quinta-feira, 29 de maio de 2014

NOVAS ENTREVISTAS

Pequenos (importantes) pedaços da história

Estive no Rio de Janeiro de 15 a 20 de maio e coletei mais algumas entrevistas que muito irão acrescentar ao projeto de pesquisa do livro “A Grande História do Surf Brasileiro”.
RESTAURANTE DO IATE CLUBE DO RIO DE JANEIRO

A razão principal de minha ida foi o convite de Armando Serra para um almoço, no Iate Clube do Rio de Janeiro, que reunia alguns dos surfistas que começaram a surfar com as pranchas de madeirite, ainda nos anos 60.
Agradeço o apoio de meus parceiros (seus logos estão na coluna lateral deste blog), que estão viabilizando estas viagens e a dedicação de corpo e alma nesta fase do projeto de pesquisa, antes dos recursos serem captados através das leis de incentivo. Não deixarei estacionada a coleta de informações para a obra. O livro vai sendo construído.

ARMANDO SERRA
Armando Serra parou de surfar em 1968, mas ele foi um dos mais atuantes surfistas dos anos 60. Esteve na reunião com o governador Negrão de Lima que visava liberar o surf nas praias cariocas, que ficou restrito depois que as primeiras pranchas começaram a atingir banhistas; foi um dos descobridores de Saquarema (para o surf); sempre estava entre os melhores colocados nos campeonatos realizados na cidade do Rio de Janeiro na segunda metade dos anos 60. Depois que parou de surfar trabalhou como mergulhador profissional na montagem do Píer de Ipanema, no lançamento das tubulações dentro das pilastras. Participará da comissão julgadora das regatas nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016.


ARMANDO SERRA COMPETINDO NO ARPOADOR.
REPRODUÇÃO DA HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL – 50 ANOS DE AVENTURA,
DE ALEX GUTENBERG, PRODUZIDO PELA REVISTA FLUIR
PUBLICADO PELA EDITORA AZUL EM 1989.
FOTO DO ACERVO DO JB.

Em 2010 Armando soube que Wady Mansur (ao lado de Daniel Sabá), estava organizando o primeiro evento “Lendas do Arpoador”. Não foi um dos convidados, simplesmente soube, apareceu na praia e logo se enturmou. Como ativo sócio do Iate Clube foi ele que organizou este segundo encontro (almoço) dentro da Baía da Guanabara.
O IATE CLUBE NA SEXTA-FEIRA 16 DE MAIO DE 2014 – OUTONO CARIOCA
FOTO: DRAGÃO
ARMANDO SERRA, DE CAMISA VERDE CLARA, CONVERSA COM JORGE BALLY (PERSEGUE), WADY MANSUR SELECIONA FOTOS DOS ANOS 60 QUE VEM COMPILANDO, PARA ME MOSTRAR EM SEU TABLET (WADY E EU ÉRAMOS OS CAÇULAS – CONVIDADOS HONORÁRIOS), NO CANTO DA FOTO, MARCELO RABELLO DEGUSTA A SUA CERVEJA. 
FOTO: ROGÉRIO “JAPA” TADASHI

Um pouco mais novo que Armando, Marcelinho – como era conhecido na época, também vem colaborando comigo e preparou um levantamento com os resultados de todos os primeiros campeonatos realizados no Rio, um texto longo, abrangente e explicativo... Em breve estarei publicando, de forma ilustrada, aqui neste blog, com muitas outras informações. Vamos agora conhecer um pouco mais sobre Armando Serra, reproduzo a seguir trechos de uma entrevista de mais de uma hora que realizei com ele:
“Meu nome completo é Armando Silva Serra, nasci na cidade do Rio de Janeiro em 16 de fevereiro de 1946. Eu morava em Ipanema e meu pai ia muito a praia, principalmente no Arpoador. Dos 10 aos 14 anos tivemos de morar em Belém (PA), quando voltei ao Rio, no verão de 1960 para 1961 o surf havia entrado em cena no Arpoador e eu me interessei de imediato. Fui atrás de uma prancha de madeirite. Comecei a surfar com um pequeno grupo de pioneiros, havia uns 20 surfistas.
O pessoal que tinha as informações era a turma da caça submarina, George Grande, Luís Bisão, Bruno Hermany... As novidades que eles traziam era sobre o material de mergulho e as primeiras pranchas. O Bisão fabricou as primeiras (“portas de igreja”). Quando o mar estava de ressaca, ninguém conseguia pescar, então todo mundo ia pegar ondas. Nos dias tranquilos nós dávamos a volta nas pedras do Arpoador, eu ia junto com Badué, João Cristovão, Walcyr Rabello, o Barriguinha (Irencyr). Uma turma que tinha essa simbiose de onda e caça submarina.


