quinta-feira, 25 de abril de 2013

RELÍQUIAS PRESERVADAS


AS PRIMEIRAS PRANCHAS DA VIDA
FOTO: SILVIA WINIK

O que realmente fez despertar o desejo de surfar em mim foi o filme Endless Summer - Alegria de Verão. Depois de assistir duas sessões e meia, de uma tacada só... Ganhar minha primeira prancha passou a ser uma obsessão. Isso foi a partir de 1967.
No início daquele ano meus pais haviam vendido o apartamento que tinham em Santos, entre os Canais 4 e 5. Compraram um no Guarujá, em frente a ilha de Pitangueiras. Em Santos, eu já brincava nas minúsculas ondas com uma tábua de madeira, tipo uma mini alaia, acho que desde os 7 para 8 anos, não sei dizer quando comecei. Era a brincadeira na praia.
Trouxe esta prancha para o Guarujá, mas lá ganhei uma de Isopor, o modelo chamado Planonda. Era o máximo, pois a alaia não sustentava meu peso (a não ser com velocidade), agora, na de isopor, dava para boiar. Fui evoluindo e vendo os surfistas “propriamente ditos” fazerem suas evoluções de pé naqueles pranchões.
Na verdade a primeira coisa que meu pai me ensinou em Santos, foi a pegar jacaré de peito, sem prancha, sem pé de pato, nada. Eu também era bom nisso, nadava bem, passava horas e HORAS, no mar. Desde muito jovem.

GAIVOTANDO
Uma de minhas distrações favoritas no Guarujá era o que os meus pais chamavam de ficar “gaivotando”. Eu ia sem prancha para a região entre a Ilha e o Morro do Maluf – que era chamada de Área de Surf – e ficava esperando os surfistas perderem suas pranchas. Fiquei especialista em resgatar pranchas perdidas (ninguém usava cordinha ainda) e devolvê-las aos donos.
Eu era tão politicamente correto, que nem tentava surfar com a prancha alheia. Ia remando para o fundo, na direção do dono e entregava. Na maioria das vezes voltava a nado de onde não dava pé. Isso com 10, 11 anos. Fui pegando traquejo para lidar com as pranchas pesadas, furar ondas, remar, nadar. Observava tudo que os surfistas faziam.
Eu ficava na beira, onde dava pé, só esperando os caras caírem. Saía como uma bala em direção à prancha perdida, por vezes estava com uma em cada mão. Até que chegou o dia de ganhar minha prancha. Uma Glaspac MK3, a estreia foi na Páscoa de 1969, com 12 anos. Um pouco antes, no verão 68\69, cheguei a alugar uma prancha do modelo Induma, toda branca, com duas faixas verticais. Elas ficavam em uma loja na Galeria Caminho do Mar, logo abaixo do meu prédio.
A Glaspac foi minha única prancha da Páscoa (abril) de 69 até os Finados (novembro) de 1970, quando estreei a minha São Conrado, já uma mini model (7’0”). Meus pais me levaram até o Rio para encomendar ela na casa do Coronel Parreiras. Ela tinha o bottom e a borda feitas com pigmento verde na resina. Um pin line e uma quilha preta e no deck o desenho do “dragão”.

O APELIDO
Este desenho foi feito em papel vegetal (ainda não haviam sedas), minha mãe ampliou com um pantógrafo, o pequeno desenho de um brasão da Escócia, que eu achei numa enciclopédia. Levamos o papel vegetal, já pintado com tinta nanquim, ao coronel. Vibrei ao desempacotar a prancha quando chegou do Rio.
Mal imaginava eu que ela me daria o apelido que carrego até hoje e sempre gostei, tanto que assinei a maioria de minhas matérias na Fluir, Hardcore, Venice, Alma Surf... Usando o pseudônimo ao lado de meu nome. O desenho era de um leão, mas meus amigos da turma do Guarujá cismaram que era um dragão. Nunca lutei contra isso. Simplesmente continuei dropando as ondas.
Neste blog resolvi fazer um apanhado com algumas fotos destas pranchas. Infelizmente não guardei nenhuma delas. Tenho 1 (única) foto minha surfando com a S. Conrado. A alaia rachou e joguei fora. Minha planonda foi doada para o Pardhal (Diniz Iozzi) e está no acervo do seu Museu, em Santos. A Glaspac vendi e não sei onde foi parar...
A prancha do Dragão... Recentemente encontrei uma foto no site Cameramar, do pioneiro surfista local do Guarujá: Udo. Esta foto irá me permitir um belo dia fazer uma réplica desta prancha para que o arrependimento de tê-la vendido acabe. Abaixo, em cada foto, seguem mais alguns comentários.

