sexta-feira, 10 de abril de 2015

OTÁVIO PACHECO – Parte 2

O Mundo de um Campeão

Continuando a entrevista com o surfista carioca Otávio Pacheco (ver Parte 1 na postagem logo abaixo desta), vamos pegar a história logo após sua vitória no campeonato do Píer, no verão 1972\73.
OTÁVIO PACHECO EM PERFIL PUBLICADO NA
REVISTA HARDCORE - EDIÇÃO #36 – AGO 1992

ESTA FOTO É UMA MONTAGEM FEITA PELO FOTÓGRAFO LEVY PAIVA
NA ÉPOCA EM QUE OS FOTÓGRAFOS AINDA TRABALHAVAM COM CROMOS, LEVY PREPAROU UMA “DUPLA EXPOSIÇÃO”, FAZENDO UMA FOTO DO PÔSTER NA PAREDE DE SUA CASA EM SAQUAREMA E DEPOIS, SEM REBOBINAR A MÁQUINA, PEGOU O PERFIL DELE EM UM MESMO CROMO

Eu conheci Otávio em 1980, em Bali. Para mim ele era mais um daqueles ídolos cariocas que apareciam na BRASIL SURF, em capas, pôsteres, páginas duplas. Depois acabamos ficando bons amigos. Ele se hospedou em meu apartamento no Guarujá para disputar campeonatos de longboard em Pitangueiras, eu cheguei a ficar na casa dele em Saquarema e no Rio. Nos hospedamos juntos em picos como Maracaípe, para eventos de longboard e em diversas ocasiões o convidei para escrever textos quando eu atuava como editor de revistas, fez muitas coberturas das etapas dos mundiais de longboard pelo mundo afora para a Hardcore. Em mais de uma oportunidade e para diversos veículos, escreveu sobre o Rio e Saquarema. Ele sempre foi criativo ao colocar seus pensamentos, visões e conhecimento nas matérias sobre surf que escreveu.
ANOTAÇÕES, O LIVRETO ESCRITO POR OTÁVIO PACHECO
LANÇADO EM CONJUNTO COM A ÚLTIMA ETAPA DA ABRASP EM 1987

REPRODUÇÃO DA PÁGINA 6 DA "CARTILHA"
ANOTAÇÕES - para uma história do surf - DE SAQUAREMA
UMA INICIATIVA DA ART PRESSE EM CONJUNTO COM A REVISTA TRIP

OTÁVIO E SUA CLÁSSICA CAVADA DE BACKSIDE
ITAÚNA - SAQUAREMA - ANOS 70
REPARE A PRANCHA "LIVRE" DE LOGOS - SOUL SURF LEVADO AO EXTREMO
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Bem, voltando ao fio da meada de sua história, depois de vencer o primeiro campeonato do Píer, em Ipanema, ele se juntou aos amigos Paulo Proença, Nelsinho e Alexandre Xuxa e partiu em busca das ondas do Oceano Pacífico, o mais novo desafio que ele havia traçado como meta. Aos 20 anos de idade.

