sexta-feira, 24 de abril de 2015

ADRIANO DE SOUZA FAZ HISTÓRIA NA AUSTRÁLIA

E que venha o BRASIL

Adriano Mineirinho venceu, em ondas de alta qualidade,  a última etapa da perna australiana da primeira temporada da Liga Mundial de Surf.

RECORTE DA TRANSMISSÃO DA INTERNET

O que é interessante ressaltar, além da consistência de Souza, com um terceiro no Quiksilver Pro da Gold Coast, um segundo lugar (empatado com Mick Fanning) no Rip Curl Pro Bells e a vitória no Drug Aware Margaret River é que, se existisse uma "Tríplice Coroa Australiana", Adriano teria sido o campeão disparado. Outra coisa é que destas três primeiras etapas da WSL 2015, o Brasil levou duas, com Filipe Toledo e Adriano de Souza.

No mês de maio todos os olhos do mundo competitivo do surf se voltam para o Brasil. É hora do SHOW na Barra da Tijuca.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

OTÁVIO PACHECO – Parte 2

O Mundo de um Campeão

Continuando a entrevista com o surfista carioca Otávio Pacheco (ver Parte 1 na postagem logo abaixo desta), vamos pegar a história logo após sua vitória no campeonato do Píer, no verão 1972\73.
OTÁVIO PACHECO EM PERFIL PUBLICADO NA
REVISTA HARDCORE - EDIÇÃO #36 – AGO 1992

ESTA FOTO É UMA MONTAGEM FEITA PELO FOTÓGRAFO LEVY PAIVA
NA ÉPOCA EM QUE OS FOTÓGRAFOS AINDA TRABALHAVAM COM CROMOS, LEVY PREPAROU UMA “DUPLA EXPOSIÇÃO”, FAZENDO UMA FOTO DO PÔSTER NA PAREDE DE SUA CASA EM SAQUAREMA E DEPOIS, SEM REBOBINAR A MÁQUINA, PEGOU O PERFIL DELE EM UM MESMO CROMO

Eu conheci Otávio em 1980, em Bali. Para mim ele era mais um daqueles ídolos cariocas que apareciam na BRASIL SURF, em capas, pôsteres, páginas duplas. Depois acabamos ficando bons amigos. Ele se hospedou em meu apartamento no Guarujá para disputar campeonatos de longboard em Pitangueiras, eu cheguei a ficar na casa dele em Saquarema e no Rio. Nos hospedamos juntos em picos como Maracaípe, para eventos de longboard e em diversas ocasiões o convidei para escrever textos quando eu atuava como editor de revistas, fez muitas coberturas das etapas dos mundiais de longboard pelo mundo afora para a Hardcore. Em mais de uma oportunidade e para diversos veículos, escreveu sobre o Rio e Saquarema. Ele sempre foi criativo ao colocar seus pensamentos, visões e conhecimento nas matérias sobre surf que escreveu.
ANOTAÇÕES, O LIVRETO ESCRITO POR OTÁVIO PACHECO
LANÇADO EM CONJUNTO COM A ÚLTIMA ETAPA DA ABRASP EM 1987

REPRODUÇÃO DA PÁGINA 6 DA "CARTILHA"
ANOTAÇÕES - para uma história do surf - DE SAQUAREMA
UMA INICIATIVA DA ART PRESSE EM CONJUNTO COM A REVISTA TRIP

OTÁVIO E SUA CLÁSSICA CAVADA DE BACKSIDE
ITAÚNA - SAQUAREMA - ANOS 70
REPARE A PRANCHA "LIVRE" DE LOGOS - SOUL SURF LEVADO AO EXTREMO
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Bem, voltando ao fio da meada de sua história, depois de vencer o primeiro campeonato do Píer, em Ipanema, ele se juntou aos amigos Paulo Proença, Nelsinho e Alexandre Xuxa e partiu em busca das ondas do Oceano Pacífico, o mais novo desafio que ele havia traçado como meta. Aos 20 anos de idade.

Devolvo a bola para Otávio contar esta história:
“Então a gente pegou essa Kombi, fizemos uma calefação meio artesanal nela, com isopor, mas ela não tinha aquecimento, colocamos umas cortininhas e partimos para a estrada. Fomos descendo, saímos em março de 1973, uns três meses depois desse campeonato que eu ganhei. A gente já conhecia o litoral do Sul do Brasil. Fomos pegando ondas e parando. Nosso projeto original era ir em busca das ondas grandes, dar a volta completa na América e chegar no Hawaii. A gente atravessou os Andes e o roteiro era subir toda a Estrada Pan-americana. Atravessar de Mendoza para Santiago no Chile e ir subindo o litoral inteiro pelo Pacífico, até a Califórnia, lá vender a Kombi e ir para o Hawaii.
Sabe aquela história: ‘Os Diários de Motocicleta’? Era o Diário da Kombi. As coisas que a gente passou ali, daria para fazer um filme. Detalhe, a gente não tirou nenhuma foto. Não teve nada registrado.
Tinha aquela filosofia também, o negócio é ‘Aqui Agora’, essa coisa de amanhã, de se lembrar do passado, já era. Cada dia era cada dia. A gente colocava o aqui e agora na prática. Fotos para lembrar... Não tinha nada disso. Me arrependo profundamente. Eu só queria ter 4 fotos, uma da Kombi, os quatro jogados, a gente viajando e uma foto surfando, inclusive poderíamos ter vendido para a Volkswagen isso. Essa Kombi aguentou firme. Foi e voltou.
Quando estávamos no Chile começou aquela revolução toda, o golpe do General Augusto Pinochet depondo o Presidente Salvador Allende. E nosso amigo o Paulinho Proença perdeu o passaporte dele, pois fomos assaltados lá no Chile, ele não conseguiu sair do Chile. Ele ficou e nós atravessamos a fronteira para o Peru. No último dia antes de fechar a fronteira, conseguimos vazar por Arica. No Peru alugamos uma casa em Punta Hermosa e ficamos quase um ano, uns nove meses, o Paulinho acabou chegando lá. Viajamos para o norte até Chicama, para o sul também.
Nós sabíamos que teríamos dificuldade de passar pelo Panamá com a Kombi, o dinheiro foi acabando. Nesse meio tempo conheci o peruano Gustavo Reategui, e ele tinha a licença da parafina da Surf Research, que fazia as parafinas Waxmate. Eu e o Paulo juntamos uma grana e compramos a fórmula. E resolvemos voltar para o Brasil. Antes dessa viagem já fazíamos parafinas em casa com a forminha de empada da avó. Não existiam equipamentos. Nessa época também estávamos fazendo cordinhas. No Peru começamos a fazer as primeiras com cordas de cavalo. Dávamos dois nós cegos no pé, amarrávamos na quilha, começou a machucar muito, decidimos usar meias, depois melhoramos com aquelas borrachas de injeção, garrotes de tubo cirúrgico para amortecer o impacto.
E assim acabamos voltando para o Brasil, atravessamos os Andes outra vez, pela Selva. Quando acabou a estrada colocamos a Kombi em uma balsa no Rio Amazonas. No meio da Selva Amazônica, ficamos uns dois meses viajando pelo meio da selva, mas aí tem mil histórias. Passamos pela Bolívia, por La Paz, Santa Cruz de La Sierra. Colocávamos o carro dentro de um vagão de trem, depois pegávamos outra balsa.
Chegamos no Brasil e montamos a fábrica de parafinas, meus irmãos começaram a trabalhar junto e ganhamos uma grana. A fábrica era em Saquarema e chegamos a produzir centenas de caixas de parafina.


