sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

CAPÍTULO 7

        

INTRODUÇÃO À POSTAGEM DO CAPÍTULO 7

Uma primeira observação que eu gostaria de reforçar aqui é que este será o “último” dos capítulos apresentados neste blog de forma similar ao que sairá no livro.
O livro como um todo terá mais de cinquenta capítulos.
A ideia foi apresentar um esboço dos quatro tipos de capítulos.

Capítulos 1; 3; 5; 7; 9; 11... Todos os capítulos ímpares do livro serão de MEMÓRIAS do surf brasileiro. Eles tem o objetivo de contar de forma cronológica essa história. Com certeza, a partir do momento que mergulharmos nos anos 70 e depois nos tumultuados e abrangentes 80, o foco se abrirá de certa forma que a noção linear de narrativa terá de ser abandonada para o entendimento de fenômenos que transcenderam décadas. Porém, a clareza de nossa evolução permanecerá explicita.
O livro será construído de forma a permitir a leitura contínua, ou que se desfrute de cada capítulo de forma singular, alternadamente.

O Capítulo 2 – PICOS DE SURF – trouxe uma perspectiva da região costeira da cidade do Rio de Janeiro, este tipo de capítulo que ainda trará regiões como Imbituba e Garopaba, Litoral Norte de São Paulo, Saquarema e diversas regiões do Nordeste, culminando com Fernando de Noronha, é grande, ilustrado com mapa e traz depoimentos de surfistas locais.

No Capítulo 4 – ÍCONE – foi apresentado um perfil de Rico de Souza. Surfistas selecionados terão capítulos de 8 páginas dedicados à sua trajetória, importância e legado ao surf nacional.

Capítulo 6 – CAMPEONATOS – (veja a postagem abaixo de novembro 2013). As competições de surf estarão divididas em fases de amadurecimento, além de menções em todos os tipos de capítulos, como no texto apresentado a seguir.


Antes de entrar propriamente no texto deste sétimo capítulo, eu gostaria de deixar mais algumas observações:

  • O surf no Estado de São Paulo se desenvolveu em lampejos e com artefatos diferentes;
  • É como um quebra-cabeça que está sendo montado e algumas peças ainda não foram encontradas;
  • As entrevistas que colhi até o momento não chegam nem a 10% do que planejei para que o conteúdo do livro atinja a qualidade almejada;
  • Mesmo nos capítulos já colocados (do Rio de Janeiro), há uma infinidade de informações a serem cruzadas, enriquecidas...


Isso posto, vamos ao texto baseado nas informações coletadas até o momento. Como poderão perceber estes textos não estão completos e não serão os definitivos, mas eu quis honrar o prazo proposto de entrega de um capítulo por mês durante todo o segundo semestre de 2013.
Este blog não vai parar de lançar novidades referentes ao livro, ficará até mais dinâmico, com uma série de curiosidades na medida em que a pesquisa se aprofundar, mas não mais em forma de CAPÍTULOS.
Para o desfecho... Teremos de aguardar o resultado final da obra impressa!

Confesso que inclusive eu estou curioso para ver como isso vai ficar. Minha mente está aberta e a disposição é infinita para fazer o melhor trabalho.

CAPÍTULO 7

Vinheta “MEMÓRIAS” (by Tom Veiga)
      
SÃO PAULO
ANOS 60
Recomeço

O Segundo Grande Polo do Surf Nacional

Influenciados pelas pranchas de madeirite do Rio os paulistas encontram o seu caminho.

O surf em São Paulo se desenvolveu com suas peculiaridades. De forma diferente do Rio de Janeiro, que teve um foco central no Arpoador, na vasta costa do Estado de São Paulo, com ondas propícias para os iniciantes, o surf se desenvolveu em três regiões principais. Ubatuba ao norte, Guarujá (Ilha de Santo Amaro) e o berço original: Santos e São Vicente. Como vimos no primeiro capítulo do livro a Cidade de Santos, a maior do litoral paulista, foi o cenário dos primeiros registros do surf em território brasileiro. Após um breve hiato o surf se re-estabeleceria ali de forma definitiva.
Conheça os novos pioneiros paulistas.

Depois que Osmar Gonçalves foi morar no interior, Thomas e Juá Hafers foram para os EUA, Margot Rittscher ainda continuou deslizando sobre as ondas. No meio dos anos 40, teria a arte do surf (de pé) sido abandonada nas praias paulistas?
Talvez haja um elo perdido nesta história, mas até que ele seja encontrado, vamos trabalhar com o que temos de concreto.
Conversando com o professor Francisco Alfredo Alegre Araña (Cisco), que há duas décadas comanda a Escola Radical, localizada no Posto 2 em Santos, shaper, atleta de chegada desde os eventos da década de 70 e um verdadeiro mestre e estudioso do surf, ele me passou nomes de uma série de pessoas que podem ter informações chave nesse desenvolvimento do surf no Estado de São Paulo. Muitas ainda serão procuradas...
Cisco começou a surfar em 1968 com um pranchão francês Barland/Rott 9’8”, que comprou da família Hirano. Ele conta: “Antes disso cheguei a surfar com modelos de prancha caixa de fósforo e também madeirite, antes de ganhar a minha de fibra. Ainda na década de 60 tive uma segunda prancha de isopor, embalada com celofane.”
Cisco tem guardada em sua casa uma prancha de madeirite original de 1964 fabricada por Geraldo Faggiano, pai do Cocó. Suas maiores influências foram Homero Naldinho e Horácio Cocada. Mais tarde o Flávio La Barre.
Através de indicação de Cisco cheguei a Manoel dos Santos, que completará 75 anos em fevereiro de 2014, hoje ele dirige duas escolas de natação e academias em São Paulo.


