quarta-feira, 31 de julho de 2013

CAPÍTULO 2

Uma prévia do segundo capítulo do livro


Este é o texto básico que sairá no livro, ainda sujeito a edições e complementos, principalmente com relação as ilustrações, mas como a ideia é o lançamento de mais seis capítulos até o final do ano (um por mês), vou disponibilizando este aperitivo aqui no BLOG. Em breve vocês poderão desfrutar da montagem de Fernando Mesquita na estética prevista para o livro.

Vejam no SITE:  www.hsurfbr.com.br


Capítulo 02 – (vinheta) PICOS DE SURF
(by Tom Veiga)                     

RIO DE JANEIRO

SURF CITY
"Onde Tudo Começou"

DUPLA 1 Abertura

A cidade do Rio de Janeiro formou as primeiras raízes para que o surf se ramificasse por todo o Brasil. Com ondas quebrando o ano inteiro e uma diversidade incrível de opções para surfar, os cariocas tem uma intimidade especial com as ondas do mar. Uma das maiores cidades do mundo a beira-mar faz jus ao rótulo de Cidade Surf. Os surfistas do Rio de Janeiro foram o principal ponto de referência para a evolução do surf brasileiro até o início dos anos 80. As gerações de surfistas se sucedem, mas o espírito permanece o mesmo para muitos dos precursores. Das madeirites que afundavam sem velocidade, aos novos designs voadores dos shapers cariocas, os moradores da cidade continuam influenciando o desenvolvimento do surf brasileiro.

(+ legendas das fotos – uma maior 2 a 3 pequenas)



DUPLA 2

Cidade Maravilhosa, bonita por natureza, ai de ti Copacabana a princesinha do mar, as garotas de Ipanema, as meninas do Leblon, as luzes do Vidigal, do Leme ao Pontal, o Rio de Janeiro continua lindo, cheio de encantos mil...
Cantado de forma poética em incontáveis músicas, o Rio inspira a vida de pessoas em qualquer esfera de atuação, mas aqui vamos contar histórias da onda que se abateu no mar.

Capital Nacional até o final dos anos 50, a cidade do Rio de Janeiro foi o epicentro da maioria dos movimentos culturais do Brasil, entre eles ser o berço que embalou o surf para se expandir por todo o território nacional. As praias da zona sul carioca continham todos os ingredientes para que uma vida de surfista em busca das ondas e aventuras tomasse sentido. O jacaré, ou “body surfing” - surf de peito, já era naturalmente praticado. Durante a II Guerra Mundial, ainda nos anos 1940, houve relatos de soldados norte americanos que trouxeram suas pranchas até o Rio em navios, mas o início oficial (e contínuo) da atividade em nosso território foi protagonizado por um pequeno grupo de mergulhadores praticantes de pesca submarina, a partir dos anos 1950.
Bruno Hermany, Arduíno Colassanti, Irencyr Beltrão e diversos outros amigos, são considerados os precursores do surf brasileiro (detalhes desta história serão apresentados no Capítulo 3) e plantaram as sementes que germinaram para que o hoje o Brasil, como nação do surf, pudesse chegar ao estágio avançado em que nos encontramos, entre as grandes potências mundiais do esporte.
Da mesma forma que o futebol, concebido na Inglaterra, foi abraçado pelo povo brasileiro e encontrou em diversos campos de várzea o ambiente propício para a geração de incontáveis craques, os elementos para a procriação de uma fonte inesgotável de talento... As praias brasileiras proporcionam um cenário similar. Ao invés dos campos da Inglaterra, as bancadas de coral da Polinésia deram vida ao surf, hoje praticado em dezenas de países. Do Rio de Janeiro o esporte se alastrou por todo nosso território e se no século passado nos transformamos nos “donos da bola”, por que não podemos agora almejar ser os donos da prancha?
Neste processo, que está em curso, as ondas do Rio têm papel fundamental. O Arpoador foi palco do primeiro campeonato organizado no país, agregou as primeiras turmas de surfistas, estabeleceu as origens de um modo de ser, um estilo de vida norteado pelos humores do mar. Observando as ondas e estudando as possibilidades, estes pioneiros tiveram de construir seus próprios artefatos, dos modelos “porta de igreja”, às pranchas de madeirite, depois veio a fibra de vidro e a espuma de poliuretano, a vocação artesanal do carioca sempre foi forte, tanto que algumas das mais prestigiadas fábricas de pranchas do Brasil ainda se encontram no Rio de Janeiro.
Todo o processo de evolução do surf brasileiro será apresentado ao longo do livro e a influência do Rio e seus surfistas estará palpitando em cada capítulo.