REPRODUÇÃO DE ANÚNCIO DA BRASIL SURF 1976
OTÁVIO SURFANDO EM PIPELINE. FOTO: JEFF DIVINE

OTÁVIO EM ITAÚNA, SAQUAREMA, ANOS 70 - FOTO: MÚCIO SCORZELLI

PIONEIRISMO EM SAQUAREMA

O surf em Saquarema começou com o Armando Serra, Russell Coffin, Maraca, Tito Rosemberg, eles foram os primeiros a frequentar, isso em 64 \ 65.
Nessa época eu tinha 12 para treze anos e já ouvia falar de Itaúna lá no Arpoador. Eu acabei indo para Saquarema em 1969, foi na época em que o Penho tinha acabado de voltar do Hawaii, no final de 1968. O primeiro surfista a ir morar em Saquarema foi o Penho. Ele morava ali em frente ao point em uma casinha de um sargento. Ele tinha uma salinha de shape e laminação. No ano seguinte em 1970 também fui morar lá, antes de ir para o Sul. No início a gente acampava em frente à casa do Penho, tomava banho na casa dele. Depois a gente começou a alugar casas. Eu acabei comprando uma casinha. Quando eu voltei do Peru, já em 1974, que montamos a fábrica de parafinas. Aí começou uma outra era. Com aquele negócio das ondas grandes em Itaúna. Montamos uma base lá. Era o nosso North Shore do Rio de Janeiro. Acabei ficando quase 20 anos.
Começamos a descobrir todos aqueles picos das redondezas, inclusive a Laje do Jaconé. Pelo que eu saiba, eu e o Gustavo Carreira fomos os primeiros a surfar lá. Nunca havia ouvido falar de ninguém ter caído antes. Eu já havia pescado ali com o Gustavo Carreira antes e tinha visto umas ondas quebrando. A gente via umas ondas grandes, mas ficava na dúvida. Isso foi em 1972.
Era no meio do nada, um lugar selvagem e a gente não usava cordinha. Entramos, eu acabei pegando a primeira onda. O Carreira pegou uma onda alucinante, tinha umas direitas também. Ele chegou a bater no fundo, machucou o calcanhar e o tornozelo. Pegamos poucas ondas, estava difícil neste dia. Peguei umas três ou quatro ondas. Consegui pegar uma boa, uma esquerda. O Carreira pegou duas ondas enormes, para a direita e uma esquerda também.
No dia seguinte eu fui na casa do Maraca, ele estava lá em Itaúna e voltei com ele. Aí o mar tinha acertado e ficou perfeito. Baixou um pouco, entrou o terral, alisou, as condições estavam excelentes. Chegamos e a maré estava numa posição boa. Ficamos só eu e o Maraca, o Gustavo estava machucado. Vi o Maraca pegar umas ondas muito boas. A partir daí, eu, o Gustavo e ele começamos a cair várias vezes lá. A Laje do Jaconé, também é conhecida pelos pescadores por seu nome tupi-guarani: Mantiba.

OTÁVIO E MARACA, COMPANHEIROS DE DIVERSAS EMPREITADAS
PRÊMIO FLUIR 2013 - FOTO FÁBIO MINDUIM

Logo depois outros surfistas começaram a ir surfar no Jaconé. Então, ao contrário do que se pensa, essa onda já foi bastante surfada, desde 1973. Ocorreram várias excursões para lá, quando Itaúna estava muito grande, quem sabia daquela onda, ia para lá. É uma onda curta, mas bem pesada. Houve a fase das descobertas...

Depois em 1975 começaram os grandes festivais em Saquarema e logo depois o Waimea 5000. O primeiro campeonato foi patrocinado pela loja do Bruno Hermany (Aquacenter) especializada em caça submarina. O Bruno Hermany não era um surfista, chegou a pegar ondas de pranchão, ele era um grande mergulhador, mas estava junto com a turma dos pioneiros do surf no Arpoador. Em 75 e 76 ocorreram os primeiros Internacionais do Rio, que o Bruno Hermany fez. A partir de 1977 o Nelson Machado, um verdadeiro "patrono do surf brasileiro" assumiu com as lojas Waimea.

FESTIVAIS DE SURF
Então, começaram estes eventos de Ubatuba e Saquarema. No primeiro ano que eu fui para Ubatuba já haviam ocorrido dois eventos. Eu fui a primeira vez em 1974, quando o Marcos Berenguer ganhou. Em 75 eu ganhei. Aí não teve campeonato durante dois anos, foi uma pena isso. Só teve um outro campeonato em 1978, esse eu ganhei também. Fui bicampeão brasileiro lá em Ubatuba. Em 75 eu fui para a final com o Mudinho, o Cisco de Santos também estava nesta final. A final foi na praia Vermelha do Norte. Depois eu ganhei em 78, fui o campeão brasileiro e era patrocinado pela US Top. O campeonato também era patrocinado pela São Paulo Alpargatas, o Paulo Issa, da Associação de Surf de Ubatuba, tinha fechado com eles.
OTÁVIO EM UBATUBA COM PATROCÍNIO DA US TOP
FOTO DE KLAUS MITTELDORF
REPRODUÇÃO DA REVISTA SUPER SURF, PUBLICADA PELA EDITORA ABRIL EM 2004
ABAIXO SEU IRMÃO MAURO PACHECO DE JAQUETA DA LEE, CAMPEÃO EM 1981
MAIS ABAIXO DANIEL FRIEDMANN EM 1978 PATROCINADO PELA BRAHMA
FOTOS DE ALBERTO SODRÉ E KLAUS


OTÁVIO EM ANÚNCIO DA 4ª CAPA DA BRASIL SURF

Quando eu ganhei o campeonato de 1978, um detalhe, antes de ir para Ubatuba, eu fechei o meu patrocínio com a Antarctica, fechei em 77, para o ano de 1978. Tanto que eu já fui para Ubatuba com a logomarca da Antarctica na prancha, tem as fotos lá. Foi um contrato até razoável para a época. Em Saquarema eu e Daniel fizemos a final (Brahma e Antarctica), até teve uma matéria interessante, que saiu no jornal O Globo, A Guerra dos Guaranás, Bhrama e Antarctica, caiu essa bateria.
OTÁVIO E DANIEL FRIEDMANN EM SAQUAREMA
REPRODUÇÃO DA VISUAL ESPORTIVO FOTO DE NILTON BARBOSA