FOTO COM MEU CELULAR DO ALMOÇO REALIZADO NO DIA 16 DE MAIO. AO FUNDO, DA ESQUERDA PARA A DIREITA: JORGE BALLY (PERSEGUE), WADY MANSUR E SEU FIEL ESCUDEIRO JAPA (ROGÉRIO TADASHI) MANDANDO UM HANG LOOSE, FERNANDA GUERRA, MARCELO RABELLO, IBATÉ JOST E ROBERTO AMARAL; NA LINHA INFERIOR: DIANA AZAMBUJA (QUE FOI NAMORADA DE ARDUÍNO COLASSANTI), ARMANDO SERRA, GILDA CARVALHO, DENISE RABELLO, VALERIA JEANS E RAIMUNDO CANÁRIO.

Com as pranchas que tínhamos, aquelas madeirites, surfávamos mais as ondas do Pontão do Arpoador, pois já entrávamos cortando a onda. No Posto 6, em Copacabana, havia ondas ótimas, mas com os pés de pato era mais difícil aproveitá-las, pois eram rápidas, até que apareceu o Peter Troy, em 1964 e tudo mudou... Um professor do Russell Coffin da escola americana, o Maísa, que surfava conosco de madeirite, sabia que o Russell tinha uma prancha importada. O Peter mostrou o que era o surf, andando na prancha, dando cutbacks.
Nesse ponto houve a transição das pranchas de madeirite para as de fibra. Você flutuava, pegava muito mais ondas, não precisava usar o pé de pato. O Peter Troy ficou aqui mais de um mês e começou a nos dar todas as dicas de como surfar, como fabricar as pranchas. O pessoal começou a trazer pranchas importadas. Começamos a ir com mais frequência em direção à Barra, o Arduíno tinha um jipe, eu também tinha um jipe, íamos o Persegue (Jorge Bally), Geraldo Fonseca e Arduíno junto com algumas meninas.
Era bom ter um carro de apoio, caso um quebrasse. Lembro também que estavam construindo a Santos-Rio e sempre que conseguíamos furávamos o bloqueio da obra e chegávamos mais rápido do que pela precária estrada da praia. Na praia da Macumba já surfávamos desde a época das madeirites. Para ir até a Prainha parávamos o carro e íamos andando pelo morro por uma trilha, que nem cabritos, e pulávamos na água da pedra em um determinado ponto. Para voltar partíamos da praia pela trilha.

SAQUAREMA
Havia um amigo meu de família de armadores da Noruega, o Knute Aune, o Tute, que gostava de ondas grandes. Fomos até Saquarema na casa de alguns amigos nossos, mas a ideia era a caça submarina. Nós chegamos lá e pescamos, mas fiquei olhando para a praia e pensei: ‘Isso aqui é perfeito para pegar ondas, não tem igual é um paraíso’. Isso foi em 1964, antes do Peter Troy aparecer, ainda era época das madeirites. Era uma aventura ir até lá, você tinha que atravessar de barca, ia pela estrada antiga. Havia peixe à beça e ondas. Fui algumas vezes com Tute e depois levei o Russell e o John Hansen. Começamos a levar nossos amigos. Depois tínhamos namoradas que tinham casa de veraneio lá, um lugar para dormir e ficar mais tempo.
FOTO DO ACERVO DE ARMANDO SERRA – SAQUAREMA ANOS 60 
COM RUSSELL, MONICA, GERALDO FONSECA, SERRA E PERSEGUE.

Um dia o Parreiras apareceu na praia com uma prancha de madeira, com bico largo, disforme, o formato estranho, um horror; mas na concepção dele aquilo era uma prancha e entregou para nós testarmos na praia. Depois disso alguém foi na fábrica dele, acho que foi o Mário Bração e shapeou um prancha. As primeiras já de espuma amassavam fácil, ele foi reforçando a laminação. A partir desta segunda prancha que ficou fraca ele foi evoluindo.”
As Surfboards São Conrado se transformaram no parâmetro no final dos anos 60.