A Totem preparou um álbum de fotos do lendário Tito Rosemberg que pode ser visualizado pelo facebook. Todas as fotos (89 no TOTAL) tem legendas e lembranças da época.
Nesta foto de um Arpoador clássico em 1967, Irencyr Beltrão vem lá de trás enquanto Penho se adianta no bico do pranchão.



DUPLA 3 - MAPA

Título da página:  DO LEME AO PONTAL
Ao passear de carro pelas avenidas da orla da cidade do Rio de Janeiro é impossível não ficar mesmerizado pela beleza do entrono. Poucas cidades no mundo solucionam a equação: praias + cidade + mata + montanhas de uma forma tão atraente. A geografia do Rio com montanhas de pedra imponentes, a floresta dominando o cenário em diversos parques e praias de areia branca e mar azul com ondas batendo fortes é deslumbrante. Para completar o cenário a segunda maior cidade da América do Sul, com tudo de mais moderno e os contrastes típicos de um país do terceiro mundo.
Quem vive no Rio de Janeiro praticamente se acostumou, ou se adaptou, à montanha russa de emoções que é morar nesta cidade única. Este autor, paulistano de nascimento, já foi ao Rio quase uma centena de vezes. Devo ter passado quase um ano de minha vida nesta Cidade Maravilhosa, conheço bem o Rio e não canso de voltar. Vou descrever aqui um passeio imaginário (que já fiz de forma fragmentada), mas seja em dias de sol, ou chuva, sempre me deixa deslumbrado.
Gosto de chegar pela Via Dutra, correr toda a Avenida Brasil até o cais do porto, passar por trás da Igreja da Candelária, descendo a via elevada no Aeroporto Santos Dumont, pegando o aterro para ir descortinando os visuais do Pão de Açúcar, do Corcovado com o Cristo Redentor de diversos ângulos e distâncias, até passar pelo túnel que nos faz desembocar em Copacabana. A partir daí vem o que sempre aguçou minha atenção ao dirigir pela orla desta Cidade Maravilhosa.