HAWAII
Em 1973 aconteceram estas coisas todas e a gente não tinha conseguido ir para o Hawaii via Kombi. Assim que voltamos do Peru, no final de 73 e início de 74, com o dinheiro da fábrica de parafinas é que fomos para o Hawaii. Embarquei no aeroporto com uma prancha debaixo do braço, uma mochila e um violão, literalmente.
PIPELINE - FOTO: JEFF HORNBAKER

Desembarcamos no aeroporto de Honolulu, eu e o Paulo Proença, nós fomos juntos, ele era meu sócio. O primeiro lucro que tivemos com a venda das caixas de parafina foi investido na compra de passagens para o Hawaii. Nosso objetivo maior era ir para o Hawaii pegar ondas. A vida girava em torno disso. Não existia o resto. Era ir surfar no Hawaii. Ponto. Essa era a missão a ser cumprida. Determinação total e absoluta. O foco era esse.
Desembarcamos no Hawaii sem saber coisa nenhuma, o Maraca já tinha ido, o Penho também, sabíamos de Pipeline, Sunset...Isso foi em 1974. Passamos quase um ano naquela viagem para o Peru, chegamos no Brasil e ficamos uns três meses e já tínhamos a grana para ir ao Hawaii. Chegamos no aeroporto e Honolulu, pegamos aquele ônibus (The Bus) na própria Kamehameha Highway. A Kam Hwy, que passava bem atrás do aeroporto. Chegamos com as pranchas e no nosso inglês de iniciante meio arrastado falamos para o motorista: “Please, North Shore – Sunset Beach.” O cara logo falou OK. Pedimos para ele nos avisar quando parasse lá. Chegamos de noite, já estava escuro. Naquela época era uma viagem, tudo pista simples, ia parando várias vezes, levou três horas. Aquelas freeways, H1 e H2 não existiam ainda.
A gente então saltou na praia, chegamos no Hawaii, ouvíamos o barulho do mar, mas não sabíamos onde era nada. Então eu e o Paulo fomos até o Kammie’s, ali já tinha uma coisa de pizza, fomos comer lá. Atravessamos de volta em direção à Sunset Point e fomos dormir perto de uns arbustos. Acampamos com as capas das pranchas, improvisamos ali e deitamos, naquelas capas de prancha feitas com jeans pela mamãe. Eu tinha levado uma pranchinha e uma mochila. Era isso que a gente tinha. De madrugada caiu a maior chuva e acordamos todos molhados.
Aí começou a clarear o dia, o mar nem estava muito grande, mas já sentíamos o chão tremendo com as séries à noite. Quando começou a clarear o dia pudemos vislumbrar as primeiras espumas. Mal havíamos conseguido dormir com aquela excitação. Naquela penumbra, bem em frente a Sunset, queríamos ver as ondas. Foi começando a clarear. Neste dia estava com um swell de norte, as ondas tipo uns 8 pés. Comecei a ver aquele negócio e aquilo mexeu com a minha alma. Pensamos: “Meu Deus do Céu”, porque a gente havia chegado lá com pranchas pequenas, era o que tínhamos levado. Aí pegamos o ônibus de volta até Haleiwa e lá tinha uma loja de pranchas do Bill Stonebraker, comprei uma Stonebraker 8’1”, pintail. Fomos de ônibus, compramos duas pranchas. O Paulinho comprou uma do Reno Abellira, se eu não me engano, voltamos e caímos em Sunset, naquele mesmo dia do outono de 1974.
OTÁVIO PACHECO EM PIPELINE NA CAPA DA EDIÇÃO DE SET\OUT - 1977
FOTO: JEFF DIVINE

Começamos a pegar as primeiras ondas. Durante uns dois dias eu fiquei sem falar, mudo, meio atordoado.
Aí que começou aquele negócio havaiano... Alugamos uma casa em Velzyland, fomos para passar três meses e acabou que ficamos uns seis meses. Chegamos poucos meses depois do Bocão, que já estava morando em Sunset Point. Eram poucos brasileiros na temporada 1974\75.
Voltamos para o Brasil pensando em voltar no ano seguinte. Já na temporada de 1975\76 teve o campeonato Smirnoff. Como na época eu havia vencido o campeonato de Ubatuba, era como se eu fosse o campeão brasileiro, o Fred Hemmings e o Randy Rarick me convidaram para o Smirnoff, eles já estavam pensando na formação da IPS, de um Circuito Mundial de Surf, que ocorreu apenas em 1976. No final de 1975 a bateria que eu caí lembro que estava com o Gerry Lopez e o Barry Kanaiaupuni. Perdi, obviamente. Eu tenho um recorte de jornal guardado com todas as baterias deste evento.
Não me lembro muito dos detalhes, mas a partir daí que começaram os campeonatos para nós no Hawaii. A fábrica de parafina começou a crescer. Ficávamos seis meses no Hawaii. Íamos em setembro e voltávamos para o Brasil em março. No ano seguinte dividimos um mesmo quarto, eu, Bocão, Paulinho, Rico. Depois apareceu o Daniel Friedmann. Mais tarde veio o Pepê.

CAMPEONATOS NO BRASIL
Foi nessa época que começaram os campeonatos internacionais aqui. E voltando a Ubatuba, eu venci em 1975 e depois em 1978, já com o patrocínio da Antarctica. Isso já foi mais para frente, eu já tinha várias temporadas de Hawaii. Eu ia todos os anos. Com o início do Circuito da IPS, desde 1976, começaram a aumentar a quantidade de etapas. Com minha vitória neste campeonato de 1978, eu conheci o Mister Johnson, que era o diretor de marketing da São Paulo Alpargatas. Na praia o Paulo Issa me apresentou e ele me abordou, pois eu havia sido o campeão, estava em evidência. Ele me deu o cartão e falou para eu procurar ele em São Paulo, explicou assim, assado. Então eu fui lá e ele me contratou, com patrocínio da US Top.
Nesse interim a própria US Top havia participado com patrocínio de um dos eventos do Arpoador, os Waimea 5000. E eu conheci o Gioria Drill, um gringo que tinha uma empresa chamada Proeza, de agenciamento, ele patrocinava um pessoal do tênis e resolveu me contratar. Apesar de eu ter feito o contato da Alpargatas, através do Paulo Issa, como ele era o meu agente, ele levava 20% do meu ganho. Ele era um empresário e estava procurando outros patrocínios. Eu levei ele na São Paulo Alpargatas comigo, foi até bom porque isso me deu um respaldo. Foi uma coisa mais profissional, porque eu cheguei lá com um agente. Foi ele que acabou intermediando um contrato meu de um ano com a Antarctica. Esse gringo era fogo, depois que ele vendeu meu patrocínio ele acabou abrindo clínicas de vôlei e outras frentes.
Depois que fez um ano desse contrato com a Antarctica, eu fiz um contrato de dois anos com a US Top, com a São Paulo Alpargatas, aí sim que eles me patrocinaram para correr o circuito mundial, foi nessa época que fui para o Japão, Austrália, Indonésia. Isso foi de 1980 para 1981.