ENTREVISTA MANOEL DOS SANTOS JUNIOR
(Dezembro 2013 – Morumbi São Paulo)

Nascido em 22 de fevereiro de 1939 em Guararapes no interior de São Paulo.
Em 1957 mudou-se para Santos e treinando no Clube Internacional de Regatas com os técnicos Adalberto Mariane e depois com o japonês Minoru Hirano, fez parte da seleção brasileira de natação para os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, conquistando a medalha de Bronze nos 100 metros – nado livre. Em 1961 bateu o recorde mundial nesta prova, mantendo-o por três anos.
No início dos anos 60 mudou-se para São Paulo, finalizando a sua carreira no Esporte Clube Pinheiros.




UM DOS REPONSÁVEIS PELO RENASCIMENTO DO SURF EM SÃO PAULO
Vamos ver o que MANOEL tem para nos contar:
“Morei em Santos de 1957 até 1960, fui para lá para treinar. Depois do término de minha carreira na natação, minha noiva era de Santos, eu descia todos os finais de semana e ia surfar em Itararé (São Vicente). Eu surfava junto com Roberto Hirano, que era o filho do meu técnico e tinha mais ou menos a mesma idade que eu. Na época em que eu treinava natação cheguei a morar na mesma casa que ele.
Juntos fabricamos umas pranchas de isopor, com reforço (longarina) de madeira. Isolávamos a prancha com fitas, várias voltas, para poder aplicar a lã de vidro com a resina. Nós fazíamos toda a forma da prancha, às vezes exagerávamos na curva, ficavam tortas demais. As longarinas (às vezes duas separadas) que davam a envergadura, era um serviço de marcenaria.
A ideia veio de nossa cabeça, depois de vermos filmes de Hollywood, nos quais apareciam surfistas. Foi no verão de 1958 para 1959 que decidimos fazer as primeiras pranchas. Elas mediam de 2,30 a 2,40 metros. Eram iguais às que havíamos visto nos filmes, apenas diminuímos o tamanho para aumentar a resistência, pois quanto maiores, elas quebravam mais fácil. Essas pranchas eram muito pesadas. Quando colocávamos muita lã de vidro e resina elas ficavam pesadas demais, e se diminuíamos elas perdiam a consistência e se partiam. Não havia uma espuma certa para isso, usávamos o isopor e este não tinha resistência nenhuma. Primeiro fizemos pranchas com uma longarina, depois duas e ficaram um pouco mais resistentes. As pranchas não duravam nem dois meses, mesmo se surfássemos apenas nos finais de semana. Quando percebíamos que elas iam quebrar... Já estávamos fazendo um modelo diferente, mais reforçado. O Hiraninho deve ter feito umas 15 a 20 pranchas nesse período. Passávamos vela para não escorregar.
Nosso foco principal era treinar a natação, mas nos dias que apareciam ondas boas, não era sempre, eu e o Hiraninho íamos para a praia. Não tinha mais ninguém, éramos só nós dois, no início. Nos finais de semana chegava a amontoar gente na beira da praia para nos ver surfar. Surfávamos mais no inverno, por ter menos gente. Quando perdíamos a prancha era perigoso acertar alguém na beira.
Depois eu fui para o Havaí em 1961, fui para nadar, tirei muitas fotos do pessoal surfando em Waikiki, das pranchas e trouxe isso para usarmos de base. Em 1961 as pranchas do Havaí já eram de fibra de vidro.
Preferíamos a praia de Itararé porque as ondas eram mais longas. O Hiraninho era menor do que eu e com isso era mais prático, fazia mais manobras, até o spinning (giro do corpo sobre a prancha), mas basicamente íamos nas ondas e subíamos e descíamos um pouco na parede, não fazíamos cutbacks, íamos seguindo na onda.
A partir de 1962 para 1963 deixei de ir para Santos e a turma de surfistas não chegava a dez pessoas. O Hirano continuou surfando, chegou a mandar vir pranchas do Havaí, já começaram a aparecer vários outros surfistas. Lembro que uma vez fui para o Guarujá, em 1963 para 1964 e já tinha uns trinta surfistas, lá na praia das Astúrias.”

Manoel informou que não tem nenhuma foto ligada ao surf em seu acervo, mas ainda carece de uma pesquisa em arquivos da Tribuna e pessoais.