OLHOS DE SURFISTA
Um surfista dirige seu carro a beira-mar de uma forma diferente das outras pessoas. Um olho no tráfego e outro nas ondas... Vamos ao passeio imaginário. Ao chegar à Avenida Atlântica, por que não virar à esquerda e dar uma checada no Leme? Com a ondulação certa, formam-se cilindros para a esquerda de power respeitável. Toda praia de Copacabana é famosa por seus quebra-cocos potentes. Antes do aterro, na década de 60, as ondas abriam bem mais. O Baixio tem suas histórias. Até hoje acontecem dias de tubos memoráveis no Posto 5.
Passear de carro por Copacabana sempre tem atrativos extras que tiram a atenção do mar, como o imponente hotel Copacabana Palace e os outros prédios, colados uns nos outros, que valorizam cada centímetro do metro quadrado de frente para o mar mais famoso (não o mais caro) do mundo. Atravessar na diagonal em direção a Ipanema nos transporta para o verdadeiro berço do surf carioca e brasileiro.
O conjunto formado pelo Arpoador e praia do Diabo, de costas uma para a outra, dão a chance de surfar com terral quase todos os dias. Seguindo rumo ao sul o cenário com o morro dos Dois Irmãos e a Pedra da Gávea é um dos mais belos cartões postais do Rio. Chegando ao Pontão do Leblon com uma grande ondulação de sul o espetáculo é garantido pelos surfistas que se atiram em direitas que podem passar dos quatro metros.
Para cima na Av. Oscar Niemayer e quem sabe a Laje do Sheraton poderá estar quebrando ainda maior. As curvas da avenida fazem jus aos desenhos do saudoso mestre da arquitetura brasileira. Descendo para a praia do Pepino, as ondas se formam em triângulos muito tubulares. As praias de São Conrado e da Gávea tem seus dias. Ali no canto direito um espetáculo à parte é assistir o pouso das asas que despencaram da Pedra Bonita.
O próximo passo é atravessar o viaduto de dois andares que nos leva até a Barra, passando batido pela bela praia da Joatinga. Do Quebra-Mar, seguindo rumo ao Postinho, praia do Pepê, todo o Meio da Barra, Alfabarrels, a Reserva, até o Recreio em uma manhã sem vento, ou numa tarde de terral perfeito é possível fazer muito a cabeça. Sem contar o cenário “chic” da Avenida Sernambetiba. Há quem preferisse a Barra da Tijuca sem um único prédio, mas estamos nos dirigindo para isso.
O extremo sul do Município do Rio de Janeiro é o lado “country” da cidade. No Pontal do Recreio ocorre uma situação similar à do Arpex com o Diabo. Vento Sul o Canto do Recreio segura terral, o nordeste entra alinhando as ondas da Macumba. Na sequência vem a Prainha e Grumari que escaparam da especulação imobiliária e têm ondas fantásticas.
O tiro final do passeio vai nos levar às antológicas esquerdas de Guaratiba, bem na saída da Restinga da Marambaia. O Rio de Janeiro possui ondas consistentes, que podem não ser perfeitas todos os dias, mas que pela diversidade de opções nunca deixa os surfistas mais fissurados na mão. Uma cidade maravilhosa, com ondas maravilhosas e um povo que expressa sua alegria neste contato com o mar e a natureza.

MAPA ESPECIAL QUE ESTÁ SENDO PREPARADO PELO ARTISTA LEANDRO SILVA






O mapa inteiro, que em seu tamanho original está sendo confeccionado numa tela de 60 cm de altura, por 3,60 metros de largura. Será apresentado em uma página dupla do livro.
A pintura abrangerá do Pão de Açúcar até a Restinga da Marambaia 
CONHEÇAM MAIS SOBRE LEANDRO 





DUPLA 4

MAR  ÉPICO
Barradoor

Toda a região sul e sudeste do Brasil tem uma característica típica em que os surfistas sabem que boas ondas vão acontecer. Com a entrada das frentes frias sempre vem uma ondulação de sul. O mar “sobe” e quando o vento para, antes de virar para leste a nordeste, quase sempre há uma manhã de mar liso com terral leve em todas as praias. Se o mar acerta do jeito... É garantia de surf de qualidade.
Na primavera de 1997 essas condições coincidiram com a etapa do mundial na Barra da Tijuca, a presença de Kelly Slater e um espetáculo anunciado, com a imprensa presente registrando de diversos ângulos. Na verdade este dia, como de hábito quando as ondas ficam grandes no Meio da Barra, era um festival de fechadeiras. Porém, quem surfa ali sabe que do nada aparecem ondas premiadas.
Tive a sorte de estar na beira da calçada, ao lado de amigos cariocas e presenciar ao vivo e sem muitas cores, naquele dia nublado de outubro, Kelly Slater dopar uma das ondas mais expressivamente surfadas em território nacional. Ele despencou jogando para dentro do tubo, as placas desafiaram e Slater, aos vinte e poucos anos, já tinha seu toque de “senhor do tubos”, saiu do caroço e decidiu dar um floater. Passeou por cima da crista, e passeou... E passeou. Parecia que ia sair para trás da onda, escapar da arrebentação chata do Meio da Barra. Não!!! Desceu do segundo andar, absorveu o impacto no molejo e deixou a multidão na praia atordoada. Berrando, exclamando, idolatrando. Cenas de surf que as praias do Rio foram testemunha.

Acima Fluir e abaixo Hardcore, cobertura do Kaiser Summer Surf em 1997.