Cheguei a ser nono do mundo pela IPS naquela época, parcialmente, no meio da temporada. Não lembro em que lugar eu acabei.

Enfim, nossa geração então foi eu, Rico, Bocão, Daniel, o Pepê e o Cauli, fomos os ícones dessa época no final dos anos 70, início dos anos 80. Saiu até uma matéria no “O GLOBO” (eu tenho o recorte) ÍCONES DOS ANOS 70. Aparece um perfil de cada: eu, Rico, Daniel, Bocão, Pepê e Cauli.
OTÁVIO PACHECO AO LADO DE BOCÃO, RICO E CAULI
OUTRO ESPETACULAR REGISTRO DOS ANOS 70
FOTO: FEDOCA - RETIRADA DO ÁLBUM DA TOTEM

Depois começaram a aparecer Valério, Ianzinho, Valdir – fomos para a Austrália, eu competi em Bells por uns quatro anos. Cheguei a ficar três meses na Austrália.
Pegamos um carro e viajamos desde Queensland, pela costa fomos até Margaret River pelo sul e depois voltamos... Parando e pegando ondas. Caí naquela onda Black Rock, que era considerado o “Pipeline Australiano”, na divisa de Victoria, com NSW.
Nessa época eu já shapeava, fiz shapes na Austrália, em Byron Bay e depois no Japão também. Lá eu encontrei o Bocão. Fiquei shapenado várias pranchas no Japão. Cheguei até a ser patrocinado pela Dove, uma marca de roupas de borracha do Japão. Tem até um anúncio japonês. Eu e Bocão ficamos quase uns três meses no Japão.
Depois começamos a ir para a Indonésia, com o dinheiro dos shapes fiquei naquela região da Ásia, comecei a explorar, fui para Bali a primeira vez de 1978 para 1979, quando começaram a sair aquelas matérias da Indonésia. O João Príncipe me mostrou as fotos dele de G-Land, quando ele foi em 1976 – “Otávio, olha esse lugar aqui”, eu comecei a ir para lá com o Mike Boyum (falecido), quando ele estava começando a fazer o primeiro Surf Camp. Isso foi em 1979, o Peter McCabe estava junto. O camping era uma única casa na árvore e só iam umas oito a dez pessoas de cada vez. O Bob Radiasa, que tem o camping hoje, era o carregador dele, eu conheci o Bobby nessa época.
Mike Boyum era uma figuraça o cara era um piratão mesmo. Ele era um desertor nos EUA, era procurado, tem umas histórias meio barra pesada. O cara era casca grossa. A primeira vez que fui para lá acabei indo de graça, porque tinha uma modelo brasileira que ia fazer umas fotos. Mike me falou assim... 'Leva ela, que aí você vai de graça', dei um jeito de levar ela, junto com um fotógrafo brasileiro. Nesta primeira vez fui eu, o Mc Cabe, John Law, que foi um dos fundadores originais da Quiksilver e o Bruce Raymond. No mesmo ano, em uma outra viagem, o Jim Banks foi comigo, o McCabe outra vez, iam uns 10 surfistas. No outro ano fui com o Ronnie Burns. Fui umas quatro a cinco temporadas seguidas para G-Land."

No final dos anos 80, com sua veia de competidor, Otávio Pacheco logo aderiu à categoria Longboard, assim que surgiram os primeiros campeonatos. Colecionou muitos pódios.
OTÁVIO PACHECO, AO LADO DE NAT YOUNG EM UBATUBA, 1988
FOTO: SEBASTIAN ROJAS

A partir dos anos 90 e 2000, ao lado de Maraca, começou a organizar eventos de longboard. Foi responsável pela realização dos Red Bull Longboard Classic na praia do Pepê, Barra da Tijuca em 1999 e que depois foi realizado em Maresias no ano 2000. Estes foram os primeiros investimentos da Red Bull em surf no Brasil. Nos anos seguintes levaram a marca austríaca para Fernando de Noronha, realizando o Red Bull Tube & Air, um evento de aéreos e tubos. Juntos ajudaram a trazer o Mundial de Longboard da ASP para Saquarema, com o patrocínio do site Waves.Terra, em 2001.
O que Otávio nunca deixou de lado como profissão foi a arte de shapear. Mantêm sua oficina em Saquarema, ao lado de seu irmão, também shaper Fabio Pacheco. Hoje ele trabalha na cidade do Rio e utiliza uma empresa especializada em laminação, a Super Glass, de Marcelo Correa. Há mais de 20 anos também usa uma das salas de shape da companhia no Rio.
OTÁVIO PACHECO TRABALHANDO EM SUA SALA DE SHAPE
FINAL DOS ANOS 80 - SAQUAREMA
FOTO: BETO ISSA


As glórias mais recentes de Otávio Pacheco incluem a conquista da categoria Super Master do Circuito Petrobras de Longboard em 2010, vencendo a etapa da praia da Macumba e também já em 2013 a categoria Legends do Circuito Osklen de Surf, no Arpoador.

OTÁVIO NO ARPOADOR, ONDE TUDO COMEÇOU
FOTO RETIRADA DO BLOG DE RODRIGO OSBORNE

ABERTURA DE ENTREVISTA FEITA POR CARLOS LORO TAVARES
PARA A FLUIR N. 27 - JANEIRO 1988
RETRATO DE OTÁVIO EM SAQUAREMA - BRUNO ALVES
FOTO COMPETINDO EM SUNSET NO HAWAII - AARON LOYD


REPRODUÇÃO DE CONTRACAPA DA BRASIL SURF DE 1977
ESTE POSTER AMARELADO QUE ESTAVA NA PAREDE DE SUA CASA EM SAQUAREMA EM 1992 QUANDO LEVY PAIVA MONTOU A FOTO DA ABERTURA DA HARDCORE

RETIFICANDO:
NA ÉPOCA SAIU COMO SE ESTA FOTO FOSSE DE GUARATIBA
NA VERDADE A FOTO É DE ROCKY POINT NO HAWAII EM 1976
FOI TIRADA POR UM GRINGO (GARY.?.) QUE MORAVA EM BACKYARDS COM OTÁVIO