Devolvo a bola para Otávio contar esta história:
“Então a gente pegou essa Kombi, fizemos uma calefação meio artesanal nela, com isopor, mas ela não tinha aquecimento, colocamos umas cortininhas e partimos para a estrada. Fomos descendo, saímos em março de 1973, uns três meses depois desse campeonato que eu ganhei. A gente já conhecia o litoral do Sul do Brasil. Fomos pegando ondas e parando. Nosso projeto original era ir em busca das ondas grandes, dar a volta completa na América e chegar no Hawaii. A gente atravessou os Andes e o roteiro era subir toda a Estrada Pan-americana. Atravessar de Mendoza para Santiago no Chile e ir subindo o litoral inteiro pelo Pacífico, até a Califórnia, lá vender a Kombi e ir para o Hawaii.
Sabe aquela história: ‘Os Diários de Motocicleta’? Era o Diário da Kombi. As coisas que a gente passou ali, daria para fazer um filme. Detalhe, a gente não tirou nenhuma foto. Não teve nada registrado.
Tinha aquela filosofia também, o negócio é ‘Aqui Agora’, essa coisa de amanhã, de se lembrar do passado, já era. Cada dia era cada dia. A gente colocava o aqui e agora na prática. Fotos para lembrar... Não tinha nada disso. Me arrependo profundamente. Eu só queria ter 4 fotos, uma da Kombi, os quatro jogados, a gente viajando e uma foto surfando, inclusive poderíamos ter vendido para a Volkswagen isso. Essa Kombi aguentou firme. Foi e voltou.
Quando estávamos no Chile começou aquela revolução toda, o golpe do General Augusto Pinochet depondo o Presidente Salvador Allende. E nosso amigo o Paulinho Proença perdeu o passaporte dele, pois fomos assaltados lá no Chile, ele não conseguiu sair do Chile. Ele ficou e nós atravessamos a fronteira para o Peru. No último dia antes de fechar a fronteira, conseguimos vazar por Arica. No Peru alugamos uma casa em Punta Hermosa e ficamos quase um ano, uns nove meses, o Paulinho acabou chegando lá. Viajamos para o norte até Chicama, para o sul também.
Nós sabíamos que teríamos dificuldade de passar pelo Panamá com a Kombi, o dinheiro foi acabando. Nesse meio tempo conheci o peruano Gustavo Reategui, e ele tinha a licença da parafina da Surf Research, que fazia as parafinas Waxmate. Eu e o Paulo juntamos uma grana e compramos a fórmula. E resolvemos voltar para o Brasil. Antes dessa viagem já fazíamos parafinas em casa com a forminha de empada da avó. Não existiam equipamentos. Nessa época também estávamos fazendo cordinhas. No Peru começamos a fazer as primeiras com cordas de cavalo. Dávamos dois nós cegos no pé, amarrávamos na quilha, começou a machucar muito, decidimos usar meias, depois melhoramos com aquelas borrachas de injeção, garrotes de tubo cirúrgico para amortecer o impacto.
E assim acabamos voltando para o Brasil, atravessamos os Andes outra vez, pela Selva. Quando acabou a estrada colocamos a Kombi em uma balsa no Rio Amazonas. No meio da Selva Amazônica, ficamos uns dois meses viajando pelo meio da selva, mas aí tem mil histórias. Passamos pela Bolívia, por La Paz, Santa Cruz de La Sierra. Colocávamos o carro dentro de um vagão de trem, depois pegávamos outra balsa.
Chegamos no Brasil e montamos a fábrica de parafinas, meus irmãos começaram a trabalhar junto e ganhamos uma grana. A fábrica era em Saquarema e chegamos a produzir centenas de caixas de parafina.