DUPLA 5
RIO PELOS “CARIOCAS”
Vamos dar asas aos pontos de vista de surfistas que passaram sua existência abraçados às ondas da Cidade Maravilhosa.


TITO ROSEMBERG
(3 \ SET \ 1946)
Começou a surfar aos 16 anos em 1963
Autodidata, jornalista, fotógrafo, ativista, aventureiro, bon-vivant
 Hoje mora na Praia da Pipa (RN)

The Legend.



A aventura de surfar no Rio
“Nascer no Rio de Janeiro foi um privilégio. Ainda hoje acho que o Rio é uma das cidades mais lindas do mundo. Nos anos 60, quando eu comecei a pegar ondas, era uma cidade de poesia, da boemia, da tranquilidade... Era a época da Bossa Nova, as artes bombando com o movimento cultural e musical. E o surf estava muito ligado a estas coisas todas... Os intelectuais e o pessoal do cinema e do teatro frequentava o Arpoador. Depois isso ainda continuou no Pier, nas ‘dunas do barato’, aos poucos o surf acabou se dispersando numa megalópole. A aventura, para quem morava em Copacabana e Ipanema, que nos anos 60 era ir até a Barra, Macumba e além. Agora é o trânsito, perder duas horas para chegar na Prainha. Antigamente era o medo de ir até aquelas praias e o carro quebrar e a gente ficar abandonado naquele ‘fim de mundo’. Hoje é o medo de ser assaltado, sequestrado, ficar engarrafado horas no caminho.
A primeira turma que começou surfando, dos mergulhadores como Bruno Hermany, o Barriga (Irencyr Beltrão), Jaiminho, Arduíno, Badué... Era mais certinha, mais careta, trabalhava e tinha emprego. A minha turma compunha uma segunda geração do surf carioca que já era mais transgressora, gostava de viver na praia, fazer viagens de carona, passar a noite dormindo na areia, vivíamos uma vida de vagabundagem de beira de praia que hoje não existe mais. Acabou. Nós éramos meninos de rua, ratos de praia, mas no bom sentido. Eu morava na Rua Sá Ferreira, entre Copacabana e o Arpoador. Todas as cidades de praia desenvolvem seus personagens peculiares, pescadores, jogadores de vôlei, frescobol, até mais tarde a turma do skate e os surfistas eram mais uma dessas tribos. O Rio é uma cidade sensual, onírica, lúdica, na qual todos encontram onde brincar. Tudo no Rio é meio poético, por causa da natureza que é muito forte. A exuberância do céu, daquelas montanhas imponentes cobertas de florestas, da praia e as mulheres quase nuas. As mais lindas do mundo, com uma graça e um bom gosto... inesquecível.”



OTÁVIO PACHECO
(21 \ JUL \ 1952)
Começou a surfar aos 10 anos em 1963
Shaper, surfista profissional, jornalista, viajante, ex-fabricante de parafinas
 Desde os 2 anos de idade frequentava o Arpoador



Coleção de troféus no meio dos anos 90. Abaixo no Arpoador recente, fotos Arquivo Pessoal.