OTÁVIO PACHECO SURFANDO EM GUARATIBA NOS ANOS 70
FOTO: MÚCIO SCORZELLI


OTÁVIO COMPETINDO DE LONGBOARD NOS ANOS 2000
LENDAS DO ARPOADOR - FOTO: OLIVIA AMSLER
O ÍDOLO E AMIGO MUDINHO, AO FUNDO


FOTO DO ARQUIVO PESSOAL
COLEÇÃO DE TROFÉUS NO FINAL DOS ANOS 90 


REPRODUÇÃO DE MATÉRIA DA REVISTA HARDCORE EM 1992
ESCOLHENDO O LADO PARA FAZER A CURVA EM ITAÚNA PERFEITO
FOTO: LEVY PAIVA


REPRODUÇÃO DE PÁGINA DO LIVRO
"SURFE - DESLIZANDO SOBRE AS ONDAS"
DE CARLOS K. LORCH - EDITORA GUANABARA DOIS - 1980


REPRODUÇÃO DA MATÉRIA SURF BROTHERS
REVISTA FLUIR 1987
OTÁVIO, O MAIS VELHO, ENTRE FÁBIO E MAURO
FOTO: BETO ISSA


DROPANDO MAIS PARA DENTRO DO PICO EM WAIMEA BAY
FOTO: PAUL "GORDINHO" COHEN


OTÁVIO EM 2012, ANO EM QUE COMPLETOU 60 ANOS DE VIDA NO ARPOADOR
FOTO: FEDOCA


O legado de Otávio Pacheco para o surf brasileiro é inestimável. No livro “A Grande História do Surf Brasileiro”, ele será o protagonista de um capítulo especial ÍCONES DO SURF BRASILEIRO com oito páginas. Também terá presença no capítulo PICOS DE SURF – SAQUAREMA, contando uma história de um mar inesquecível de condição clássica em Itaúna.

Conheçam detalhes do projeto do livro clicando no link abaixo:


segunda-feira, 30 de março de 2015

OTÁVIO PACHECO – Parte 1

Criado ao redor das Pedras do Arpoador e Saquá

No livro “A Grande História do Surf Brasileiro” (a ser lançado no final do ano) os capítulos com ÍCONES de nosso esporte apresentam os surfistas por ordem de idade. O carioca Otávio Pacheco teve sua infância moldada ao redor das pedras do Arpoador, foi dos primeiros a explorar as ondas do Sul do Brasil, do Chile, do Peru e se jogar para morar em Saquarema.

OTÁVIO PACHECO EM SAQUAREMA, SEU SEGUNDO LAR DEPOIS DO RIO
FOTO: ARQUIVO PESSOAL
OTÁVIO SURFANDO EM ITAÚNA NO CAMPEONATO ALA MOANA
UM DOS CÉLEBRES FESTIVAIS DE SAQUAREMA NOS ANOS 70
FOTO: KLAUS MITTELDORF
REPRODUÇÃO - HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL - EDITORA AZUL

Desde que o surf entrou em sua vida (antes dos 10 anos de idade), a dedicação a evoluir no esporte, entender e estudar ele, trabalhando com a fabricação de pranchas, parafinas, a estruturação de eventos, distribuindo seu conhecimento escrevendo com criatividade sobre o surf... Otávio encontrou uma fórmula para construir a sua vida ao redor do estilo de vida que escolheu.
Otavio Pacheco, ou Targão, como ficou conhecido e famoso nos embrionários anos 70, quando foi moldado o estereótipo do surfista \ competidor brasileiro, pode ser considerado (ao lado dos mais jovens Betão e Bocão), um dos primeiros surfistas de ondas grandes, um “Big Rider”. Durante um período da década de 70 atingiu uma supremacia técnica que levou muitos a considerarem ele o melhor, mais completo, surfista do Brasil, venceu o campeonato do Píer em 1972, o campeonato de Ubatuba por duas vezes (75 e 78) e destacava-se nas ondas havaianas. É um verdadeiro ícone do surf brasileiro e será tratado como tal no livro.
A diferença de idade entre Otávio Pacheco e Rico de Souza é de apenas um mês. Para se ter uma ideia de como estes capítulos do livro “A Grande História do Surf Brasileiro” serão apresentados, vejam a postagem do Capítulo 4, apresentada em setembro de 2013, neste BLOG.

Otavio começou a surfar de pé sobre uma prancha de madeirite em 1963, em julho de 2015 completará 63 anos de vida e o surf nunca esteve fora de sua perspectiva. Em maio do ano passado sentamos para jantar em um restaurante japonês do Leblon, onde ele reside atualmente, liguei meu celular e comecei a bombardeá-lo de perguntas. Vamos conhecer um pouco de sua história.
Com a palavra Otávio Pacheco: “Nasci em 21 de julho de 1952 no Rio de Janeiro. Nascido e criado em Ipanema e nas pedras do Arpoador.
Meu pai o ilustre publicitário Cid Pacheco, professor e fundador da ESPM do Rio e da Escola de Comunicação da UFRJ e minha mãe Myda Pacheco, professora e pioneira da dança contemporânea no Brasil, praticava balé aquático e nado sincronizado. Eles foram da primeira geração do Arpoador, ainda nos anos 40. Durante a Segunda Guerra Mundial eles começaram a frequentar o Arpoador, numa época em que o Arpoador era um fim de mundo. O Rio de Janeiro era concentrado nos bairros do Flamengo e Botafogo e nos finais de semana as pessoas se aventuravam até Copacabana e os mais desbravadores iam até o Arpoador e Ipanema, que era um areal, uma restinga ainda. Na década de 40 começaram a frequentar a praia e praticamente foram eles que inventaram a cultura de praia. Pioneiros de frescobol, vôlei de praia, caça submarina, atividades de saltar das pedras – estilo Acapulco. Tudo no Arpoador.
Eu com dois anos já frequentava o Arpoador. Minha mãe me levava de bicicleta, morávamos na Rua Barão da Tore, 15 em Ipanema, do lado do Arpoador. Então eu fui criado, literalmente, nas pedras do Arpoador. Brincando desde os dois anos de idade, começando a pegar jacaré. Aprendi a nadar ali. Um dos banhistas (salva-vidas) o Mário, praticamente me ensinou a nadar no Samarangue dentro do Arpoador. Lembro que meu pai tinha aqueles colchões de piscina e dropava as ondas, comigo junto, desde o Pontão lá de fora, com 4 a 5 anos de idade. Ele também tinha um veleiro, eu praticamente fui criado a bordo e a gente tinha essa vida. A gente velejava bastante. Íamos muito para Angra e Ilha Grande de barco. Tive muita ligação com o mar. Não podia dar outra.
Meu pai foi dessa primeira geração de homens do mar. Ele era muito amigo do lendário George Grande, que foi um dos pioneiros da caça submarina, junto com o Bruno Hermany, Bisão, Paulo Bebiano, Badué e o próprio Arduíno Colassanti, que era um pouco mais garoto, eles começaram com a caça submarina e pegavam ondas de peito, apareceram com as primeiras pranchas. Primeiro surfando deitados, com pranchas sem quilhas (bodyboard). Depois começaram a fabricar pranchas um pouco maiores, daí – para ficarem de pé, foi um pulo. As primeiras eram as Portas de Igreja. Mais tarde começaram a envergar o bico e aparafusar uma quilha de madeira atrás. Em seguida vieram as madeirites, que eram pranchas pesadíssimas, feitas de compensado. Usavam pés de pato para entrar nas ondas. Elas não tinham flutuação.
Enfim, foi aí que começou; o Irencyr Beltrão e o Arduíno começaram a fabricar. No início na Ilha do Governador, depois abriu uma marcenaria aqui no Arpoador, na R. Francisco Otaviano, de um português, que era o dono e ele fazia umas madeirites mais modernas, mais leves de compensado, com quilhas aparafusadas. As quilhas já tinham um desenho mais evoluído, eram chamadas quilhas francesas.
 OTÁVIO PACHECO EM SUA PRIMEIRA FOTO SURFANDO.
COM UMA PRANCHA DE MADEIRITE NO ARPOADOR