REPRODUÇÃO DE ANÚNCIO DA BRASIL SURF 1976
OTÁVIO SURFANDO EM PIPELINE. FOTO: JEFF DIVINE

OTÁVIO EM ITAÚNA, SAQUAREMA, ANOS 70 - FOTO: MÚCIO SCORZELLI

PIONEIRISMO EM SAQUAREMA

O surf em Saquarema começou com o Armando Serra, Russell Coffin, Maraca, Tito Rosemberg, eles foram os primeiros a frequentar, isso em 64 \ 65.
Nessa época eu tinha 12 para treze anos e já ouvia falar de Itaúna lá no Arpoador. Eu acabei indo para Saquarema em 1969, foi na época em que o Penho tinha acabado de voltar do Hawaii, no final de 1968. O primeiro surfista a ir morar em Saquarema foi o Penho. Ele morava ali em frente ao point em uma casinha de um sargento. Ele tinha uma salinha de shape e laminação. No ano seguinte em 1970 também fui morar lá, antes de ir para o Sul. No início a gente acampava em frente à casa do Penho, tomava banho na casa dele. Depois a gente começou a alugar casas. Eu acabei comprando uma casinha. Quando eu voltei do Peru, já em 1974, que montamos a fábrica de parafinas. Aí começou uma outra era. Com aquele negócio das ondas grandes em Itaúna. Montamos uma base lá. Era o nosso North Shore do Rio de Janeiro. Acabei ficando quase 20 anos.
Começamos a descobrir todos aqueles picos das redondezas, inclusive a Laje do Jaconé. Pelo que eu saiba, eu e o Gustavo Carreira fomos os primeiros a surfar lá. Nunca havia ouvido falar de ninguém ter caído antes. Eu já havia pescado ali com o Gustavo Carreira antes e tinha visto umas ondas quebrando. A gente via umas ondas grandes, mas ficava na dúvida. Isso foi em 1972.
Era no meio do nada, um lugar selvagem e a gente não usava cordinha. Entramos, eu acabei pegando a primeira onda. O Carreira pegou uma onda alucinante, tinha umas direitas também. Ele chegou a bater no fundo, machucou o calcanhar e o tornozelo. Pegamos poucas ondas, estava difícil neste dia. Peguei umas três ou quatro ondas. Consegui pegar uma boa, uma esquerda. O Carreira pegou duas ondas enormes, para a direita e uma esquerda também.
No dia seguinte eu fui na casa do Maraca, ele estava lá em Itaúna e voltei com ele. Aí o mar tinha acertado e ficou perfeito. Baixou um pouco, entrou o terral, alisou, as condições estavam excelentes. Chegamos e a maré estava numa posição boa. Ficamos só eu e o Maraca, o Gustavo estava machucado. Vi o Maraca pegar umas ondas muito boas. A partir daí, eu, o Gustavo e ele começamos a cair várias vezes lá. A Laje do Jaconé, também é conhecida pelos pescadores por seu nome tupi-guarani: Mantiba.

OTÁVIO E MARACA, COMPANHEIROS DE DIVERSAS EMPREITADAS
PRÊMIO FLUIR 2013 - FOTO FÁBIO MINDUIM

Logo depois outros surfistas começaram a ir surfar no Jaconé. Então, ao contrário do que se pensa, essa onda já foi bastante surfada, desde 1973. Ocorreram várias excursões para lá, quando Itaúna estava muito grande, quem sabia daquela onda, ia para lá. É uma onda curta, mas bem pesada. Houve a fase das descobertas...

Depois em 1975 começaram os grandes festivais em Saquarema e logo depois o Waimea 5000. O primeiro campeonato foi patrocinado pela loja do Bruno Hermany (Aquacenter) especializada em caça submarina. O Bruno Hermany não era um surfista, chegou a pegar ondas de pranchão, ele era um grande mergulhador, mas estava junto com a turma dos pioneiros do surf no Arpoador. Em 75 e 76 ocorreram os primeiros Internacionais do Rio, que o Bruno Hermany fez. A partir de 1977 o Nelson Machado, um verdadeiro "patrono do surf brasileiro" assumiu com as lojas Waimea.

FESTIVAIS DE SURF
Então, começaram estes eventos de Ubatuba e Saquarema. No primeiro ano que eu fui para Ubatuba já haviam ocorrido dois eventos. Eu fui a primeira vez em 1974, quando o Marcos Berenguer ganhou. Em 75 eu ganhei. Aí não teve campeonato durante dois anos, foi uma pena isso. Só teve um outro campeonato em 1978, esse eu ganhei também. Fui bicampeão brasileiro lá em Ubatuba. Em 75 eu fui para a final com o Mudinho, o Cisco de Santos também estava nesta final. A final foi na praia Vermelha do Norte. Depois eu ganhei em 78, fui o campeão brasileiro e era patrocinado pela US Top. O campeonato também era patrocinado pela São Paulo Alpargatas, o Paulo Issa, da Associação de Surf de Ubatuba, tinha fechado com eles.
OTÁVIO EM UBATUBA COM PATROCÍNIO DA US TOP
FOTO DE KLAUS MITTELDORF
REPRODUÇÃO DA REVISTA SUPER SURF, PUBLICADA PELA EDITORA ABRIL EM 2004
ABAIXO SEU IRMÃO MAURO PACHECO DE JAQUETA DA LEE, CAMPEÃO EM 1981
MAIS ABAIXO DANIEL FRIEDMANN EM 1978 PATROCINADO PELA BRAHMA
FOTOS DE ALBERTO SODRÉ E KLAUS