O MERCADO - PRANCHAS
 Armando Serra conta: “Minha primeira prancha foi uma madeirite da Serraria Arpoador, na R. Francisco Otaviano, mas eu sempre procurava emprestar as pranchas fabricadas na Ilha do Governador, aquele design do Irencyr Beltrão, elas eram MUITO melhores, a diferença era muito grande na performance, o shape era totalmente diferente”.
As pranchas de surf, seu design e funcionalidade, sempre serão a mola propulsora da performance da evolução do esporte. O primeiro grande fabricante de pranchas do Rio de Janeiro foi o Coronel Parreiras, com as suas São Conrado Surfboards, ainda descerei fundo pesquisando e coletando imagens sobre estas pranchas emblemáticas. Em um determinado período a mais importante fábrica do Rio, do Brasil. Vejam o que já consegui com um amigo meu da turma do Guarujá:

CARTÃO - RECIBO DE UMA MINI MODEL
ADQUIRIDA EM 1970 POR CLAUDIO CELSO
FRENTE

VERSO

Muitos shapers importantes trabalharam na fábrica do coronel, Cyro Beltrão, Mário Bração, Tito Rosemberg, Carlos Mudinho... A expansão de blocos de poliuretano, que Parreiras começou a fazer, foi assumida por Russell Coffin. Durante muitos anos ele foi responsável pela Clark Foam no Brasil (devo entrevista-lo em breve). Porém, com esta postagem, vou me ater às entrevistas que acabei de fazer. Por ordem de idade.

YSO AMSLER
Aloysio Amsler Moura (11/04/52) carioca da Urca, hoje mora no Jardim Botânico, começou a surfar com uma prancha de madeirite, na praia de Fora, que fica dentro da fortaleza de São João, (área militar restrita, ao final da Av. João Luís Alves), o pai de Yso era militar. Um praia que já está na região oceânica, foi lá que Yso aprendeu a surfar.
YSO EM SUA CASA NO JARDIM BOTÂNICO. ELE VIVEU A EXPERIÊNCIA DO PÍER
Ele conta sua história: “Dá ondas muito boas lá, parecidas com as do Pepino, ela bate na pedra e sobe um pico. Com as madeirites era legal porque ela vinha estourada e ficava fácil para pegar. Ganhei minha madeirite em dezembro de 1964, mas antes disso já tinha gente com outras madeirites e eu emprestava. A primeira prancha que vi foi do Carlinhos Chaves, irmão do Cesinha (do skate), logo depois pedi uma para meu pai. Só em 1967 que tive contato com uma prancha de fibra, através de um colega meu do Colégio Andrews. Ele estava estreando uma São Conrado. Minha segunda prancha eu comprei do Alexandre 'Xuxa', que hoje é médico nos Estados Unidos, foi um pranchão São Conrado. Até 1967 fiquei naquele meu mundinho da Urca. Minha terceira prancha saiu deste próprio bloco da minha São Conrado, que foi descascado pelos shapers da Twilight Surfboards - Canário e Marcelo Rabello e transformado em uma mini model. Comecei a consertar pranchas. No final de 1971, junto com meu irmão mais novo, Sergio, decidimos fazer pranchas, compramos espumas na São Conrado e aí nasceram as Pranchas Amsler. O primeiro shape foi do meu irmão. No início de 1972 um grande amigo meu que morava na Urca, o Zé Bello (filho da Nair Bello), trouxe o pranchão dele para descascar e saiu uma 6’10”, que foi laminada na mesa de jantar da Dona Nair. Uma coisa que me orgulho é de ter sido o primeiro brasileiro a trabalhar no Hawaii, contratado pelas lojas Surf Line Hawaii, no meio dos anos 70.”


POSTER MONTAGEM COM MOMENTOS DE YSO AMSLER E AMIGOS

Yso também tem histórias incríveis, seu depoimento gravado passou de uma hora. Ele me traz para uma reflexão sobre os surfistas shapers. No início dos anos 70 muitos dos grandes surfistas competidores de chegada eram shapers. Esta foi uma das razões de fábricas como a São Conrado perderem espaço para os fabricantes artesanais. Surfistas que fabricavam as pranchas e viviam o surf, testavam os seus designs.