Uma vida dedicada ao surf e seu estilo de vida
“Com quatro a cinco anos de idade lembro de ir com meu pai até o pontão do Arpoador, ele tinha um colchão inflável e dropava as ondas comigo junto, em cima dele. Desde os 2 anos eu já pegava onda de jacaré. Comecei a surfar de pé em 62 para 63, com uma prancha de madeirit. Eu já ensaiava umas manobras com ela, batidas roller coaster, manobras de bico - hang 5 e hang 10. Foi nessa época que começaram a aparecer as primeiras pranchas de fibra. Nossa principal referência eram as revistas Surfer americanas. No final dos anos 60 aconteceu um marco histórico que foi a exibição do filme “The Endless Summer” no Consulado Americano no Rio, em 1967. Distribuíram ingressos de graça para a turma lá no Arpoador. Aquilo mudou a minha vida. Passei a querer viajar atrás das ondas perfeitas.
Minha primeira expedição foi em 1969, com o Miçairi, fomos para Imbituba e ficamos seis meses acampados num barracão de pescadores. Depois com Maraca desbravamos o Sul, sem saber o nome das praias. Nos anos 70 peguei um Kombi e fui com Ratão (Paulo Proença), Nelsinho e Xuxa para o Chile e Peru, voltamos pela selva amazônica, carro no trem, balsas, etc. Mas no Rio também “descobri” ondas. Quando começaram a fazer o píer, o pessoal mais antigo torcia o nariz, achava que ia estragar as ondas. Mas eu e mais meia dúzia de amigos sabíamos que ia ficar bom, pois um píer significava onda, tínhamos as referências de Huntington e outros... Sentamos na areia e ficamos literalmente esperando os guindastes trabalharem, colocarem as tubulações. Quando acumulou 8 pilastras já estava dando ondas. Depois começou a melhorar, melhorar...
Vencendo o primeiro campeonato no Pier, em dezembro de 1972, que ganhei uma passagem para o Peru. Troquei o valor da passagem pela Kombi e partimos em busca das ondas grandes em março de 1973. A ideia era seguir até a Califórnia e depois vender o carro e partir para o Havaí. Uma fórmula de parafina obtida no Peru, nos trouxe de volta ao Rio. Com Paulinho montamos a fábrica de parafinas Waxmate, em Saquarema. Era o North Shore do Rio de Janeiro, com ondas grandes. Fiquei quase vinte anos lá. Mas durante todo esse tempo nunca deixei de ter um quartel-general na cidade do Rio Janeiro, onde continuo fabricando pranchas.”



FRED D’OREY
(30 \ OUT \ 1962)
Começou a surfar em 1969, aos 6 anos no Arpoador
Ex-surfista profissional, colunista da Fluir, dono da Totem
Nascido em São Paulo, passou a vida toda no Rio e viajando pelo mundo



Fred com 14 para 15 anos surfando no Arpoador e esperando bateria. Fotos Arquivo Pessoal




Rio - “o melhor de dois mundos”
“Acho que tive o melhor dos dois mundos. Minha escola foi no Arpoador, esse pico encravado na cidade, que por toda década de 70 deu as cartas na cena brasileira como o maior celeiro do esporte. Era uma verdadeira arena. Os melhores estavam sempre no outside e no calçadão. Devagar fui subindo na hierarquia, enquanto tentava não levar muitos cascudos. Era um pico muito competitivo, e tive a sorte de assistir verdadeiros shows de surf do Daniel Friedmann, Cauli, Jefferson Cardoso, Pepê, Petit, Valdir Vargas, Pitzalis, Renan Pitanguy.
Também tive acesso a um outro lado da cidade, o lado country, mais roots, mais tranquilo. Meu pai teve um sítio por 10 anos bem atrás da Prainha, na zona oeste. Férias e fins de semana, desde os meus 10 anos de idade foram passados desbravando Grumari, Guaratiba, Recreio, Prainha, Macumba, numa época sem ninguém. Era town durante a semana e country nos fins de semana. Essa é uma das características do Rio.”



ROSALDO CAVALCANTI
(13 \ OUT \ 1963)
Começou a surfar aos 12 anos em 1975
Comunicador, produtor de conteúdo, formado em jornalismo e cinema
 Nasceu em Recife, veio para o Rio com 7 anos



Acima, Rosaldo em bateria do Circuito Realce, 1981, foto: Gordinho; abaixo, auto retrato.




Crescendo ao lado de lendários
“Eu fui morar no Arpoador em 1975 e nesse ano ali era o centro do universo do surf no Brasil. O Pier acabou em maio desse ano, ali eu surfava de isopor, de pé na prancha eu comecei a surfar em outubro. Quando acabou o Pier... Todo mundo voltou para o Arpoador e essa época foi o final dos melhores anos. Foi o “canto do cisne” do Arpoador como um lugar mágico, incrível. O melhores surfistas estavam lá, as principais competições, os shapers levavam suas pranchas para lá. Foi também o ano que surgiu a Brasil Surf, então eu via os caras na revista e eles estavam lá. Eu via o Daniel Friedmann, André Pitzalis, Bocão, Betão, Pepê, Cauli, Petit, todos estes caras que eram os meus ídolos, eles estavam lá. Eles eram cabeludos, tinham namoradas, beijavam as garotas na praia. Já transavam, viajavam, acampavam... Eu morava em frente a praia ali na Vieira Souto e surfava todos os dias, rapidamente fui evoluindo e me integrando naquela cena do Arpoador.
Aqui no Rio às vezes se juntam numa mesa seis amigos de infância com mais de 40 anos, nenhum é carioca de nascimento. Porque o Rio tem essa coisa de ser a cidade menos bairrista do Brasil. Esse espírito do Rio, ele acolhe aquele estrangeiro, o forasteiro, o cara que vem de fora e rapidamente se integra. Uma das maiores diferenças do Rio para São Paulo é que aqui tem a praia e lá todo mundo está junto, não é como um clube em que só vão pessoas de uma determinada classe social. O carioca preza muito o “savoir faire”, se você for bobo, não souber surfar, jogar vôlei, arrumar uma gatinha, você acaba virando um prego. No Rio tem muito isso, de você ser inserido na turma pelo talento que você tem, pela tua personalidade. Eu gosto de morar no Rio, acho que aqui ainda é uma cidade melhor que Honolulu, ou Sidney, porque você pode ficar isolado no meio da floresta e em cinco minutos estar no meio do crowd, na praia. E meia noite e meia tem um restaurante aberto. O Rio de Janeiro tem uma gama de opções que realmente encanta.”



PEDRO CEZAR
(06 \ 04 \ 1966)
Nasceu no Rio, mudou para Recife aos 7 meses
Poeta, fazedor de filmes, primeiro brasileiro a representar na ISA
Começou a surfar em 1977, em Candeias, voltou ao Rio em 1981


Acima, biquilha na Praia do Diabo, 1981, foto: Arquivo Pessoal; abaixo: Arpoador 1987, foto Fedoca.
 

"Rio 40 graus, Cidade Maravilha, purgatório da beleza e do caos"
“O Rio é uma espécie de faca de dois legumes para o sujeito que passou dos 40. VISUALMENTE é belíssimo, atraente e convidativo: em dias ensolarados de água turquesa ou em dias cinzentos de sudoeste o Rio te dá uma sensação eterna de pertencimento as ondas e um gosto diário de ser surfista.
SENSORIALMENTE (dentro d’água), o Rio pode ser bem cruel, impiedoso e inóspito para quem não pega onda diariamente. Frequentemente as ondas são rápidas, curtas e difíceis de ler.
Por isso envelhecer surfista no Rio é tão maravilhoso e desafiador. Do Leme ao Recreio, o Rio te cobra um surfe ágil e fiel. Depois dos 40 (e próximo dos 50), ou você aprende a lidar com esse "pedágio", ou vai morar noutro lugar. 
Daqui eu não saio.

Aprendi algumas coisas surfando no Rio:
- somente pra olhar o mar preciso de três pranchas
- recreio de olho é onda
- sal na pele é uma purpurina que dispensa carnaval e plateia.”



JULIO ADLER
(10 \ 08 \ 1967)
Nasceu no Rio, começou a surfar (pra valer) em 1981
Contador de histórias, ex-profissional – campeão carioca
Vida passada entre o Leblon, a Gávea e Ipanema


Cacimba, fotos Nilton Baptista. 



Ser Surfista no Rio
Fui empurrado numa onda na Praia do Diabo ainda nos anos 70, fiquei em pé, achei bacana, mas não bateu, Flamengo tinha um time irresistível.
Não há cidade grande no mundo melhor do que o Rio de Janeiro para ser surfista. As praias são bem no coração da cidade e em menos de meia hora você pode encontrar ondas solitárias quebrando sozinhas nas praias mais afastadas. Ao sair do mar, apenas atravesse a rua e se depare com excelentes restaurantes, livrarias, cinemas e toda sorte de gente do mundo inteiro que escolhe o Rio como lar. Saquarema, uma das melhores ondas do Brasil fica há apenas uma hora e meia do Rio.
Ser surfista no Rio é fazer parte da paisagem - e não só, mas participar da vida da cidade fazendo amizade com o vendedor de sorvetes, porteiros, milionários, garis, pivetes e diretores da musa platinada, tudo no mesmo lugar, na mesma hora, ao mesmo tempo.
Não temos as melhores ondas, mas somos incomparáveis no ambiente em volta da praia. Aliás, diga-se de passagem, essa história de passar o dia de papo pro ar num ‘Dolce Far Niente’ é coisa de carioca, Ruy Castro explica isso muito bem no seu livro, Ela é Carioca.
Antes dos surfistas conhecerem o Rio (ou vice e versa), a turma da praia já vivia como Duke e George Freeth aqui em Copacabana e Ipanema. Parafraseando o maestro Tom Jobim, Rio (ou suas ondas) não é para principiantes.




RAFAEL MELLIN
(16 \ 06 \ 1979)
Começou a surfar aos 14 anos em 1993
Diretor de TV, filmes e publicidade no Grupo Sal



Acima, Canárias, foto Smorigo. Abaixo, Ipanema, foto Minduim.




Surfista do Mar do Rio
“Nascer e crescer na zona sul do rio é uma benção. Aprender a surfar na zona sul do rio é quase um castigo. Antes que me atirem pedras, explico. Claro que é uma alegria viver cercado de cartões postais e esperar pela série sentado entre a sombra do Dois Irmãos e a Pedra da Gávea. Claro que é uma maravilha perder o rumo e o prumo, torcendo o pescoço pra acompanhar as moças que desfilam pelo posto 9 (ou 10, ou 11, ou 12…). E é claro que é fantástico estar sempre há alguns quarteirões de alguma praia de areia branca e água clara.
Mas, tentar - e conseguir - aprender a surfar num lugar em que a onda mais longa dura uns 4 ou 5 segundos… Bem, boa sorte.
Tudo bem, talvez castigo seja forte demais. Mas digamos que é, no mínimo, uma provação. São 300 e tantos dias por ano de fechadeiras temperamentais, capazes de maltratar as costelas, o quiver e o ego de qualquer um.
O cara passa tanto tempo apanhando das ondas, que acaba gostando. E muito. Aprende a gostar do drop atrasado, da virada curta, da junção, da força do caldo e do tubo, que quase nunca dá pra sair. E faz tudo de novo, quase todo dia. Até virar vício. Até já não fazer mais tanta diferença se, no final, o tubo abriu ou fechou. Afinal, é tudo tubo. E atrás vem sempre outro, quem sabe, melhor.
A brincadeira então vira aprender a ler grão de areia e adivinhar o desenho do mar. Pro sujeito que insiste e persiste na tarefa, vem o bônus: aquela dúzia de dias no ano em que não dá pra imaginar lugar melhor no mundo pra estar.
Dias sem um pingo de vento e nenhuma gota fora do lugar. Triângulos dignos de estampar um milhão de páginas duplas em qualquer surfer ou hardcore. Logo ali, na esquina.
E é na espera por esses dias que o cara se envolve, se transforma. Ser surfista no Rio é perder um pouco do juízo. É ser o cara que vai pra Mentawai preocupado se vai perder um Ipanema clássico. O cara que é apaixonado, por onda abrindo e por onda fechando. Afinal, é tudo onda. E atrás vem sempre uma melhor.”