OTÁVIO EM ANÚNCIO DA 4ª CAPA DA BRASIL SURF

Quando eu ganhei o campeonato de 1978, um detalhe, antes de ir para Ubatuba, eu fechei o meu patrocínio com a Antarctica, fechei em 77, para o ano de 1978. Tanto que eu já fui para Ubatuba com a logomarca da Antarctica na prancha, tem as fotos lá. Foi um contrato até razoável para a época. Em Saquarema eu e Daniel fizemos a final (Brahma e Antarctica), até teve uma matéria interessante, que saiu no jornal O Globo, A Guerra dos Guaranás, Bhrama e Antarctica, caiu essa bateria.
OTÁVIO E DANIEL FRIEDMANN EM SAQUAREMA
REPRODUÇÃO DA VISUAL ESPORTIVO FOTO DE NILTON BARBOSA

HAWAII
Em 1973 aconteceram estas coisas todas e a gente não tinha conseguido ir para o Hawaii via Kombi. Assim que voltamos do Peru, no final de 73 e início de 74, com o dinheiro da fábrica de parafinas é que fomos para o Hawaii. Embarquei no aeroporto com uma prancha debaixo do braço, uma mochila e um violão, literalmente.
PIPELINE - FOTO: JEFF HORNBAKER

Desembarcamos no aeroporto de Honolulu, eu e o Paulo Proença, nós fomos juntos, ele era meu sócio. O primeiro lucro que tivemos com a venda das caixas de parafina foi investido na compra de passagens para o Hawaii. Nosso objetivo maior era ir para o Hawaii pegar ondas. A vida girava em torno disso. Não existia o resto. Era ir surfar no Hawaii. Ponto. Essa era a missão a ser cumprida. Determinação total e absoluta. O foco era esse.
Desembarcamos no Hawaii sem saber coisa nenhuma, o Maraca já tinha ido, o Penho também, sabíamos de Pipeline, Sunset...Isso foi em 1974. Passamos quase um ano naquela viagem para o Peru, chegamos no Brasil e ficamos uns três meses e já tínhamos a grana para ir ao Hawaii. Chegamos no aeroporto e Honolulu, pegamos aquele ônibus (The Bus) na própria Kamehameha Highway. A Kam Hwy, que passava bem atrás do aeroporto. Chegamos com as pranchas e no nosso inglês de iniciante meio arrastado falamos para o motorista: “Please, North Shore – Sunset Beach.” O cara logo falou OK. Pedimos para ele nos avisar quando parasse lá. Chegamos de noite, já estava escuro. Naquela época era uma viagem, tudo pista simples, ia parando várias vezes, levou três horas. Aquelas freeways, H1 e H2 não existiam ainda.
A gente então saltou na praia, chegamos no Hawaii, ouvíamos o barulho do mar, mas não sabíamos onde era nada. Então eu e o Paulo fomos até o Kammie’s, ali já tinha uma coisa de pizza, fomos comer lá. Atravessamos de volta em direção à Sunset Point e fomos dormir perto de uns arbustos. Acampamos com as capas das pranchas, improvisamos ali e deitamos, naquelas capas de prancha feitas com jeans pela mamãe. Eu tinha levado uma pranchinha e uma mochila. Era isso que a gente tinha. De madrugada caiu a maior chuva e acordamos todos molhados.
Aí começou a clarear o dia, o mar nem estava muito grande, mas já sentíamos o chão tremendo com as séries à noite. Quando começou a clarear o dia pudemos vislumbrar as primeiras espumas. Mal havíamos conseguido dormir com aquela excitação. Naquela penumbra, bem em frente a Sunset, queríamos ver as ondas. Foi começando a clarear. Neste dia estava com um swell de norte, as ondas tipo uns 8 pés. Comecei a ver aquele negócio e aquilo mexeu com a minha alma. Pensamos: “Meu Deus do Céu”, porque a gente havia chegado lá com pranchas pequenas, era o que tínhamos levado. Aí pegamos o ônibus de volta até Haleiwa e lá tinha uma loja de pranchas do Bill Stonebraker, comprei uma Stonebraker 8’1”, pintail. Fomos de ônibus, compramos duas pranchas. O Paulinho comprou uma do Reno Abellira, se eu não me engano, voltamos e caímos em Sunset, naquele mesmo dia do outono de 1974.
OTÁVIO PACHECO EM PIPELINE NA CAPA DA EDIÇÃO DE SET\OUT - 1977
FOTO: JEFF DIVINE