FINALISTAS DO CAMPEONATO PÍER ’72 (ÚNICO LÁ REALIZADO)
A FINAL ACONTECEU NO DIA 3 DE JANEIRO DE 1973
BETÃO, WANDERBILL, YSO, MARACA, OTAVIO, PROENÇA
COM EXCEÇÃO DE PAULO PROENÇA TODOS GASTARAM BLOCOS
TARGÃO VENCEU E YSO FOI O SEGUNDO COLOCADO
FOTO: FERNANDO AMSLER MOURA

Obviamente não vou esgotar a numerosa lista de talentosos shapers (cariocas) que passaram a dominar o mercado: Cyro Beltrão, Tito, Mário Bração, Carlos Mudinho, Rico de Souza, MAKACA (Marcelo Rabello, Marcelo Kaneca e Raimundo Canário), depois Otavio Pacheco, Wanderbill, Daniel Friedmann, Bocão & Betão, as pranchas PriPe (Jorge Pritman e Pepê Lopes), Miçairi, Heinrich e surfistas das gerações que se sucederam, com suas marcas, a maioria ativos até hoje Beto Santos, com as Cristal Graffiti; Victor Vasconcelos e Pedro Bataglin, com as Vicstick – Hotstick – Rusty; Lipe com a Energia; Peninha com a Invicta; Dardal com a Spirit; Cláudio Pastor e as Graphtec; Ítalo Marcelo e suas IM – Impact Motion\Island Mana; Jean Noel e vamos falar mais tarde das Hidrojets que culminaram com as Wetworks.
Muitos outros shapers de qualidade foram surgindo no Rio, como Crivella, Lelot, Leo Kastrup e suas World Coast, será impossível citar todos, cada qual com sua marca na história do surf. Isso sem sair do Rio de Janeiro.
Fecharei este raciocínio com a próxima entrevista que fiz com Guatavo Kronig, das pranchas Get It, hoje Kronig Designs. Atualmente com 56 anos Kronig (14/2/58) representa o shaper que testa seus foguetes na água, surfa com qualidade e projeta pranchas cada vez melhores se valendo da tecnologia, máquinas, oficinas especializadas em laminação e surfistas (team riders) que passam um precioso feedback. Kronig é um waterman nato.

KRONIG DESIGNS

"BROTHERS" - KRONIG SENDO RABEADO POR IANZINHO - ANTÔNIO MARTINS, EM ITAÚNA. NÃO TENHO CRÉDITO DESTA FOTO, MAS PODE SER DE FEDOCA, MÚCIO SCORZELLI, ROGÉRIO EHRLICH, TUNICO DE BIASI, NILTON BARBOSA, KLAUS MITTELDORF, FREDDY KOESTER... 
UM DOS FOTÓGRAFOS QUE SE DEDICARAM A REGISTRAR O SURF CARIOCA NOS ANOS 70
PARA O LIVRO TEREI TODOS OS CRÉDITOS CORRETOS

“Meu nome é Gustavo-Roberto Kronig, mistura de suíço, alemão e português por parte de pai; francês por parte mãe. Meu pai era advogado e gostava de velejar. Meus pais descobriram Búzios nos anos 50\60. Ele tinha barco e às vezes era mais fácil ir de barco do que carro até Búzios. Cheguei a viajar de barco de Cape Town para Santos, ou Buenos Aires e sempre me interessei por barcos, o design deles, água, mar, hidrodinâmica e quando me transformei em shaper esse conhecimento me ajudou, pois é baseado nos mesmos conceitos que já me interessavam. Comecei a shapear em 1973. Ganhei minha primeira prancha em 20 de agosto de 1969, no dia que o homem pisou na lua. Era uma mini model importada, Design 1 - Reflector, trazida da América por minha mãe, que hoje está no museu do Monarca. Estudei no colégio Brasileiro de Almeida, da família de Tom Jobim e na minha classe tive como colegas Tico Cavalcanti, Cacau Falcão, Zeca Proença (Mendingo), Rogério Izetti (Broca) e outros surfistas”.
KRONIG FOI UM DOS SURFISTAS QUE PARTICIPOU DA EXPEDIÇÃO TICO, JUNTO COM A REVISTA FLUIR PARA DIVERSAS ILHAS DA INDONÉSIA, EM 1989. ELE ESTÁ AO CENTRO. FOTO: BRUNO ALVES.