Comecei a surfar com estas pranchas (pegava jacaré desde os dois anos de idade) de surf, de 1962 para 1963. Eu comprei minha primeira madeirite, já usada de segunda mão, do Fabinho Kerr, ele é um pouco mais velho do que eu, ela tinha um pedaço lascado no bico, mas comecei a surfar com ela, que já tinha essa quilha francesa, que era mais próximo das que temos hoje em dia, porque as primeiras quilhas eram mais quadradas, como aquelas pranchas Hobie antigas. Podemos dizer que esta madeirite já era uma madeirite de “alta performance”. Eu não usava pés de pato, ia remando até o pontão do Arpoador, já dava para fazer manobras, dar bottom turns, roller coasters (batidas), chegava a dar cutbacks e fazer manobras de bico, consegui fazer hang-fives e hang-tens com ela. Eu ainda pegava de madeirite e começaram a aparecer várias pranchas de fibra, importadas, com os surfistas da primeira geração. Tinha pranchas Gordon & Smith, Con Surfboards. Aquela Bing do Russell Coffin, que o Peter Troy usou.

 
OTÁVIO PACHECO, HANG TEN, JÁ EM SUA SÃO CONRADO
PRAIA DO PERÓ, ENTRE BÚZIOS E CABO FRIO
ARQUIVO PESSOAL

Eu fiquei três anos pegando com essa madeirite, até 1966 e já haviam várias destas pranchas importadas. Chegaram a me roubar a madeirite que comprei do Fabinho, ela era muito boa. Comprei uma outra madeirite, também de segunda mão. Por uns três anos eu era aquele molequinho que pegava no meio da primeira geração do surf. As “lendas” da época eram o Arduíno Colassanti, o Irencyr, Jorge Bally – o Perseguição, foi o primeiro campeão brasileiro. Essa geração ainda tinha o Mário Bração e eu era o molequinho de 12 anos, que ficava metido lá no meio dos “coroas”, na verdade eles tinha uns 20 anos. Era aquele pirralho que pegava ondas ali no meio.
A segunda geração, ou uma entressafra, o pessoal da minha idade era o Betinho Lustosa, que até hoje considero um dos melhores surfistas de todos os tempos, ele era uma mistura de Mickey Dora com Nat Young, ele tinha uma elegância, um controle absoluto da prancha, uma coisa inata. E eu perguntei para o Betinho: “Em quem que você se inspirava?” Ele me disse que ninguém, que pegava onda naturalmente. Aquilo era uma vocação natural dele. A única referência que tínhamos eram as revistas Surfer, não havia vídeos, então a gente tinha esta referência que era a “bíblia” do surf.
O primeiro cara que me impressionou mais foi o Mário Bração, pelo estilo dele, me chamava muito a atenção. Eram vários surfistas bons, o Rafael Gonzalez tinha um estilo muito refinado. Carlos Mudinho, meu grande amigo, que considero meu mestre no surf e nos shapes, ele esbanja estilo até hoje. Os irmãos Rebechi, Paulo e Mário – eram surfistas de vanguarda, hoje são falecidos. O Piuí, irmão do Mário Bração. O pessoal da geração anterior ainda, que era o Marcelo Rabello e o Betinho Lustosa, que realmente foi o meu primeiro ídolo no surf. Era espantoso o talento dele. O Betinho exerceu uma forte influência sobre o meu surf naquela época, porque realmente ele era uma coisa fora do normal. Uma outra influência importante para mim foi das revistas, os surfistas que eu via em fotos e me influenciaram muito foram o Mickey Dora, depois o Nat Young e o David Nuuhiwa também. Eram nossos primeiros grandes ídolos das revistas.
Eu peguei três anos em pranchas de madeirite e o meu maior sonho de consumo era ter uma prancha de fibra. Eu filava as pranchas de fibra. Ficava sentado na areia horas e esperava os mais velhos saírem do mar. (Era aquelas coisas: “Aí moleque \ pirralho – sai logo.”
 OTÁVIO PACHECO FEZ ESTA FOTO DA FAMÍLIA: 
LIANA. FÁBIO, MYDA, O CAÇULA MAURO E CID PACHECO

Conclusão em 1966 meu irmão Fabio Pacheco e eu ganhamos uma São Conrado cada um. Ela levou três meses para ficar pronta. A minha foi um modelo Hobie e meu irmão fez uma prancha que chamava Model A, que era uma variação das Surfboards Hawaii, que eram as pranchas mais evoluídas na época, com o bico bem mais largo para noseriding. A prancha do meu irmão ficou muito melhor do que a minha e no final eu acabava sempre disputando a prancha dele. A minha era um pouco maior que a dele (que já tinha uns 10 pés). A gente ficava dividindo. A minha tinha menos bico, era um modelo diferente.
Essas São Conrado foram nossas primeiras pranchas de fibra e quando eu ganhei ela, me lembro que eu colocava a prancha em cima da cama e eu dormia no chão. Eu cedia a minha cama para a prancha. Eu reverenciava a prancha como se fosse uma “divindade”.