AS FOTOS
No início de 2013 percebi que o Alcino Pirata tinha em seu museu PIRATA SURF CLUB, em frente ao point do Maluf, pranchas iguais aos três primeiros modelos que usei. Entrei em contato com a fotógrafa Silvia Winik e produzimos estas fotos lá no canto da praia de Pitangueiras.

NO ACERVO DO ALCINO PIRATA ENCONTREI OS TRÊS MODELOS 
QUE USEI PARA COMEÇAR A SURFAR. FOTO SILVIA WINIK

UM DIA EU ESTAVA VOLTANDO MOLHADO DO SURF QUANDO UM AMIGO DAQUELA PRIMEIRA TURMA DO GUARUJÁ ME ENTREGOU UM ENVELOPE COM ESTA FOTO.
SÓ LEMBRO QUE ELE CHAMAVA ARMANDO, NUNCA SOUBE SEU SOBRENOME. DEPOIS ELE SUMIU DA CENA DO SURF NAS PITANGUEIRAS.

NESTA FOTO DA PARA VER BEM O DESENHO DO "DRAGÃO". QUEM ESTÁ COM A PRANCHA É O ALEMÃO LIMOEIRO, DE PÉ AO LADO DELE, MOISÉS BARSOTTI. SEU IRMÃO CARLOS "PRETO" BARSOTTI SEGURANDO A PRANCHA APARECE AGACHADO NO MEIO DE RUY GONZALEZ E DO CABELUDO MARCELO BRUXA.
AO FUNDO PRAIA DAS ASTÚRIAS SÓ COM O EDIFÍCIO TENDAS - INÍCIO DOS ANOS 70.

VISITEM MEU SITE: www.hsurfbr.com.br

No FACEBOOK também postei outras fotos destas pranchas.

Por Reinaldo “Dragão” Andraus

3 comentários:

  1. sou dessa época conheci muito deles, bons tempos.

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  2. Frequentava a praia de Itararé em S. Vicente e passei por fases semelhantes no final dos anos 60.Não tornei-me surfista mas aprendi bastante, desde de pegar jacaré com o peito até a pranchinha jacaré de madeira passando rapidamente pelo isopor e a alegria de conseguir descer uma onda no long board. O mar é maravilhoso, parabéns pelas boas lembranças.

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  3. Muito legal tudo isso... Vivi tudo na mesma época. Meu avô tinha um aptoº em São Vicente na praia do Itararé e eu comecei a pegar onda numa tábua igual a sua... Via maravilhado os irmãos Carlos e Eduardo Argento com seus amigos, pegarem ondas com seus enormes pranchões. Os anos passaram mas meu amor pelo surf nunca terminou. Meus pais nunca concordaram em me dar uma prancha e eu surfava de qualquer jeito, de peito de prancha de isopor e na tábua de madeira até adulto. Casei-me em 1984 e comprei minha primeira prancha, uma K&K 5,10 que não flutuava pois era pequena para mim... Redescobri o longboard, comprando um 9,6 com os irmãos Argento na loja que eles tinham em São Paulo e hoje aos 61 anos, ainda surfo e agora na companhia de meu filho que mesmo jovem, com 24 anos, se apaixonou pelo surf de longboad

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