A experiência de Kronig com pranchas vem desde o início, por tentativa e erro com Ítalo Marcelo, depois com Bill Barnfield, onde teve o primeiro contato com uma fábrica de pranchas profissional, aprendeu muito com Heinrich, trabalhou shapeando para Rico, depois nas Get It, nos anos 80 e agora as Kronig Designs, muitas histórias e vivência no shape room, na água testando e a facilidade que tem hoje para criar seus designs no computador. Fez pranchas para diversas gerações de surfistas como Cauli, Pepê, Valdir, d’Orey, Valério, Felipe Dantas, Burle, do Sul, de Sampa, da Bahia... Foi sempre se atualizando.
KRONIG, DE VERMELHO, COM O AMIGO ROBERTO VALÉRIO E ALGUMAS CRIANÇAS MODELOS PARA CAMPANHA DE PUBLICIDADE DO INÍCIO DOS ANOS 90. ESTA FOTO PEGUEI COM MEU CELULAR EM UM PORTA RETRATO DA ESTANTE DE SUA CASA.


WETWORKS
JOCA & RM
Na segunda-feira dia 19 de maio fui fazer uma visita na sede da Wetworks, em Vargem Grande. Infelizmente o Alemão (Cláudio Walter Hennek) não estava nesta manhã, mas tive tempo de entrevistar Joca Secco e Ricardo Martins, dois dos mais importantes shapers do Brasil na atualidade, conheça um pouco da história deles.
ESTE POSTER ESTAVA NA RECEPÇÃO DA WETWORS. FOTOGRAFEI COM MEU CELULAR E CALCULO QUE SEJA DO MEIO DA DÉCADA PASSADA. DÁ UMA DIMENSÃO DO VOLUME E QUALIDADE DOS SURFISTAS QUE ESTES TRÊS SHAPERS APOIARAM AO LONGO DOS ANOS

“Ricardo Martins de Almeida (30/10/1962), Rio de Janeiro. Sou nascido e criado em Copacabana. Tinha uma turma de amigos mais velhos do meu prédio com quem eu pegava onda de peito e de isopor no Posto 5. Depois filava as prancha deles, ia até o Arpoador, Castelinho. A minha primeira prancha ganhei em 1976, era uma Carrera, uma 7’2” round pin. Eu era da turma Copacabana e o Joca da turma do Arpoador, por coincidência fomos estudar no colégio Humaitá, eu um ano na frente. Começamos a ir juntos aos campeonatos, para competir. Em Saquarema pegamos os últimos, a Copa CCE em 1982 e o que o Picuruta ganhou, com Daniel Friedmann em segundo, a I Copa Rádio Fluminense, em 1983. Para Ubatuba íamos em todos os festivais. Nós éramos uma turma grande de amigos e começamos a fazer pranchas em Copacabana, numa garagem, junto com o Luís Coruja. Nos esforçávamos para fazer pranchas boas pois eram para competirmos. Antes, estávamos na equipe do Victor Vasconcelos. Numa tarde vendo o programa Realce na TV começamos a fazer um “brain storm” para achar um nome para as nossas pranchas e surgiu ‘Hidrojets’. Era um cenário supercompetitivo, todos estavam voltados para a competição e o objetivo maior era a evolução. Entre as turmas de cada praia do Rio era o desafio de quem estivesse surfando melhor. No início dos anos 90 o Alemão era um atleta nosso, ensinamos ele a shapear e acabamos formando a Wetworks com os três shapers. Com a marca sempre tivemos a política de apoiar surfistas novos, que um dia poderiam ser “top” e honrar a nossa bandeira e do Brasil. O amor que tínhamos pelo desenvolvimento do surf nunca mudou. O nosso prazer é poder trabalhar com o que a gente gosta.”