A TURMA CRESCE COM AS MADEIRITES
Hiraninho, ou Jô Hirano, como ficou conhecido pela maioria da turma de surfistas de Santos e São Vicente, já faleceu, mas seu nome é citado por diversos pioneiros de Santos que surfam até hoje. Podemos colocar o ano de 1963 como instrumental para que o surf desabrochasse com força no Estado de São Paulo. Dos primeiros praticantes na praia de Itararé, em São Vicente, o surf foi se alastrando por Santos, depois Guarujá, chegou a Ubatuba e foi até o litoral sul. As ondas de São Paulo, como todos sabem, são muito diversificadas e excelentes para a prática do surf, desde o nível para experts, como a praia da Paúba em São Sebastião, às tranquilas ondas do Canal 3 em Santos.
A praia de Itararé com suas ondas que aparecem lá fora, quebram, formam e reformam diversas vezes, propiciando longos passeios buscando paredes abertas em seu percurso formavam o cenário perfeito para extrair o máximo daquelas pranchas de madeirite.
A evolução foi muito rápida, tudo acontecia em meses e as novidades surgiam trazidas cada vez por um adepto diferente. A maioria destes primeiros surfistas era composta pela turma dos nadadores: Jô Hirano, Di Renzo, os irmãos Paioli - José e Francisco... Cocó – Eduardo Faggiano, e seu irmão Geraldo Faggiano Junior, amparados pelo pai, Geraldo fabricaram pranchas primitivas, pesquisaram e ajudaram muito na evolução do surf paulista.
Praticamente todos estes garotos que começavam a surfar com 11, 12, 13 anos acabavam fazendo as suas próprias pranchas. Vou me valer de alguns relatos que tenho gravados para desenhar (esboçar) esta história.
Zé Paioli, o mais velho dos irmãos, nascido em 1949 conta:
“Comecei a me interessar pelo surf pois eu era nadador, foi vendo uma reportagem da revista O Cruzeiro, com o pessoal do Rio de Janeiro, que já havia começado. Eu ia para a praia em São Vicente, mas não havia visto ninguém surfando. Depois disso vi dois irmãos, que eram da família Montenegro. Eles estavam com uma prancha de madeirite, na praia de Itararé, então fui lá e perguntei como eles haviam feito a prancha. Eles me disseram para pegar uma tábua de madeirit de construção e levar numa marcenaria, desenhar o outline, fazer um rasgo para colar uma quilha com o formato da de um tubarão e colar com Araldite.
Isso foi em 1964, eu era amigo do irmão do Cocó, o Geraldo Junior, fomos à noite numa obra que tinha na Av. Presidente Wilson (havia uma pilha de madeirites lá) e pegamos duas tábuas. Levamos em uma marcenaria lá perto no dia seguinte e cortamos. Nem lembro de ter reparado na prancha dos Montenegro se ela tinha envergadura, só atentei ao detalhe da quilha. Demos uma arredondada na borda e pintei a prancha. Naquela época o material das tábuas de madeirite era muito superior aos de hoje, ele não desfolhava, era mais grosso. A qualidade era muito melhor.
CHICO PAIOLI EM 1967 - MATÉRIA DE CISCO ARAÑA PARA A REVISTA HARDCORE
Quando ela ficou pronta pedi para meu pai me levar na praia, era um dia chuvoso, eu não sabia de parafina, de vela, não sabia de nada. Eu era um bom nadador, fui para a água e fiquei nadando com a prancha até um certo ponto. Fiquei uma a duas horas na água e consegui ficar em pé em uma onda. Caramba! Maravilhoso. Eu tinha 15 anos. O Chico tinha 13, ele nem surfou nesse dia. Não tinha mais ninguém na praia. Depois de um tempo descobrimos como envergar a prancha esquentando o madeirite. Logo em seguida o Chico começou a ir comigo. Nós entrávamos na onda estourada e como a onda de Itararé abre uma parede mais para o raso, começamos a cortar as ondas. Aos poucos foram aparecendo mais surfistas e foi tudo muito rápido, depois soubemos que amigos nadadores como o Sergio Heleno e Paulo Miorim haviam trazido as primeiras madeirites. Nós estávamos ainda com madeirite, quando Di Renzo e outros nadadores amigos nossos apareceram com umas prancha caixa de fósforo, que haviam feito no Estaleiro Stepanich. Foram as primeiras pranchas ocas que vimos.”

CAIXA DE FÓSFOROS



Recentemente o shaper Eduardo Argento (1951~2013), que infelizmente faleceu neste ano, produziu uma réplica destas pranchas dentro do Museu Brasileiro do Surf, em Santos (atualmente em fase de remodelação). Estive conversando com seu irmão gêmeo TWIN, Carlos Argento Junior, nascido em 15 de março de 1951. Carlinhos também tem uma bela experiência deste início:
Estávamos aqui no Itararé, onde morávamos e um dia meu irmão falou, vamos até ali perto da Ilha Porchat ver um pessoal surfando... E eu nem sabia o que era isso. Era uma turma pequena, os irmãos Paioli, Di Renzo, Jô Hirano – os nadadores... Menos de dez surfistas.”
DUDU ARGENTO TRABALHOU EM UM SHAPE ROOM MONTADO EM CIMA DO QUEBRA-MAR DE SANTOS.
FOTO EXTRAÍDA DE MATÉRIA PUBLICADA NO SITE WAVES:

Os irmãos Argento se lançaram na produção de pranchas. Primeiro de madeirite, depois as caixas de fósforo, Carlinhos destaca que a maior vantagem delas é que boiavam. Outra tentativa foi trabalhar com pranchas de isopor revestidas com tecido morim. Depois começaram com as Pranchas Eduardo Argento e Carlos Argento Junior. A nova marca foi a NÃO Surfboards, visando afastar o crescente número de pidões que queriam emprestar suas pranchas. Culminando com as Twin, já próximo aos anos 70.
A marca Twin se tornou lendária e pioneira. Fizeram a primeira surf shop em Santos, depois inauguraram o polo de Moema com uma loja na rua Imarés. Quando começaram a buscar material para fabricação de pranchas no Rio, aproveitaram para trazer algumas camisetas (tipo Hang Ten). Na garagem do prédio deles funcionava a fábrica de pranchas e uma “lojinha”, mas isto será assunto para capítulos futuros.