DUPLA 6
PRAINHA
SANTUÁRIO
Tenho uma predileção pela Prainha quando vou surfar no Rio. Talvez pelo esquema aconchegante de surfar entre os morros cercados de verde, talvez por ali ser um pico característico dos surfistas. A praia é 100% surf. Pode ser ainda pelas ondas excelentes que já surfei lá, desde os anos 70, no canto esquerdo, no meio e no direito (meu preferido). Também passei sufocos, como num dia em julho de 77, fui cedinho com um amigo meu do Guarujá, estacionamos um pouco depois do pedrão, mais para o canto direito. Do mar vimos um carro parar ao lado, Paulão observou uns vultos andando abaixados atrás da Variant dele. Saímos remando como loucos. Ao chegar na areia da praia o carro dos malfeitores contornava a subida para a Macumba. Constatamos o quebra-vento partido, moletons, caixa de fitas e outros itens “portáteis” haviam sido subtraídos.
Hoje a Prainha é auto-regulada por seus frequentadores e é difícil ter uma ocorrência dessas. Muito menos surfar sozinho numa manhã de julho. A linda pequena praia passou por perigos mais assustadores, nos anos 90 um projeto faraônico com diversas torres de apartamentos de vinte andares chegou a tramitar na Prefeitura do Rio. Os surfistas se mobilizaram, foi criada a ASAP (Associação de Surfistas e Amigos da Prainha) e com ajuda de políticos de coração verde, preservacionista, este nosso santuário foi salvo desta catástrofe. Hoje a Prainha tem os mesmos moldes de outras praias, emblemáticas em suas regiões, como Bells Beach na Austrália, sendo considerada um santuário de surf. Não podemos abrir mão disso. É um patrimônio do Rio, do Brasil, mundial.
Uma das últimas praias em que as ondas acabam no Rio, segurando umas marolas surfáveis mesmos nos dias mais minúsculos, a Prainha também foi (e é) palco de belos eventos de surf. Hospedou segmentos de etapas do mundial, circuitos máster, amadores e principalmente profissionais. Uma etapa da Abrasp que ficou marcada na história da praia e do surf brasileiro foi a final de 2002 protagonizada por Leo Neves e Peterson Rosa. Um festival de tubos, aéreos e manobras iradas, ondas bem surfadas e um emocionante vira – vira. Para coroar toda essa emoção diversos surfistas chegaram a etapa decisiva com chances matemáticas do título da temporada. No final Leo Neves obteve uma virada espetacular sobre o experiente Peterson Rosa que ia em busca do tetra na Abrasp.
Independente do surf de alta performance que já foi praticado na Prainha em campeonatos o no freesurf do dia a dia, o que esta pequena faixa de areia, encravada entre as montanhas e ilhas do sul do Rio de Janeiro proporciona é momentos de surf relax, com amigos, família e num astral típico do Rio de Janeiro. O crowd chega a pegar, principalmente nos finais de semana de ondas clássicas, mas a característica da praia, com diversas opções de posicionamento, sempre acaba proporcionando uma forma para que todos os surfistas curtam suas deliciosas ondas.




Prainha, maio de 2012, foto Ricosurf.com

Abaixo, quadro de Leandro Silva.




DUPLA 7
Final
Passado, Presente e Futuro do surf no Rio

Desde os tempos em que Tito Rosemberg ia com seu jipe e seus amigos desbravar ondas inusitadas e selvagens como as da Prainha e Grumari, ainda nos anos 60, aos congestionamentos homéricos de hoje em dia para sair do centro do Rio em busca das ondas da Barra e das praias mais afastadas, as ondas cariocas nunca deixaram de surpreender e saciar a vontade dos surfistas.

Em algum pico do Rio mais de 300 dias por ano é possível encontrar ondas boas, de qualidade para fazer a cabeça de quem se propôs a surfar. Outras cidades como Huntington e Santa Cruz, que brigam pelo título de mais importante Surf City da Califórnia, Honolulu no Havaí, Sidney na Austrália, a Cidade do Cabo e Durban na África do Sul... Não importa, cada qual tem a sua personalidade.

A cidade maravilhosa do Rio de Janeiro tem predicados únicos, não só para os surfistas, como também para qualquer pessoa do planeta. A experiência de respirar o ar do Rio é intensa, com a beleza natural de seus “cartões postais”, a vida noturna pulsante, a musicalidade, os espetáculos esportivos, teatrais, conjugais, o povo sarado trotando na orla, os surfistas com suas pranchas, todos os ingredientes transformam sua faixa costeira com suas ondas em um lugar mágico. 


Reprodução da Revista Surfar. Vamos proteger esta Cidade Maravilhosa.

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