JOCA SECCO FOI CAPA DA REVISTA HARDCORE EM OUTUBRO DE 1998. FOTO DE FABIO PARADISE NAS ILHAS MENTAWAI

“João Paulo de Secco Freire (14/12/63), Rio. Meu pai era da Marinha e eu morava em diversos lugares, quando voltamos a morar no Rio eu tinha 11 e comecei a surfar no verão de 1975. Comecei a surfar no Posto 6 em Copacabana, com uma prancha de isopor laminada com resina epóxi feita pelo meu pai com um outro oficial de marinha. A prancha não tinha marca nenhuma, mas tinha o desenho de uma âncora, símbolo da Marinha. Nos finais de semana íamos até a Prainha, ou então no Quebra-Mar. Depois meu pai deu um jeito de trazer umas pranchas do Gerry Lopez, eu tinha uma amarela, com raio preto. Começamos a fazer pranchas com o Luís Ferreira (Coruja), em 1982. Ficamos uns seis meses consertando pranchas para juntar o dinheiro e poder fazer as primeiras. O Coruja era o máster shaper. No final da década de 80, a partir de 1990 que surgiu a marca Wetworks e criamos nossas marcas. Foi o momento que começaram as fábricas de laminação. Eu laminava minhas pranchas Secco na Superglass. Começamos a usar o mesmo logotipo com cores diferente. O conceito que críamos desde o tempo da Hidrojets, de três shapers trabalhando juntos e discutindo as ideias é única no mundo e aqui deu certo. E até os licenciamentos que escolhemos (Super Brand e Pyzel) são amigos da gente e pessoas que nos damos bem.”


DURANTE A MOSTRA DA ALMA SURF, NA BIENAL DE SÃO PAULO EM 2009, ENCONTREI COM JOCA E RICARDO EM FRENTE A UMA COLEÇÃO DE 50 RÉPLICAS DE PRANCHAS FAMOSAS E UMA OUTRA CURADORIA QUE FIZ DA LINHA DO TEMPO DA SURFWEAR NO BRASIL. JUNTO CONOSCO O LEGEND CHICO PAIOLI.
FOTO MARISA PAIOLI
A fabricação de pranchas é o primeiro canal industrial do surf. Sem as pranchas não há o esporte e muitos shapers são instrumentais nesta evolução. Várias outras entrevistas com artesãos, conhecedores, que vivenciaram o esporte dos reis havaianos no Brasil trarão o seu insight – ponto de vista, para a produção do livro.

MANSURF
A indústria de confecção hoje é a que move as maiores cifras neste mercado, mas nem sempre foi assim. No início e até o final dos anos 70 ela tomava um papel secundário, inclusive nas publicações de surf nacionais e internacionais. Existiam muito mais anúncios de pranchas do que de roupas. Esse fenômeno e toda a evolução histórica da fabricação de surfwear no Brasil, será tratada de forma profunda no livro, vamos a uma pitada dessa vertente da história.
Armando Serra: “Minha mãe chegou a mandar fazer bermudas para mim com uma costureira. Eu via o pessoal de bermuda pegando onda e a parafina arranha muito, aí eu pedi para minha mãe fazer um modelo baseado nas revistas estrangeiras. Eu tive umas quatro a cinco bermudas. Escolhia as cores das faixas. Eu fiz só para mim, pela necessidade de usar".
Esta costureira poderia ter se transformado na “Nancy Katin Brasileira”, mas a história não foi assim, reparem o modelo das bermudas nas fotos de Serra acima.
DRAGÃO, WADY E SERRA NO IATE CLUBE DO RIO DE JANEIRO
FOTO: JAPA

Wady Mansur foi um dos pioneiros na confecção. Ele e seu irmão Fuad Mansur (ainda tem o mais velho e estiloso surfista Elias), são famosos por produzirem atualmente uma das melhores parafinas do planeta, a FU WAX, usada até por Kelly Slater. Fuad ainda será entrevistado, mas trago aqui fragmentos de um papo de 80 minuto com:
“Wady Lopes Mansur, nasci na Colômbia em 10/06/1956, com três anos eu vim para o Brasil. Meu pai também é colombiano, mas filho de árabe, ele trabalhava com lingerie. Nós fomos morar em Santos, no Canal 3, e meu irmão mais velho o Elias comprou uma prancha caixa de fósforo. Compramos do Orlando Mariani uma prancha que tinha uma rolha atrás. Já tinha algumas madeirite e também aqueles tarugos da Glaspac, a MK 1. Quando saiu a MK 2 nosso pai comprou mais uma para mim e outra para o Fuad, com listas verdes e brancas. Isso em 1967. O pico era o Canal 3 e a turma que surfava lá eram os irmão Twin, Dudu, Carlinhos e os irmãos Cangiano.
Meu pai tinha uma confecção de saídas de praia em Santos. Ele que desenvolveu com um sócio as calças Rancheiro e depois as calças Calhambeque, que o Roberto e o Erasmo Carlos usavam. Demos a ideia para ele de fazer bermudas de surf, começamos a fazer as primeiras de nylon floral, com ilhós. Vendíamos na loja dele, sem marca. Comprávamos panos de cortinas. Depois criamos a marca ManSurf e enchemos a paciência do meu pai para nos levar ao Rio. Nós viemos para o Rio de Janeiro com o objetivo de comprar bermudas da Magno para vender lá na loja de meu pai, que era na Rua Frei Gaspar, em São Vicente. Entramos na loja e parecia um sonho de criança, lembro que as prateleiras eram barris. A mesa era uma prancha.
ANÚNCIO DA MANSURF PUBLICADO NO PASQUIM, COM WADY CABELUDO COMO GAROTO PROPAGANDA.

Compramos algumas bermudas levamos para Santos, mas naquele meio tempo que ficamos na loja Magno, na Rua Gomes Carneiro, falando com o gerente soubemos que tinha uma outra loja para alugar, dentro da galeria. Meu pai tinha um sócio investidor. Alugamos a loja e começamos a ManSurf, quase ao lado da Magno em 1973, eu era um garoto de 16 anos. Vimos as ondas do Píer e não acreditamos. Ficamos morando no Rio e quando apareceu o Flavio Dias com a “boneca” da primeira Brasil Surf, em 1975, fechamos o anúncio da contracapa, nas edições 1 e 2. Nós fomos os primeiros a acreditar na revista.
PRIMEIRO ANÚNCIO

Depois fizemos aqueles anúncios com muitas camisetas e a parada bombou de um jeito que não estávamos preparados. Começou a fazer fila na porta de nossa loja. O Magno não acreditava. Éramos menores e gerávamos aquele movimento. Toda nossa produção era em Santos. Depois chegamos a ter 100 funcionários. A ManSurf teve o auge de 1973 até 1984. Lançávamos os anúncios com as camisetas com número de referência e chegavam pilhas de cheques de todo o Brasil, trabalhávamos com reembolso postal. Tudo pelo correio. Não parava. Construímos uma casa no Guaiúba, no Guarujá, com esta renda. Depois veio o sequestro dos depósitos no governo Collor e acabamos quebrando.”




O ANÚNCIO, INSPIRADO NAS CAMPANHAS DA VAL SURF NA REVISTA SURFER AMERICANA, QUE PROVOCOU VENDAS INCRÍVEIS, PUBLICADO NA BRASIL SURF DE AGOSTO 1977, QUE TRAZIA TICO CAVALCANTI NA CAPA.

Mais tarde os irmãos Mansur voltaram com a marca Black Trunk e hoje com as parafinas. A história toda da surfwear. As primeiras lojas do Rio: Magno, Ala Moana e Waimea, o crescimento das confecções paulistas, também será tratado com profundidade, destacando as marcas que ajudaram a pavimentar este mercado. Além da ManSurf, Tico Cavalcanti (que ainda não foi entrevistado) com os calções Tico e Daniel Setton (Dany Boi), que criou em Santa Catarina os calções “Nasimbi”, também no meio dos anos 70, foram os surfistas inveterados que abriram este mercado. Todas estas histórias serão entrelaçadas. Dany, que hoje mora em Florianópilis, não só foi pioneiro na confecção, como instrumental na organização dos campeonatos, participando dos primeiros OP Pro nos anos 80 e hoje organizando, em sociedade com Xandi Fontes, através da Quântica, o Billabong Rio Pro. A entrevista de Dany, que começou a surfar no Guarujá e também participou da fundação da Lightning Bolt (confecção), em 7/7/1977, virá em breve.