ENDLESS SUMMER

Já no final dos anos 60 aconteceu um fato histórico, uma coisa marcante, que foi a exibição do filme “The Endless Summer”, no auditório do consulado americano. Alguém trouxe o filme e lá no Arpoador (eu ainda era um moleque), distribuíram ingressos, foi dada entrada de graça para todo mundo. Então fomos na cidade para o consulado americano, na Av. Presidente Wilson, esquina com a Rua México, assistir ao Endless Summer.
Aquilo realmente mudou a minha vida, foi um marco. Eu quero ser isso quando eu crescer. Surfista! Pegar onda. Quando eu via aquelas imagens dos caras viajando pelo mundo atrás das ondas. Foi a primeira referência. A vida mudou ali, minha e de toda a galera. Depois eu ainda assisti várias vezes.
Em 1967 \ 68, ainda na época dos pranchões, eu lembro que ia na Loja Magno, na Rua Francisco Sá, a continuação da Visconde de Pirajá, pelo que eu sei foi a primeira Surf Shop do Brasil. Eu lá com 15 anos, com a prancha debaixo do braço e perguntava. Ô seu Jorge, quando que vai ter campeonato? Porque já haviam ocorrido alguns campeonatos no Arpoador. Eu estava no meu auge, pegando onda bem. “Um dia talvez que sabe...” Não era essa vida fácil de hoje, que tem campeonatos todos os finais de semana. A gente a fim de competir, com aquela gana de competidor, mas não tinha...

No final dos anos 60 chega o Penho do Hawaii e ele trouxe uma mini model roxa, que era como se fosse uma funboard, mas ela tinha uma rabeta pin tail. Quando eu fiz o primeiro “test-drive” nessa prancha, peguei ela lá no Arpoador, a velocidade da prancha era estonteante. Quando eu peguei a primeira onda eu caí para trás. Era muito mais difícil de pegar, a prancha muito menor do que estávamos acostumados. Levou umas ondas para eu acertar a colocação e ter o controle dela. No dia seguinte peguei meu longboard e serrei no meio. Eu pensei assim: “Isso que é o surf”. Ou seja, menos prancha, mais emoção. O conceito era esse. Todo mundo começou a serrar as pranchas.
O Penho foi o grande revolucionário que trouxe essa prancha. Foi aí que começou a fase moderna do surf no Brasil.

Quando passou a fase do longboard lembro que descasquei essa prancha do meu irmão a Model A e shapeamos uma primeira pranchinha. Não posso nem dizer que fomos shapers. Descascamos ela e passamos um ralador de queijo, diminuímos ela quase pela metade. Era uma 10 pés, virou uma 6’8”, mais ou menos. O Rico laminou esta prancha pra gente. Ela, por necessidade, acabou ficando mais estreita. A gente entregou a prancha para ele semi-pronta e o Rico terminou. No fim era uma prancha moderníssima, com 19’ de largura, a rabeta round, já bem estreita, uma boa envergadura.
Era uma prancha revolucionária e foi essa prancha que eu levei para o Sul, em 1969. Foi minha primeira expedição, com prancha e mochila nas costas, de ônibus e carona, eu e Miçairi fomos até Imbituba. Havíamos ouvido falar que algum lugar em Santa Cataria, chamado Imbituba, tinha uma configuração de ondas grandes e nós pesquisamos mapas e os registros da Marinha e percebemos que as maiores ondulações que se tinha registros eram em Santa Catarina. E também percebemos que o litoral de SC era todo recortado, muito mais que o do Rio de Janeiro. Isso significava o que? Que tinha praias viradas para todas as direções, criando a possibilidade de pegar vento e direção da ondulação, tudo junto. Que eu saiba nós fomos os primeiros surfistas do Rio de Janeiro a ir até lá.
Ficamos acampados em um barracão de guardar as redes e barcos, na praia da Vila. Fomos para passar um mês e acabou que ficamos seis meses lá. Eu voltei para o Rio e um mês depois já voltei com o Nelsinho e em seguida o Miguel Acerta e o Maraca, apareceram lá. Era o final dos anos 60, início dos anos 70 eles foram de carro e começamos a desbravar o sul. A gente não sabia o nome das praias. De Imbituba fomos para Garopaba, fomos para Ibiraquera, Itapirubá. Perguntávamos para os pescadores e fomos descobrindo os picos que davam para surfar, foi assim em Matinhos também. O espírito de desbravar estava deflagrado.
Em 1973 fui ao Peru, voltei e fabricando parafinas em Saquarema consegui grana para ir ao Hawaii, mas esta história fica para mais tarde...


OTÁVIO PACHECO - SUNSET BEACH
SEU PICO PREFERIDO NO HAWAII
FOTO: GORDINHO \ 1985

PÍER DE IPANEMA

OTÁVIO SURFANDO UM DIA CLÁSSICO NO PÍER
FOTO: CACAU / 1971

Eu já tinha ido umas duas, ou três vezes para o sul e começaram a construir o Píer de Ipanema. Tinha aquela saga da busca pela onda perfeita. O Maraca e o Gustavo Carreira foram meus primeiros grandes parceiros nesta saga de partir em busca da onda perfeita. Gostávamos de ondas grandes, já tínhamos pensado em morar em Saquarema. Nas nossas viagens para o sul surfamos em lugares que ninguém havia pegado ondas. Fomos até o Farol de Santa Marta, chegamos a passar um ano no sul. Para lá e para cá naquela região. Tinha um grupinho de surfistas lá no sul, que eram os Seftons, com o pai, eles iam lá para Imbituba o tempo todo e eles nos levaram até Torres nesta época. Eu estava com essa minha primeira pranchinha, a 6’8” e eles estavam praticamente aprendendo a pegar onda.
Aconteceu um fato curioso lá em Imbituba, na primeira vez que fomos surfar na praia da Vila as ondas estavam com 10 a 12 pés, com vento nordeste terral. Essa foi a primeira impressão que eu tive do pico. Falei: “Caramba!” Eu achava que era todos os dias assim. O que que é isso que nós descobrimos? Parecia que tínhamos chegado em outro planeta. Foi aí que começou aquela magia toda de pegar ondas grandes, cair em mares desse tamanho.
Quando chegamos lá os pescadores não queriam deixar a gente cair na água. Eles achavam que a gente iria morrer. Depois que eu e o Maraca começamos a pegar a praia da Vila com 3 metrões. Pelo que eu sabia eles não tinham visto surf ainda. Então: “Eram os Deuses Astronautas” – aquela coisa. Eles juntaram um grupo na areia e ficavam torcendo, gritavam quando a gente caía e quando saímos da água era aquela coisa mesmo... “Os Deuses Astronautas”. Todos queriam que ficássemos nas casas deles. Foi incrível isso.
Seu Bina e seu Vadinho, eram lendas lá naquela época e eles tinham um barracão ali na praia. Eles deixaram a gente ficar lá. E tinha escorpião para caramba ali. A gente passou o inverno e entrava aquele vento Minuano. Às vezes ficava dez dias e não dava nem para sair para pegar onda. Estávamos acampados, no meio dos barcos, dormindo em cima de redes. Tínhamos que esperar o mar melhorar.
Ao mesmo tempo, aqui no Rio estava sendo feito o Píer. Já tínhamos ido a Saquarema diversas vezes. Uma vez quando voltamos do sul teve o Campeonato do Píer, em dezembro de 1972, terminou no comecinho de 1973. Este campeonato ocorreu depois de uma parada nas competições durante a transição dos pranchões para as pranchinhas.
Quando começaram a construir o Píer eu e alguns amigos já sabíamos que iria começar a dar ondas ali. Pelo histórico dos píers americanos, Huntington e tal. Para nós um píer era sinônimo de ondas boas. E a geração mais antiga do Arpoador torcia um pouco o nariz, “Ihhh – vai estragar”. Eu e mais meia dúzia de amigos, a gente sentou na areia vendo a construção, com os guindastes, quando eles estavam colocando os primeiros tubulões. A gente passou parafina na prancha, ficamos sentados na areia esperando colocarem as tubulações ‘literalmente’ (entre aspas um pouco), mas quando colocaram as primeiras oito pilastras o fundo já começou a assorear e além disso eles tinham umas dragas que jogavam toneladas de areia ao lado das pilastras. Isso fez um fundo raríssimo e na primeira meia dúzia de pilastras começou a dar ondas.
OTÁVIO SURFANDO AS ONDAS DO PÍER COM O CABELO ESTILO RECO.
AO COMPLETAR 18 ANOS, SERVIU O EXÉRCITO EM 1970.
FOTO: MÚCIO SCORZELLI
ESTA FOI A PRANCHA SÃO CONRADO QUE ELE DESCASCOU PARA FAZER UMA MINI MODEL QUE LEVOU ATÉ O SUL E VOLTOU PARA TESTÁ-LA NAS PRIMEIRAS ONDAS DO PÍER