Ao entrevistar Carlos na TWIN, estava de passagem por lá um outro surfista dessa geração de precursores de São Vicente:

CARLINHOS E JACKSON A FRENTE DE UMA GLASPAC ORIGINAL

JACKSON CARDIM STAMATO BERGAMO nascido em 19/9/1950 tem a sua história:
“Comecei vendo o Cocó surfar em 1963. Esse pessoal que começou a surfar com madeirites, os nadadores Di Renzo, irmãos Paioli, Hirano, o Carioca (Nelson Feitosa - que já faleceu)... Eles sabiam manobrar com as pranchas de madeirite.
Chegou um ponto que até pensávamos assim: ‘Não precisamos de pranchas que flutuam, pois conseguimos fazer tudo aqui’. Aqui em São Paulo, os que usavam pé de pato era apenas no pé de trás, pois o da frente atrapalhava muito, não dava. Eu particularmente nunca usei. Um olhava o que outro estava fazendo – ‘Ah que legal você fez isso, deu certo?’
QUILHA – pedi para um cara que tinha ferramentas, escavar com uma tupia fazendo um buraco na prancha e encaixava aparafusando do deck para a quilha. Não tinha umas cantoneiras que alguns tentaram usar. Uma outra curiosidade foi que já na primeira prancha utilizei uma tocha para esquentar perto do bico e envergar. As madeirites quebravam, cheguei a fazer longarinas de peroba para colocar em baixo delas.”

Jackson Bergamo se considera o primeiro skatista do Brasil, descendo sozinho as ladeiras da capital paulista, sem ter visto ninguém antes, desmontando patins, laminando o shape – isso em 1967, com base no que havia visto nas revistas americanas. Jackson acrescenta que, “as REVISTAS eram a maior e única referência, se não fosse por elas não teríamos base nenhuma.”
Jackson também foi mencionado no capítulo seis. Foi ele que seguiu para o Rio, Guarujá e Santos num Fusca com Paulo Issa para afixar os pôsteres do primeiro Festival Nacional de Ubatuba em 1972.

Os adolescentes que queriam se aventurar no surf tinham que se virar para começar no esporte.

MAIS PIONEIROS

Outra galera que tem se organizado para lembrar os bons tempos do surf é o Clube dos Pioneiros de Santos, uma turma grande. Tive o prazer de encontrar com três deles para captar histórias destes tempos, no apartamento de Walter Theodosio Junior encontrei Sant’Anna e Edinho, aqui vai um aperitivo de seus relatos.

JOSÉ LUIZ SANT’ANNA - 10/1/51
“Comecei a surfar com 12 anos em 1963. A primeira vez que vi alguma referência ao surf foi numa revista Seleções da Readers Digest, a matéria chamava: ‘Cavaleiros das Ondas do Mar’. Pelo que pude ver nas fotos da revista as pranchas pareciam ser de madeira. Eu fui na Serraria Brasil comprar uma placa de cedro para fazer uma prancha maciça que flutuasse.
O segundo passo foi uma madeirite, ao arrancar uma placa da cerca da obra do Hotel Brickman, que estava em construção junto com meu amigo João derrubamos metade do tapume. Saímos andando com as futuras novas pranchas quando aparece na rua uma viatura da Polícia Marítima. Era plena era da ditadura e achamos que estaríamos ferrados, mas os guardas passaram reto.”
Sant’Anna lembra de ter visto Jô Hirano com uma prancha que flutuava. “Ele foi muito importante na evolução. Até 65 usei pranchas de madeirite. Mais tarde cheguei a fabricar pranchas de fibra durante muitos anos. Foi vendo aqueles filmes da série Beach Party que percebi que as pranchas tinham volume. O Jô era mais velho, professor de judô, falava muito pouco e não dava dica nenhuma para nós. Era um cara inacessível. Entrava para surfar com um chapelão estilo mexicano. O fato é que a prancha do Jô flutuava e as nossas madeirites afundavam. Ele sentava lá fora e nós ficávamos mais na beira.
Foi nessa época que encontrei uma matéria na revista Mecânica Popular, com uma série de materiais que eu nunca havia ouvido falar. Improvisamos usando isopor, Eucatex e minha mãe fez uma capa de lonita para isolar, arredondamos a borda só em baixo, pois em cima era reto por causa do Eucatex. Ao invés de resina usamos tinta a óleo e fincamos a quilha numa longarina de pinho. Aí sentamos ao lado do Jô. Ele não acreditou. Isso foi no Canal 1.”


WALTER THEODOSIO JUNIOR - 9/1/1953
“Morei no interior até os treze anos. Vim morar em Santos em dezembro de 1966 e vi o pessoal com pranchas de madeirite. A primeira prancha que fiz era reta, só descobri que ela precisava ter uma curva depois das primeiras embicadas. A quilha, no princípio, coloquei um reforço de madeira apenas de um lado, depois de arrancá-la algumas vezes cheguei à conclusão que tinha que colocar dois. Também já pintei esta prancha de azul. Depois comprei por Cr$ 5,00 uma prancha de madeirite branca, com a borda colorida que tinha o desenho da Pantera Cor de Rosa com uma piteira. Até 1967 fiquei com pranchas de madeirite, até que no meio do ano um colega meu da escola comentou: ‘Vamos fazer uma prancha à lá Tom Blake?’ Era uma caixa de fósforo. Nessa época estas pranchas eram feitas em dois lugares, ou na Carpintaria Guarany, ou com o Nelson da Morsa. Em maio de 68 fui encomendar uma prancha com o Coronel Parreiras, ela ficou pronta em agosto, dois meses eram apenas para curar a prancha.”
WALTER E SUA SÃO CONRADO

Edinho – EDSON TADEU MARQUES DE ALMEIDA - 21/9/1953
“Eu morava no Marapé e com 11 anos de idade, em 1964 comecei a me interessar pelo movimento das madeirites, que eram tiradas de obras. Com meu vizinho Toninho fizemos duas pranchas, com uma única tábua de madeira. Estudei como eram envergadas. Para envergar usava um pano velho com álcool e colocava fogo em cima da madeirite. Isso danificava a madeira e algumas vezes quando tomávamos um tombo mais violento quebrávamos a prancha. Estudei no mesmo colégio do Cocó, que era dois anos mais velho. Foi com o pai dele, seu Geraldo, que aperfeiçoamos a técnica para envergar as pranchas. No campeonato da Ilha Porchat (1968) fui o único surfista que ainda competiu usando uma prancha do modelo caixa de fósforo. Depois criei uma marca de pranchas: Orca, até hoje ainda brinco com ela.”

SANT'ANNA, EDINHO AO CENTRO E WALTER

Eduardo Faggiano, o Cocó, tem sua entrevista agendada para o início do próximo ano, ao lado de seu irmão Geraldo Junior (2 anos mais velho) e do pai o Sr. Geraldo Faggiano, formaram uma das mais importantes famílias pioneiras do surf paulista.
Em 1962 ele viu o surf pela primeira vez em uma reportagem da revista O Cruzeiro. Com 12 anos, sem outras referências a família produziu uma primeira madeirite. Cocó também cita Paulo Mansur, pai do ex-Prefeito Beto (96 a 2004), como a pessoa que trouxe a primeira madeirite do Rio para São Vicente. Seu Geraldo sempre incentivou e ajudou os filhos, produzindo pranchas, organizando (ao lado do pai de Zé e Chico Paioli) o primeiro campeonato de São Vicente em abril de 1968. Cocó foi o shaper original da Squalo ao lado de Paulo Issa, antes disso produziu madeirites, caixas de fósforo e pranchas de fibra, agindo por tentativa e erro – acertos. Os Faggiano introduziram inovações no Brasil, tiravam informações de uma revista Mecânica Popular em espanhol, tem recortes com manchetes tipo: ‘Grande roubo de tapumes na Cidade de Santos’. Hoje está morando em Paraty no sul do Estado do Rio de Janeiro.

GUARUJÁ
Para aquela turma de Santos a maior aventura era atravessar a balsa para uma ilha na qual as ondas estavam sempre maiores, com praias de areias brancas e ondas mais desafiadoras. O Guarujá, “A Pérola do Atlântico” (já derem este slogan para Fernando de Noronha também), é um dos lugares mais consistentes de surf no Brasil. É raro ter um dia do ano sem alguma onda surfável nas praias de Pitangueiras, Astúrias, ou Tombo.
Foram os surfistas da Ilha de São Vicente que colonizaram as ondas da Ilha de Santo Amaro, desde os tempos de Osmar Gonçalves. Duas novas tribos se juntaram para desenvolver o surf no Guarujá, os nativos da ilha e os veranistas que vinham da capital paulista para desfrutar.
Carlos Motta, designer que sempre morou na capital paulista, deu brilhante entrevista para a série 70 E Tal, produzida pelo Grupo Sal, para o Canal Off, da Globosat; comentou que antes de ter a sua prancha, em meados dos anos 60, encontrou uma linda Hansen no Edifício Albamar – “Gaiola de Ouro”, nas Pitangueiras. Quando o dono da prancha não estava ia na garagem, pegava a prancha para surfar e a devolvia com todo o carinho, como se fosse sua. Carlinhos Motta foi um dos primeiros desbravadores do litoral norte, cruzando a balsa para o norte, rumo a Bertioga e ao paraíso “As Praias”...
Tenho trocado e-mails com Roberto Stickel, nascido em 14 de dezembro de 1954, outro paulistano que aderiu ao surf bem jovem: “A primeira prancha que vi na vida foi no verão de 63/64. Uma prancha de madeira tipo caixão com a forma de um caixão de defunto achatado, sem quilha. Foi também a prancha que eu comecei a surfar. Pedi emprestado e surfei  poucas vezes nesta prancha caseira absurdamente mal feita. O dono era um santista. Logo em seguida apareceu a Glaspac  MK I  do Luís Mello do Tendas, a primeira prancha de fibra no Guarujá e acredito ter sido também a primeira vendida pela Glaspac. A segunda foi a minha (não tenho certeza), o protótipo e se não me engano, foi comprada na Páscoa de 1965. Eu já estava surfando com a do Luís porque ajudava o pai dele, Paulo, a levar a prancha de volta para o fundo, ele era muito pequeno. Eles me emprestavam a prancha quando o Luís cansava."
PRAIA DAS ASTÚRIAS FINAL DOS ANOS 60.
FOTO DO ACERVO DE CLAUDIO CELSO PIERONI, QUE ESTÁ DE BERMUDA QUADRICULADA. 
LUÍS MELO É O SURFISTA SENTADO NA AREIA DE BERMUDA ROSA E AZUL. 
PARA SABER MAIS SOBRE ESTA FOTO VEJA A SEÇÃO "DAS ANTIGAS" NO 
THE SURFER'S JOURNAL BRASIL - VOL. 02.3
Stickel continua, "Minha vida náutica começou muito cedo, pegando jacaré pendurado no pescoço do meu pai quando ainda não sabia nadar. Eu adorava e posso dizer que sempre estive interessado em tudo relacionado aos esportes náuticos e por isto me lembro muito bem de tudo. Nós estávamos sempre em Santos, São Vicente, todo o Guarujá e algumas vezes no litoral Norte e nunca vi, em nenhum lugar, outros surfistas até o final de 64. Era tudo o que eu queria ver, procurava bastante, mas nunca vi.

Algum tempo depois, os irmãos Argento foram surfar nas Astúrias com uma prancha feita por eles com uma quilha já curvada. A prancha era bem tosca, mas a quilha curvada me deixou histérico. Eles já surfavam bem e pela primeira vez vi que o surf era feito quando a onda ainda não tinha estourado. Fiquei besta de ver e aí que me tornei completamente fanático. Antes de presenciar isso, só pegávamos ondas estouradas.

A próxima prancha de fibra  foi, provavelmente, a prancha mais bonita que  vi na vida. Era uma Surfboards Hawaii do Christian "Chaine " Frutig (que mais tarde produziria as lendárias Surf Champion), ele trouxe da Califórnia. Christian aprendeu em Dana Point a fazer pranchas e foi contratado pela Glaspac para assumir este departamento. Em pouco tempo as pranchas Glaspac dominaram e uma turma de santistas começou a aparecer no Guarujá com pranchas maravilhosas importadas: Dewey Weber, Gordon & Smith, Bing, Hobie e outras. 
Minha Glaspac quebrou e aí que descobri que era um protótipo mais leve e mais frágil.
Os pioneiros no Guarujá? Que eu saiba, até agora, eu sou o pioneiro paulistano, surfando com a prancha do santista. Demorou uns três meses para eu ver outro surfista no Guarujá, foi o Luís com a Glaspac. Em pouco tempo apareceram vários de uma vez e grande parte era do Colégio Santa Cruz. Tinha os 4 irmãos da família Orcesi da Costa, Chaine, meu primo Marcelo Villares, Paulo Kristian Orberg, Carlos Motta, Alfredo Pimenta, Fernando Millan, Fabio Madueño, José Maria Whitaker, Hirota, Alfio, Breda, Gui Melo, Fernando Rêgo, Alex Du Mont, Lars e Jaiminho. Esta era a turma básica dos paulistanos que surfavam mais em Pitangueiras (talvez tenha esquecido alguns). Na turma das Astúrias tinha o Luís, Egas, Teixeira, Magoo e Chicão. Na Enseada, Pernambuco e Tombo não tinha quase nada, mas alguns tinham prancha, apesar da pouca vivência em cima delas, como Gil Ribeiro, Roberto e Marcelo Aflalo, Lallado e Sergio Lunardelli. O Eduardo Prado do Guaiuba, a prancha dele foi uma das primeiras Glaspac. Também tenho que mencionar as mulheres. Surfistas mesmo foram três:  Renata Polisaitis e as minhas primas gêmeas Renata e Christine Muller. A Jéssica era a musa das Astúrias e tinha uma prancha, mas nunca a vi surfando.

Os santistas vinham surfar no Guarujá  em turma, mas não era frequente. Minha mãe ajudou muito nesta época, levando a turma toda de uma praia a outra com mais de 10 pranchas dentro da nossa perua Veraneio. Parecia aquelas fotos da Califórnia com pranchas por todo o lado e o pessoal em cima do carro. 

Agora, o destaque da turma toda era, sem dúvida nenhuma, o Silvinho Daige, filho do dono do Cine Praiano. O cara era um acrobata. A prancha MK I dele era completamente detonada e o que ele fazia em cima dela era mágico. Nenhum local do Guarujá surfava bem porque ele deve ter sugado o talento dos outros. Tenho imagens na memória inesquecíveis.
Dos surfistas da capital Paulo Kristian era o melhor desta nossa turma que escrevi aí em cima. Acho que esta turma durou até sair a Glaspac MK3, quando o esporte explodiu. O Paulo Kristian foi "O" surfista. Acho que nós dois éramos os mais fanáticos de toda a turma, mas ele estava num nível muito superior. Ele era gênio e sua genialidade levava a um surf incrivelmente puro, sem nenhum tipo de exibicionismo. Um tipo de personalidade que não existe no esporte e para o resto de nós, era só admirar alguém que estava muito acima da ralé (nós). Ele e o Silvinho, no extremo oposto, foram os verdadeiros surfistas desta época, anos 60. De longe!" completa Roberto.

FOTO TIRADA DE UM FILME SUPER 8 FEITO PELA MÃE DE ROBERTO STICKEL. 
SILVINHO DAIGE COM A SHORTBOARD AMARELA. 
FOI EM UM DOS CAMPEONATOS EM FRENTE AO CLUBE DA ORLA


FRANCISCO JOSÉ CHIARELLA mais conhecido como THYOLA
Nascido em 21 de junho de 1952 é um dos mais célebres moradores surfistas do Guarujá. Nasceu em São Paulo, estudou nos colégios Pio XII e São Luiz, começou a fabricar pranchas em 1969 (aos 17 anos) e foi dos primeiros paulistanos (moradores da capital) que se atiraram para ganhar a vida perto das ondas. Saiu dos apês de frente para o mar no Edifício Marulho e depois no Bonanza, para a rua de trás. Trocou a fábrica encravada no morro dos fundos das Pitangueiras por um terreno espaçoso na Rua do Sol e ouso afirmar que da fábrica de pranchas Lightning Bolt do Brasil saíram algumas das pranchas mais caprichadas e bem acabadas feitas em território nacional.
Ele conta: “Meu primeiro contato com o surf foi no verão de 1965 para 1966.
Vi dois franceses aqui no Guarujá e não falei com eles, depois sumiram, já tinham pranchas de fibra. Eu pegava onda deitado com planonda. Em seguida lembro de um carioca, Aru, que ficou hospedado no Marulho e tinha uma prancha vermelha em baixo e azul em cima, era uma madeirite e ele chegou a me emprestar esta prancha. Eu ficava dentro d’água, ao lado da prancha esperando a onda. Sem pé de pato. Na planonda eu já ficava de joelho, com esta consegui ficar de pé e cortar a onda.
A gente vivia na água. Nessa temporada do verão de 1966 não lembro de ter visto nenhuma outra prancha daquele lado de Pitangueiras entre a Ilha e o Canto do Maluf. Depois que o Aru foi embora, junto com meus irmãos pegamos uma placa de compensado, pegamos da praia, em frente ao Clube da Orla, que estava em obras. Não sabíamos nada, tentamos envergar. Foi só uma tentativa, esta prancha não durou muito.
Podemos dizer que o mais antigo surfista do Guarujá foi o Guaracy, o avô dele era o zelador do meu prédio, o Marulho. Ele gostava de cair quando o mar estava grande. Um pouco depois apareceram outros dois surfistas o Vigo e o Alan, que já tinham prancha São Conrado. O Fernando Rego tinha uma prancha Cyro. Depois eu e meus dois irmãos, Daco e Madinho Chiarella, ganhamos uma Glaspac. No primeiro verão tínhamos uma, depois no ano seguinte eram duas Glaspac para dividir entre os três.
Nessa época, para quem queria comprar uma prancha nova, tínhamos basicamente três opções: Procópio (madeirites), as Glaspac e Induma, que eram brancas e feitas em série, pré-moldadas.
Na segunda metade dos anos 60 a turma que começou a surfar no Guarujá foi o Roberto Teixeira, Lucha Figliolia, Luís Melo, Carlos Motta, Alfredo Pimenta, Serginho Lunardelli, Sidão Tenucci, Fernando Rego, Paulo Kristian... Não vou lembrar de todos, fomos nos conhecendo ali na praia.
Em 1969 meu pai conseguiu um amigo de Nova Iorque que trouxe três pranchas Hobie. Elas vieram de navio. Com o shaper Antonio Brito, antes de chegar a minha Hobie, chegamos a produzir as primeiras pranchas Moby. Já começamos com pranchinhas, tenho a foto da primeira Moby (mas preciso encontrar)... As primeiras pranchas foram quatro: a minha, do Britão, Marché (Marcelo Vilardi) e um colega do Colégio São Luiz, que depois parou de surfar. Os blocos nós mesmos expandíamos e depois passamos esta produção para o Paulo Issa. Ele fez uma forma de concreto, algo diferenciado, porque nós expandíamos dentro de uma caixa de madeira."

Essa história de blocos, pranchas mini models, roupas e acessórios...
Será contada nos capítulos adiante.


UBATUBA

Paulo Jolly Issa, nascido em 14 de agosto de 1949, é um dos mais velhos surfistas desta turma de desbravadores do surf, também começou a surfar em São Vicente, mas se tornaria um personagem lendário em Ubatuba.
Como ele foi parar lá?
“Meu pai praticava pesca submarina em 1964 e o batismo foi na Ilha Anchieta. Ele se encantou tanto pela região que comprou um terreno e fez uma casa na praia da Enseada, ficamos com esta casa até 1976.

PRAIA GRANDE, UBATUBA – 1967. FOTO DE PAULO ISSA 
COM SEU IRMÃO RICARDO ISSA E NELSINHO ALMEIDA.

“No começo éramos só nos três. Não víamos ninguém surfando. Depois apareceram o Renato e o Eduardo Ozores, depois o Rheiny, Livinho, Fabinho, Olavinho, João Bianchi o dono do Perequim.
Antes da praia Grande começamos a surfar na Enseada, ondas pequenas. A praia Grande foi a evolução. Ali tinha um jundu alto e o mar bravio. Ninguém ia para lá. Outra coisa curiosa que o nome praia Grande não é pela extensão e sim pela faixa de areia, que era enorme. Do jundu até a beira do mar era longe.”

Lyfe – Luiz Felipe Azevedo, criador do Ubatuba Surf Cam também deixou um relato histórico do surf em Ubatuba no site UBAWEB:
Cliquem para ler...

Paulo Issa comenta sobre o seu início no surf: “Em 1966 meu padrasto comprou uma revenda Volkswagen em Santos e fomos morar em São Vicente. Tive o primeiro contato com o surf ali na praia, fiquei conhecendo o pessoal todo lá. Minha primeira prancha foi de madeirite, os cabeças da turma eram o Cocó, Nelsinho Almeida, Fernando Mittelman – o Fernandão que acabou vencendo o campeonato do Guarujá em 1967, na categoria Junior. Meu irmão Ricardo Issa, três anos mais novo do que eu, começou nessa época também.
No tempo das madeirites éramos todos molecada e à noite saímos buscando as tábuas nos prédios. As formas das lajes eram de madeirite. Os caras se dependuravam para arrancar. Mais curioso era no momento de envergar as pranchas. Colocávamos uma pedra embaixo do bico, outra em cima e tacávamos fogo, em menos de um minuto já começava a envergar e quando chegava no ponto que queríamos... Jogávamos um balde d’água. As bolinas (aquelas grandes), tipo uma barbatana de tubarão fixávamos com mãos francesas. Ainda colocávamos um ripa em baixo como longarina. Pingávamos velas e a bermuda era uma calça jeans cortada.
Em 1966 era assim.”
Paulo Issa fez suas primeiras pranchas de fibra com Cocó. Na foto acima está uma delas. A outra é um modelo Glaspac.

GLASPAC

Nascimento da Glaspac, por Carlos Argento: “Di Renzo trouxe uma prancha fabricada nos EUA, do Rio de Janeiro, depois de uma competição de natação. Um belo dia ele e o amigo Miorim roubaram a DKW Vemaguet do pai e foram até a fábrica de buggy Glaspac, em Santo Amaro, na capital, para que o pessoal pudesse tirar o molde da prancha. Foi assim que nasceu a prancha MK I e o pior é que o Miorim ainda bateu o carro do pai”, contou Carlinhos.
O AUTOR COM UM MODELO DE PRANCHA GLASPAC MK3
ESTA PRANCHA ESTÁ NO MUSEU DO ALCINO PIRATA EM PITANGUEIRAS
A MINHA ERA AMARELA E VERMELHA
FOTO: SILVIA WINIK

As pranchas Glaspac eram as mais encontradas nas praias paulistas a partir da segunda metade dos anos 60. Os modelos foram evoluindo MK I, 2, 3... A mudança mais significativa era na quilha, o volume também foi diminuindo. Eu comecei a surfar com uma MK3 na Páscoa de 1969. Fiquei louco da vida quando voltei para a loja da Fiberglass Center, na Avenida Santo Amaro, especificamente para comprar exemplares da revista Surfer e me deparei em julho do mesmo ano, com o novo lançamento, uma mini model!?! Fiquei um ano e meio só com este pranchão Glaspac até outubro de 1970. Um pouco desta história está na postagem de 25 de abril de 2013 neste blog.
Um colega meu do Colégio Santo Américo comentou que deve me passar o contato do fundador da Glaspac – Surfboards Santo Amaro, lojas Fiberglass Center, que hoje reside na Europa.
Faz parte deste projeto ir encontrando as peças deste grande quebra-cabeça.

A história da evolução das pranchas, projetos criativos e revolucionários como os de Homero Naldinho, que precisa ser encontrado em “algum lugar de Bertioga” e outros desdobramentos serão desenvolvidos durante todo o ano de 2014...


CAMPEONATOS

Quatro campeonatos de surf formaram o alicerce do mundo competitivo do esporte no Estado de São Paulo ainda nos anos 60.
Foram três campeonatos patrocinados pelo Clube da Orla (hoje Shopping La Plage) em 67 \ 68 \ 69. Para dar lastro a estes eventos foram convidados surfistas do Rio de Janeiro, com nível muito superior, para estabelecer os critérios de julgamento e fazer exibições.

Em 1968 os pais dos Faggiano e dos Paioli organizaram um evento aberto para os surfistas do Rio de Janeiro ao lado da Ilha Porchat, em São Vicente.

Carlos Argento que chegou a vencer eventos na categoria Junior dos campeonatos do Guarujá tendo ao seu lado na final seu irmão Dudu, Cocó e Ney Sobral, comentou que neste evento da praia do Itararé Mudinho era o mais completo, arrasando todos os adversários da categoria principal. Rico era o mais jovem (mirim) e também já mostrou toda a sua competitividade no evento da Ilha Porchat.

Os resultados destes campeonatos serão compilados e apresentados em uma postagem especial futura e no livro.

Para maiores informações deixo um link para apreciarem uma matéria publicada na revista TRIP de número 157 no ano de 2007:


ILUSTRAÇÕES DESTES EVENTOS

EDUARDO NOGUEIRA, O PIOLHO FOI O PRIMEIRO CAMPEÃO EM SÃO PAULO



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