Começamos a pegar as primeiras ondas. Durante uns dois dias eu fiquei sem falar, mudo, meio atordoado.
Aí que começou aquele negócio havaiano... Alugamos uma casa em Velzyland, fomos para passar três meses e acabou que ficamos uns seis meses. Chegamos poucos meses depois do Bocão, que já estava morando em Sunset Point. Eram poucos brasileiros na temporada 1974\75.
Voltamos para o Brasil pensando em voltar no ano seguinte. Já na temporada de 1975\76 teve o campeonato Smirnoff. Como na época eu havia vencido o campeonato de Ubatuba, era como se eu fosse o campeão brasileiro, o Fred Hemmings e o Randy Rarick me convidaram para o Smirnoff, eles já estavam pensando na formação da IPS, de um Circuito Mundial de Surf, que ocorreu apenas em 1976. No final de 1975 a bateria que eu caí lembro que estava com o Gerry Lopez e o Barry Kanaiaupuni. Perdi, obviamente. Eu tenho um recorte de jornal guardado com todas as baterias deste evento.
Não me lembro muito dos detalhes, mas a partir daí que começaram os campeonatos para nós no Hawaii. A fábrica de parafina começou a crescer. Ficávamos seis meses no Hawaii. Íamos em setembro e voltávamos para o Brasil em março. No ano seguinte dividimos um mesmo quarto, eu, Bocão, Paulinho, Rico. Depois apareceu o Daniel Friedmann. Mais tarde veio o Pepê.

CAMPEONATOS NO BRASIL
Foi nessa época que começaram os campeonatos internacionais aqui. E voltando a Ubatuba, eu venci em 1975 e depois em 1978, já com o patrocínio da Antarctica. Isso já foi mais para frente, eu já tinha várias temporadas de Hawaii. Eu ia todos os anos. Com o início do Circuito da IPS, desde 1976, começaram a aumentar a quantidade de etapas. Com minha vitória neste campeonato de 1978, eu conheci o Mister Johnson, que era o diretor de marketing da São Paulo Alpargatas. Na praia o Paulo Issa me apresentou e ele me abordou, pois eu havia sido o campeão, estava em evidência. Ele me deu o cartão e falou para eu procurar ele em São Paulo, explicou assim, assado. Então eu fui lá e ele me contratou, com patrocínio da US Top.
Nesse interim a própria US Top havia participado com patrocínio de um dos eventos do Arpoador, os Waimea 5000. E eu conheci o Gioria Drill, um gringo que tinha uma empresa chamada Proeza, de agenciamento, ele patrocinava um pessoal do tênis e resolveu me contratar. Apesar de eu ter feito o contato da Alpargatas, através do Paulo Issa, como ele era o meu agente, ele levava 20% do meu ganho. Ele era um empresário e estava procurando outros patrocínios. Eu levei ele na São Paulo Alpargatas comigo, foi até bom porque isso me deu um respaldo. Foi uma coisa mais profissional, porque eu cheguei lá com um agente. Foi ele que acabou intermediando um contrato meu de um ano com a Antarctica. Esse gringo era fogo, depois que ele vendeu meu patrocínio ele acabou abrindo clínicas de vôlei e outras frentes.
Depois que fez um ano desse contrato com a Antarctica, eu fiz um contrato de dois anos com a US Top, com a São Paulo Alpargatas, aí sim que eles me patrocinaram para correr o circuito mundial, foi nessa época que fui para o Japão, Austrália, Indonésia. Isso foi de 1980 para 1981.

Cheguei a ser nono do mundo pela IPS naquela época, parcialmente, no meio da temporada. Não lembro em que lugar eu acabei.

Enfim, nossa geração então foi eu, Rico, Bocão, Daniel, o Pepê e o Cauli, fomos os ícones dessa época no final dos anos 70, início dos anos 80. Saiu até uma matéria no “O GLOBO” (eu tenho o recorte) ÍCONES DOS ANOS 70. Aparece um perfil de cada: eu, Rico, Daniel, Bocão, Pepê e Cauli.
OTÁVIO PACHECO AO LADO DE BOCÃO, RICO E CAULI
OUTRO ESPETACULAR REGISTRO DOS ANOS 70
FOTO: FEDOCA - RETIRADA DO ÁLBUM DA TOTEM

Depois começaram a aparecer Valério, Ianzinho, Valdir – fomos para a Austrália, eu competi em Bells por uns quatro anos. Cheguei a ficar três meses na Austrália.
Pegamos um carro e viajamos desde Queensland, pela costa fomos até Margaret River pelo sul e depois voltamos... Parando e pegando ondas. Caí naquela onda Black Rock, que era considerado o “Pipeline Australiano”, na divisa de Victoria, com NSW.
Nessa época eu já shapeava, fiz shapes na Austrália, em Byron Bay e depois no Japão também. Lá eu encontrei o Bocão. Fiquei shapenado várias pranchas no Japão. Cheguei até a ser patrocinado pela Dove, uma marca de roupas de borracha do Japão. Tem até um anúncio japonês. Eu e Bocão ficamos quase uns três meses no Japão.
Depois começamos a ir para a Indonésia, com o dinheiro dos shapes fiquei naquela região da Ásia, comecei a explorar, fui para Bali a primeira vez de 1978 para 1979, quando começaram a sair aquelas matérias da Indonésia. O João Príncipe me mostrou as fotos dele de G-Land, quando ele foi em 1976 – “Otávio, olha esse lugar aqui”, eu comecei a ir para lá com o Mike Boyum (falecido), quando ele estava começando a fazer o primeiro Surf Camp. Isso foi em 1979, o Peter McCabe estava junto. O camping era uma única casa na árvore e só iam umas oito a dez pessoas de cada vez. O Bob Radiasa, que tem o camping hoje, era o carregador dele, eu conheci o Bobby nessa época.
Mike Boyum era uma figuraça o cara era um piratão mesmo. Ele era um desertor nos EUA, era procurado, tem umas histórias meio barra pesada. O cara era casca grossa. A primeira vez que fui para lá acabei indo de graça, porque tinha uma modelo brasileira que ia fazer umas fotos. Mike me falou assim... 'Leva ela, que aí você vai de graça', dei um jeito de levar ela, junto com um fotógrafo brasileiro. Nesta primeira vez fui eu, o Mc Cabe, John Law, que foi um dos fundadores originais da Quiksilver e o Bruce Raymond. No mesmo ano, em uma outra viagem, o Jim Banks foi comigo, o McCabe outra vez, iam uns 10 surfistas. No outro ano fui com o Ronnie Burns. Fui umas quatro a cinco temporadas seguidas para G-Land."

No final dos anos 80, com sua veia de competidor, Otávio Pacheco logo aderiu à categoria Longboard, assim que surgiram os primeiros campeonatos. Colecionou muitos pódios.
OTÁVIO PACHECO, AO LADO DE NAT YOUNG EM UBATUBA, 1988
FOTO: SEBASTIAN ROJAS