POUCOS ANOS DEPOIS, EM 1972, OS CABELOS JÁ ESTAVAM LONGOS
OTÁVIO COM O DEDO NO QUEIXO À DIREITA
VEJA OS NOMES NA LEGENDA DA FOTO DE FEDOCA
IMAGEM RETIRADA DO BLOG DE BRUNO ALVES
QUE POR SUA VEZ CAPTUROU NO ÁLBUM DA TOTEM

O Píer foi nossa primeira escola de ondas tubulares. Cada dia foi melhorando e melhorando, o pessoal nem ia mais para o Arpoador. Um detalhe é que eles colocaram estas placas de ferro e isso que fez assorear, no meio das colunas era fundo. A areia não passava de um lado para o outro. Assoreou do lado das esquerdas e também assoreou no Backdoor. As placas eram submersas, mas o suficiente para não deixar a areia passar de um lado para o outro, isso que assoreou. Formou um belo de um fundo. Foi o primeiro fundo artificial que funcionou. Tanto é que assim que tiraram o píer e as placas, o fundo acabou imediatamente. Começaram a desmontar... Acabou.
Ficamos quatro anos pegando ondas no Píer e foi nossa primeira escola de tubos. Foi aí que apareceu a geração do Pepê, que era um molequinho. Eu chamava ele de Maluquinho. Ele gostava de se jogar. A gente era radical ali. O Pepê era aquele magrinho, franzino que aparecia naqueles dias de ondas gigantes. Aquele molequinho lá fora, ele ainda não tinha técnica nenhuma, mas se jogava de tudo que era jeito. Conheci o Pepê assim. Em poucos meses, com o talento que ele tinha, evoluiu muito rápido. Ele era tipo um mascote da galera mais velha.
Tinha também meu primo de afinidade que era o Petit, que inspirou a música do Caetano, do Menino do Rio. Ele frequentava minha casa desde pequeno. Ele era um dos estilos mais bonitos do surf. Ele foi uma história aparte.

QUE DIFERENÇA! DA TRIBO DOS ANOS 70, PARA OS SURFISTAS DE HOJE
OTÁVIO PACHECO O PRIMEIRO A DIREITA
EM PÉ DA DIREITA PARA A ESQUERDA: RATÃO, MARACA E KADINHO
AGACHADO DE CAMISETA PRETA - PETIT
E AS MENINAS
INCRÍVEL FOTO DE MÚCIO SCORZELLI
RETIRADA DO LIVRO DE ALEX GUTENBERG, PUBLICADO PELA FLUIR EM 1989
"HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL"


CAMPEONATO DO PÍER

FINALISTAS DO PRIMEIRO CAMPEONATO DO PÍER, PATROCINADO PELA SKOL
DA ESQUERDA PARA A DIREITA: BETÃO, WANDERBILL, YSO AMSLER (VICE-CAMPEÃO), MARACA, 
OTÁVIO (CAMPEÃO) E PAULO PROENÇA
FOTO: NANDO MOURA

Foi a semente do profissionalismo, apareceram os primeiros ídolos do surf brasileiro. E a Skol resolveu patrocinar o campeonato, porque tinha o lançamento da primeira cerveja em lata do Brasil e escolheu o surf para promover a lata. Eram duas categorias, a Senior acima de 18 anos e a Junior. Não existia amador, ou profissional. Eu entrei na Senior e tive sorte e ganhei o campeonato. Fui campeão carioca e ganhei uma passagem para o Peru, da Stella Barros Turismo. Foi o primeiro campeonato que iniciou minha carreira de competidor e depois de atleta profissional.
COMPETINDO PARA A VITÓRIA
O EVENTO FOI FINALIZADO NO INÍCIO DE 1973
FOTO: NANDO MOURA

Como eu ganhei esta passagem, eu vendi a passagem. Com o dinheiro dela eu, o Paulinho Proença, o Nelsinho e o Xuxa, juntamos uma grana, montamos uma Kombi (que era do Xuxa) e fomos em busca das ondas grandes do Oceano Pacífico, a gente não conhecia o Pacífico...

Isso foi no começo de 1973, logo após o Campeonato do Píer.
Mas vamos dar uma pausa aqui.
Na próxima postagem deste Blog – HISTÓRIAS DO SURF, trarei a sequência desta entrevista com Otávio Pacheco.

Fiquem com mais algumas fotos e recortes históricos de sua carreira, na certeza de que... O melhor está por vir.

 NOS DIAS DE ONDAS GRANDES O BACKDOOR DO PÍER ERA O PICO
OTÁVIO SEMPRE SE DESTACAVA NESTAS CONDIÇÕES - SEGURO - ESTILOSO
FOTO: FEDOCA

CAPA DA BRASIL SURF NÚMERO 4
ITAÚNA. FOTO: MÚCIO SCORZELLI

MATÉRIA SURF BROTHERS, CONCEBIDA POR ALCEU TOLEDO JUNIOR
PUBLICADA NA FLUIR NO FINAL DOS ANOS 80
FOTOS: BETO ISSA E BRUNO ALVES

OTÁVIO PACHECO - PIPELINE - HAWAII - 1974
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Para conhecer maiores detalhes sobre o projeto do livro “A Grande História do Surf Brasileiro”, cliquem no link abaixo: