍVEL LER SUAS DIVERTIDAS LEGENDAS
ACIMA, SIDÃO E OS AMIGOS DE UBATUBA EM ITAMAMBUCA
ABAIXO, SIDÃO COM HARALD PAI E OS VON SYDOW
PALESTRANDO NO CONGRESSO DO IBRASURF
REPRODUÇÃO DE PÁGINA DUPLA DA VENICE MAG DE 2000
CAPA DA EDIÇÃO
FOTO DE PAULO VAINER NO CANTO DO MOREIRA
COM DODO VON SYDOW
HAWAII 2008
ALBUM DE 1974
A VIAGEM COM THYOLA PELA AMÉRICA CENTRAL
BREAKFAST EM SUA CASA DE MARESIAS
TITITI NA PRAINHA, RIO DE JANEIRO
FOTOS: KLAUS MITTELDORF
COM SÉRGIO SACHS PERU 1973
BROTHERS DATCHA & CLINCH
CACIQUE \ KAHUNA \ ESTRELA DE UMA GERAÇÃO

Vejam os links destas postagens:


CARLOS MOTTA
Sobre Carlinhos Motta também tive a oportunidade e o prazer de fazer uma matéria na Venice Mag. Coloco a matéria  de 2007 na íntegra abaixo.
Não só Carlos Lichtenfels Motta (21/5/1952), como diversos outros amigos surfistas entrevistados, também terão postagens GRANDES e exclusivas, como as de Sidão (ou Bocão e Targão) que podem ser encontradas neste blog.
O pai de Carlos gostava muito de pescar e tinha casa na praia da Enseada no Guarujá, seu contato com o mar foi estreito, desde muito criança.
“Eu desde criança sempre tive uma fixação pelas ondas do mar, quando era muito pequeno já tinha uma foto minha com uma boia na onda”
REPRODUÇÕES DO LIVRO CARLOS MOTTA E A VIDA
CARLOS MOTTA COM UMA PRANCHA GLASPAC
PRAIA DE PITANGUEIRAS

CAPA DO LIVRO – INGLÊS E PORTUGUÊS
ARTISTA INTERNACIONAL

IMAGEM CAPTURADA DE SEU SITE

A entrevista exclusiva que tenho com Carlinhos, 54 minutos de gravação, ainda sairá aqui. Vejam agora a matéria da revista Venice, publicada em 2007, clicando e ampliando dá para ler.

DUPLA 1

DUPLA 2

DUPLA 3

 DUPLA 4


DUPLA 5
SIMPLES 6

 CAPA DA VENICE MAG N. 125
FOTOS ARQUIVO PESSOAL

FICO
Raphael Levy foi outro surfista e empresário que fiz recentemente um perfil, desta vez para a revista Surfar, do Rio de Janeiro. Raphael Fico já tem um livro publicado pela Editora Gaia e deve fazer um outro, com destaque para os eventos de surf que realizou no Nordeste do Brasil. Pioneirismo, corajoso e marcante.
CAPA DO LIVRO PUBLICADO EM 2004 PELA EDITORA GAIA

Depoimentos recentes de Fico estão nesta matéria de 10 páginas que saiu publicada em uma das últimas edições impressas da revista Surfar. Hoje a revista carioca é uma publicação apenas pela internet, mas, com a marca Fico, Raphael pode ser considerado um dos maiores incentivadores das publicações impressas de surf nacionais. Apadrinhou atletas e eventos...

Conheça um pouco de sua história neste texto de minha autoria:

DUPLA 1

DUPLA 2
DUPLA 3

DUPLA 4

DUPLA 5

O LINK PARA ESTA MATÉRIA TAMBÉM PODE SER ENCONTRADO AQUI:


ZÉ ROBERTO RANGEL

José Roberto Rangel foi como uma “instituição” do surf brasileiro. Levou a equação de, como empresário, colocar o coração acima da razão à enésima potência.
Pilotando a marca Town & Country no Brasil deu uma nova dimensão ao formato do empresário de surf, em termos mundiais. Quando o Brasil começou a sair de um ambiente de pirataria de marcas gringas para o pagamento de royalties e regularização, foi um dos primeiros a procurar os donos da marca no Hawaii para formalizar um acordo viável.
ZÉ ROBERTO EM ANÚNCIO DA TOWN & COUNTRY

Começou produzindo pranchas, com a marca Green Room, em sociedade com Sidão, antes da OP. Com a renda foram viajar. Na fundação da Lightning Bolt estava lá, depois trabalhou com a marca Primo e finalmente com a T&C. No topo de tudo isto estava um dos melhores surfistas do Guarujá dos anos 1970, um empresário que entendia o que um atleta de surf precisava, entendia como um evento de surf deveria funcionar e como dar feeling a tudo que fazia.

Em matéria de 10 páginas, publicada na revista Venice de N. 106, em outubro de 2005, sobre a batuta de Dandão (Fernando Costa Netto), que deu o conceito àquela saudosa publicação pocket, tive o prazer de fazer um dos três textos sobre o amigo Zé. Os outros foram do próprio Dandão e Sidão, ases da escrita, não só de surf, mas de guerra e arte, respectivamente. Scaneei as páginas e clicando e ampliando dá para ler e ter um pouco da ideia do legado de José Roberto Rangel. Foi um belíssimo e merecido tributo.

DUPLA 1 - FOTOS DE AÇÃO: ROBERTO PRICE - COSTA RICA

DUPLA 2

DUPLA 3

DUPLA 4

DUPLA 5


Aqui foram apenas 6 representantes da TURMA DO GUARUJÁ, a Parte 2 pode ser a próxima postagem, como pode também, pelo dinamismo deste blog, levar algum tempo para sair...
A história do surf brasileiro está acontecendo e este BLOG – HISTÓRIAS DO SURF é concebido “on the fly”. Guardarei a coerência para o livro, quando finalmente os agentes culturais deste país me permitirem consumar o projeto livre de qualquer viés de corrupção. Acredito e sempre acreditarei no surf brasileiro, hoje nossos atletas nos enchem de orgulho. O atual campeão mundial é um surfista que teve seu berço nas ondas do Guarujá e essa história tem um legado, que vem dos primeiros surfistas da Ilha de Santo Amaro, culmina com Adriano Mineirinho (e Caio Ibelli) que agora está lá no topo. Essa projeção internacional do Guarujá começou com Paulo Tendas, outro grande amigo meu, de uma geração mais nova, o qual posso me considerar até um pouco como “mentor”, da mesma forma que os quatro nomes que citei no texto sobre Zé Roberto da T&C, inclusive Zé, foram meus mentores.
Um perfil de Paulinho Martins – Tendas, fica para uma das próximas postagens, mas vamos fechar esta com uma foto dele. Um aperitivo do que está por vir. Considero esta edição de N. 80 da Venice Mag, uma das obras primas de Fernando Costa Netto pilotando o pequeno, porém nobre veículo. Mais sobre Paulinho Tendas, sobre Dandão, sobre a Venice Mag, em breve... Aqui neste blog.

DUAS LENDAS FAZENDO A CAPA DESTA VENICE MAG EM 2003
PAULINHO TENDAS A LENDA QUE ESTÁ NO CÉU, SURFANDO NO HAWAII NO FINAL DOS ANOS 1980 E O LENDÁRIO FOTOGRAFO ALBERTO DE ABREU SODRÉ, OU BETO CAÇÃO, MEU SÓCIO NA REVISTA HARDCORE NOS ANOS 1990 E QUE AINDA TERÁ UMA POSTAGEM AQUI FALANDO SOBRE SEU TRABALHO COM FOTOGRAFIA DE SURF E SUA HISTÓRIA, MAS ESSE CARA É DA TURMA DE UBATUBA

Para buscar mais informações sobre o projeto do livro: WWW.HSURFBR.COM.BR