FAMOSO ANÚNCIO DE UM QUARTO DE PÁGINA NA BRASIL SURF 
COM PEPÊ, TICO E BOCÃO.

Na minha chegada e partida do Rio aproveitei para participar de alguns eventos sociais que aconteceram na Cidade Maravilhosa. Cheguei dia 15 e no final do dia fui até a loja da Osklen, na Galeria River, para a vernissage de lançamento de uma exposição de fotografias do surfista do Guarujá, Junior Faria. Além de Junior e Oskar Metsavaht, encontrei com Julio Adler, Andrew Serrano, Zé Tepedino e Daniel Resnik, que foi quem me convidou, ele cuida do marketing da Osklen. Segui desde o Recreio, com Gustavo Kronig, que está fazendo as pranchas disponíveis nas lojas Osklen, ao lado de Xanadus e outras.


Depois de quatro dias no Rio e um fun surf na Prainha no final de semana, no final de tarde da segunda (19 de maio) me dirigi à Forneria, em Ipanema, de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, para o lançamento do novo livro do militante político, vereador, deputado e jornalista Sebastião Nery (8/3/1932) – “Ninguém me contou eu vi \ De Getúlio a Dilma”. Quem me convidou para a ocasião foi Jacques Nery, um dos fundadores da revista Visual Esportivo e filho de Sebastião. Jacques ainda será entrevistado e na próxima postagem aqui do blog deixarei a segunda leva de capas da Visual Esportivo (meados dos anos 80), já introduzindo o subproduto Visual Surf. As primeiras edições podem ser encontradas aqui abaixo, bem como TODAS as capas da Brasil Surf. (colecionem em suas máquinas quem quiser - é só clicar e copiar)


Vou fechar esta longa postagem, com produtivas entrevistas e muitas informações interessantes, com uma mensagem e homenagem. Este trecho de texto minha esposa, Maria, colou em nossa geladeira com aqueles imãs decorativos. Vez por outra releio. Sempre vale a pena. E tem tudo a ver com a atitude de Sebastião Nery. NINGUÉM ME CONTOU EU VI, chega a ser um livro autobiográfico de suas aventuras nos meandros da política, sempre escrevendo com coragem, desafiando o que ia contra as suas convicções socialistas e principalmente com conhecimento de causa, sabendo como descrever um cenário, uma personalidade, fazendo entrevistas e colocando as perguntas pertinentes e amarrando tudo com estilo próprio.

Eu sempre encarei o jornalismo de surf com seriedade e nas centenas de coberturas de campeonatos que me envolvi, sempre que possível, procurei entrar no mar cedinho, antes das baterias, ou cair na água assim que a última bateria do dia saia da área de competição, seja em Saquarema, Sunset Beach, ou Itamambuca – para sentir a arena e poder escrever um texto com maior conhecimento de causa, como Sebastião fez com sua vida, mergulhada no ambiente político. Eu sempre discuti detalhes de design com shapers; a melhor forma de estruturação do esporte com os dirigentes; estratégias de marketing com empresários. Para o livro que estou projetando lançar no próximo ano, tentarei trazer a visão mais abrangente possível desta bela história do surf brasileiro, mesclando minha narrativa com MUITOS apartes entre aspas dos entrevistados. Como aqui, mas de uma forma mais apropriada a um livro e não no estilo blog.

A frase abaixo John Fitzgerald Kennedy utilizou em um discurso de 1961 para o banquete do Hall da Fama da NFF (Natinal Football Foundation), mas citando a fonte original que foi um discurso sobre cidadania de Theodore Roosevelt, o 26º Presidente Americano, proferido em Paris, na Sorbonne, em 1910.

O merecimento maior pertence ao homem que se encontra na arena, com o rosto manchado de poeira, suor e sangue... que conhece os grandes entusiasmos, as grandes devoções - que sacrifica a si próprio por uma causa digna - experimenta no final o triunfo de uma grande realização - e se ele fracassa, pelo menos fracassou ao ousar grandes coisas - por isso mesmo o seu lugar nunca poderá ser tomado por essas almas tímidas e frias, que não conhecem vitórias, nem derrotas.”




VEJAM DETALHES DO LIVRO “A Grande História do Surf Brasileiro” NO SITE: www.hsurfbr.com.br

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