A partir dos anos 90 e 2000, ao lado de Maraca, começou a organizar eventos de longboard. Foi responsável pela realização dos Red Bull Longboard Classic na praia do Pepê, Barra da Tijuca em 1999 e que depois foi realizado em Maresias no ano 2000. Estes foram os primeiros investimentos da Red Bull em surf no Brasil. Nos anos seguintes levaram a marca austríaca para Fernando de Noronha, realizando o Red Bull Tube & Air, um evento de aéreos e tubos. Juntos ajudaram a trazer o Mundial de Longboard da ASP para Saquarema, com o patrocínio do site Waves.Terra, em 2001.
O que Otávio nunca deixou de lado como profissão foi a arte de shapear. Mantêm sua oficina em Saquarema, ao lado de seu irmão, também shaper Fabio Pacheco. Hoje ele trabalha na cidade do Rio e utiliza uma empresa especializada em laminação, a Super Glass, de Marcelo Correa. Há mais de 20 anos também usa uma das salas de shape da companhia no Rio.
OTÁVIO PACHECO TRABALHANDO EM SUA SALA DE SHAPE
FINAL DOS ANOS 80 - SAQUAREMA
FOTO: BETO ISSA


As glórias mais recentes de Otávio Pacheco incluem a conquista da categoria Super Master do Circuito Petrobras de Longboard em 2010, vencendo a etapa da praia da Macumba e também já em 2013 a categoria Legends do Circuito Osklen de Surf, no Arpoador.

OTÁVIO NO ARPOADOR, ONDE TUDO COMEÇOU
FOTO RETIRADA DO BLOG DE RODRIGO OSBORNE

ABERTURA DE ENTREVISTA FEITA POR CARLOS LORO TAVARES
PARA A FLUIR N. 27 - JANEIRO 1988
RETRATO DE OTÁVIO EM SAQUAREMA - BRUNO ALVES
FOTO COMPETINDO EM SUNSET NO HAWAII - AARON LOYD


REPRODUÇÃO DE CONTRACAPA DA BRASIL SURF DE 1977
ESTE POSTER AMARELADO QUE ESTAVA NA PAREDE DE SUA CASA EM SAQUAREMA EM 1992 QUANDO LEVY PAIVA MONTOU A FOTO DA ABERTURA DA HARDCORE

RETIFICANDO:
NA ÉPOCA SAIU COMO SE ESTA FOTO FOSSE DE GUARATIBA
NA VERDADE A FOTO É DE ROCKY POINT NO HAWAII EM 1976
FOI TIRADA POR UM GRINGO (GARY.?.) QUE MORAVA EM BACKYARDS COM OTÁVIO


OTÁVIO PACHECO SURFANDO EM GUARATIBA NOS ANOS 70
FOTO: MÚCIO SCORZELLI


OTÁVIO COMPETINDO DE LONGBOARD NOS ANOS 2000
LENDAS DO ARPOADOR - FOTO: OLIVIA AMSLER
O ÍDOLO E AMIGO MUDINHO, AO FUNDO


FOTO DO ARQUIVO PESSOAL
COLEÇÃO DE TROFÉUS NO FINAL DOS ANOS 90 


REPRODUÇÃO DE MATÉRIA DA REVISTA HARDCORE EM 1992
ESCOLHENDO O LADO PARA FAZER A CURVA EM ITAÚNA PERFEITO
FOTO: LEVY PAIVA


REPRODUÇÃO DE PÁGINA DO LIVRO
"SURFE - DESLIZANDO SOBRE AS ONDAS"
DE CARLOS K. LORCH - EDITORA GUANABARA DOIS - 1980


REPRODUÇÃO DA MATÉRIA SURF BROTHERS
REVISTA FLUIR 1987
OTÁVIO, O MAIS VELHO, ENTRE FÁBIO E MAURO
FOTO: BETO ISSA


DROPANDO MAIS PARA DENTRO DO PICO EM WAIMEA BAY
FOTO: PAUL "GORDINHO" COHEN


OTÁVIO EM 2012, ANO EM QUE COMPLETOU 60 ANOS DE VIDA NO ARPOADOR
FOTO: FEDOCA


O legado de Otávio Pacheco para o surf brasileiro é inestimável. No livro “A Grande História do Surf Brasileiro”, ele será o protagonista de um capítulo especial ÍCONES DO SURF BRASILEIRO com oito páginas. Também terá presença no capítulo PICOS DE SURF – SAQUAREMA, contando uma história de um mar inesquecível de condição clássica em Itaúna.

Conheçam detalhes do projeto do livro clicando no link abaixo:


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